O valor econômico do serviço de polinização

Kayna Agostini

A professora da UFSCar Kayna Agostini recomenda cinco leituras sobre o papel dos polinizadores para a produção agrícola

A polinização é uma interação ecológica entre as flores de uma planta e um animal. Na perspectiva da planta, essa interação é interessante, pois pode auxiliar seu processo reprodutivo; na perspectiva do animal, ela representa a obtenção de diversos recursos (nutritivos e não nutritivos) para sua sobrevivência. Existem estimativas de que quase 90% das plantas com flores são polinizadas por animais (invertebrados e vertebrados). Atualmente, a polinização é considerada um serviço ecossistêmico de provisão (produção de alimentos), regulação (reprodução de espécies nativas) e cultural (ciência cidadã, que permite aproximar a sociedade da produção científica, buscando promover a participação dos cidadãos na produção de estudos, principalmente nos levantamentos de dados).

No início dos anos 2000, alguns estudos indicaram que muitas espécies agrícolas eram dependentes de polinizadores 1 para a produção de frutos e sementes. Na época, pesquisadores começaram a estudar essas taxas de dependência e a verificar qual era a contribuição do serviço de polinização para o valor da produção. Em 2009, eles concluíram que esse valor era de cerca de 10% 2 do valor econômico dos produtos da agricultura. Tal informação gerou mais interesse sobre o tema, que passou a ser discutido no cenário científico e, agora, no econômico.

Em 2019, o