O que são os Campos Sulinos? Existe mais de um? Pampa ou Pampas? Campo e pasto são a mesma coisa? Entenda conceitos sobre este ecossistema
  • Campos Sulinos

    Termo utilizado para o conjunto das áreas campestres nos três estados da região sul do Brasil. Abrange os campos inseridos no bioma Pampa e os campos no sul do bioma Mata Atlântica. A porção mais ao norte deste gradiente inclui os Campos Gerais que ocorrem ao longo do segundo planalto paranaense, fazendo divisa com o bioma Cerrado. Em direção ao sul, no planalto de Santa Catarina e Paraná, encontramos os Campos de Cima da Serra (ver termo “Campos de Cima da Serra”), entremeados com a Floresta Ombrófila Mista, uma das fitofisionomias florestais do bioma Mata Atlântica. No litoral do Rio Grande do Sul encontramos os Campos Costeiros, com riqueza de espécies caracteristicamente menor pela limitação do solo arenoso. Cobrindo a maior porção contínua dos Campos Sulinos estão os Campos do Pampa, com variada geomorfologia e sistemas ecológicos distintos associados a estas. Além dos campos propriamente ditos, os Campos Sulinos também possuem ecossistemas específicos, como, por exemplo, os butiazais - ambientes especialmente interessantes do ponto de vista da conservação .

  • Pampa

    A palavra Pampa tem origem quéchua e significa “região de planície”. É o domínio fitogeográfico - ou bioma, na terminologia do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) - que compreende a região de vegetação predominantemente campestre que cobre a metade sul do Rio Grande do Sul, ou seja, a parte sul dos Campos Sulinos. Abriga mais de 3.500 plantas vasculares, sendo mais de 2 mil exclusivamente campestres. Foi oficialmente reconhecido como bioma pelo IBGE apenas em 2004. O Pampa ocupa pouco mais de 2% da superfície terrestre do Brasil, mas não se restringe ao nosso território nacional: faz parte dos Pastizales del Río de la Plata (ver termo “Pastizales del Río de la Plata”) que se estendem por extensas áreas nos nossos vizinhos Uruguai e Argentina. Apesar de o termo no plural, “Pampas”, aparecer no uso popular, na música, literatura e mesmo no nome comum de plantas nativas, como o capim-dos-pampas, ele não é utilizado na literatura científica.

  • Campos de Cima da Serra

    Termo utilizado regionalmente para descrever os campos do sul do bioma Mata Atlântica, também chamados campos do planalto das araucárias ou campos de altitude. Esses campos possuem altos índices de endemismo, o que quer dizer que muitas espécies de plantas só ocorrem ali e em nenhum outro local no mundo. Isso corrobora a hipótese de que esses ecossistemas são antigos e estáveis. Bem como os campos do Pampa, praticamente todas as áreas de campo na região estão sob pecuária. Tradicionalmente, utiliza-se o fogo na região como técnica de manejo associada ao uso pastoril com o objetivo de remover a vegetação seca pelo inverno e iniciar a primavera com pastagem verde para os animais. O fogo também contribui para impedir o avanço de espécies florestais sobre os campos. Apesar de ser uma prática tradicional, o uso do fogo nos Campos de Cima da Serra, assim como em qualquer região do Brasil, requer autorização do órgão ambiental competente.

  • Pastizales del Río de la Plata

    Trata-se de uma das maiores extensões de campos temperados das Américas, formando um arco ao redor do rio da Prata. O termo é traduzido para português como campos do rio da Prata, porém é geralmente utilizado em espanhol, destacando a tri-nacionalidade desta ecorregião que abrange o sul do Rio Grande do Sul (Brasil), todo o Uruguai e nordeste da Argentina. O Pampa brasileiro compõe a parte mais ao norte dessa ecorregião, enquanto os Campos de Cima da Serra (localizados no bioma Mata Atlântica) não estão incluídos aqui. Recentemente, através de colaboração internacional, foi elaborada a primeira lista de todas as plantas vasculares existentes na região, chegando ao número de 4.864 espécies. Oito por cento dessas plantas são restritas à essa região do globo, enquanto 10% são plantas exóticas. Quase metade das espécies são compartilhadas entre os três países, entretanto se observa uma diminuição na riqueza de espécies indo em direção ao sul. O conhecimento dessa flora, sua distribuição e origem auxiliam no planejamento de medidas de conservação e manejo dessa rica biodiversidade.

  • Campo nativo ou natural

    Vegetação com predomínio de gramíneas e plantas herbáceas nativas, às vezes com ocorrência também de espécies arbustivas. Apesar de sua aparência homogênea, o campo nativo abriga uma grande diversidade de espécies. Campos nativos configuram a vegetação primária na região dos Campos Sulinos e também em outras regiões de vegetação aberta do Brasil (ver termo “Campo primário”). Nos Campos Sulinos, a manutenção da fisionomia aberta e alta diversidade de espécies geralmente está associada ao pastejo, ou, em alguns casos, ao fogo (ver termo “Distúrbio”). A maior parte dos campos nativos na região dos Campos Sulinos está sendo utilizada para pecuária, como uma atividade econômica sustentável. O campo deixa de ser caracterizado como nativo quando há substituição das espécies nativas por espécies exóticas, ou quando ocorre uma degradação de alto impacto (ver termo “Campo degradado”).

  • Distúrbio

    Embora o termo possa ter, num primeiro momento, uma conotação negativa, distúrbios são processos fundamentais na dinâmica e manutenção dos ecossistemas abertos, como os Campos Sulinos. Em termos ecológicos, um distúrbio é definido como um evento que causa mudanças nos ecossistemas, podendo ser em escala ampla ou local, frequente ou isolado no tempo. Exemplos de distúrbios em ecossistemas campestres são o pastejo pelo gado, a queima da vegetação pelo fogo, ou, em escala mais restrita, o cavoucar do solo por animais como tatu ou tuco-tuco. Dentre as mudanças que os distúrbios provocam nos ecossistemas temos a perda de biomassa e, com isso, alterações na estrutura da vegetação, na disponibilidade de recursos (ex. água, nutrientes, etc.) e na ciclagem de nutrientes; é essa dinâmica que permite, nos Campos Sulinos, a coexistência de uma alta diversidade de plantas. Os ecossistemas campestres dos Campos Sulinos são, de forma geral, adaptados aos distúrbios, desde que os mesmos ocorram em intensidades e frequências que não excedam muito o seu regime natural. Desta maneira, distúrbios como pastejo e fogo podem ser ferramentas importantes para a conservação desse bioma.

  • Campo primário

    Campo sem histórico de outros usos, campo que sempre foi campo. O termo campo primário é comumente usado para fiscalização por órgãos ambientais e determinação do histórico de uso e conservação de campos em propriedades rurais. É importante lembrar que o distúrbio em intensidade intermediária é fundamental para a manutenção da estrutura típica do campo: dessa maneira, um ecossistema campestre sob ação de fogo ou pastejo pode ser considerado primário. Geralmente, o campo primário possui uma alta diversidade de espécies nativas.

  • Campo secundário

    Área de campo que possui histórico de outros usos, ou seja, área onde a cobertura original da vegetação foi removida ou destruída, e posteriormente a vegetação campestre se regenerou ou foi recuperada. Como a capacidade de regeneração da vegetação campestre após uso para outros fins (agricultura, silvicultura) é baixa, campos secundários geralmente possuem uma diversidade de espécies menor que aquela encontrada em campos primários e muitas vezes são caracterizados pela presença de espécies exóticas.

  • Campo degradado

    Área de campo nativo que passou por processo de degradação, por exemplo, pela invasão de espécies exóticas, pelo sobrepastoreio ou por alteração do regime típico de distúrbios. Muitas vezes, áreas de campo degradadas também possuem uma produtividade reduzida. Exemplos de espécies exóticas que causam degradação dos campos são o capim-annoni (Eragrostis plana Ness) e o pinus (Pinus spp). Outros sinais da degradação incluem a grande proporção de solo descoberto ou a presença de processos erosivos. Como nos Campos Sulinos distúrbios como pastejo ou fogo mantém as características típicas dos ecossistemas, uma área sem a presença destes processos por muito tempo também pode ser considerada degradada. Hoje, a recuperação de áreas degradadas é uma importante parte das políticas ambientais.

  • Pasto ou pastagem

    Área com vegetação que serve como alimento para os animais da pecuária (como gado, ovelha e cavalo), podendo ser composta de espécies de plantas nativas ou de plantas forrageiras exóticas. Nos Campos Sulinos, a maior parte das áreas de pastagem são campos nativos, que convivem bem com a presença dos animais pastadores, havendo inclusive benefícios para a biodiversidade nessa interação. Em áreas de pastos plantados a biodiversidade de plantas é reduzida para uma ou poucas espécies cultivadas que, em alguns casos, como o da braquiária, podem se alastrar para áreas adjacentes, gerando um grande problema ambiental. Pastagens naturais compostas por plantas nativas geralmente possuem biodiversidade maior, além de serem mais resilientes à flutuações ambientais, por exemplo, a ocorrência de secas.

  • Campo melhorado

    A expressão “campo melhorado” designa áreas de campo nativo onde é feita sobressemeadura de espécies exóticas para fins forrageiros, geralmente após fertilização. Diferente do pasto plantado, aqui a vegetação do campo nativo não é removida. Esta técnica favorece espécies nativas ou plantadas que possuem melhor desempenho na aquisição de recursos, já que a disponibilidade de sementes nessas áreas geralmente é maior. As espécies introduzidas contribuem para maior produção de biomassa, o que é desejável para a pecuária. Na região dos Campos sulinos, utilizam-se, para o melhoramento do campo, principalmente espécies hibernais, justamente para aumentar a produtividade no período menos produtivo do campo. Contudo, a composição da flora no “campo melhorado” pode ser bastante descaracterizada em relação ao campo nativo.

  • Estepe

    Estepes são ecossistemas campestres de regiões com baixa pluviosidade (250-500 mm anuais), geralmente sob clima temperado. Embora o IBGE utilize o termo estepe para caracterizar a vegetação campestre subtropical brasileira, na região dos Campos Sulinos, o seu uso parece inadequado devido à pluviosidade alta da região: mesmo nas regiões do estado do Rio Grande do Sul com menor pluviosidade, a média de chuvas acumuladas no ano é três vezes maior do que para as regiões onde a vegetação estépica ocorre. Ademais, este termo é regionalmente utilizado para os campos da Europa e Ásia, assim como “pradarias” é o termo comumente utilizado para designar vegetação campestre na América do Norte. Sugerimos utilizar o termo “campo” para a vegetação campestre no sul do Brasil.

BIBLIOGRAFIA

Boldrini I.I. 2009. Biodiversidade dos campos do planalto das araucárias. Brasília: MMA. Disponível aqui.

Boldrini I.I, Ferreira P.M.A., Andrade B.O., Schneider A.A., Setubal R.B., Trevisan R., Freitas E.M. 2010. Bioma Pampa: diversidade florística e fisionômica. Porto Alegre: Palotti. Disponível aqui.

Pillar V.D.P. & Lange O. (Eds). 2015. Os Campos do Sul. Porto Alegre: Rede Campos Sulinos/UFRGS. Disponível aqui.

Veja também

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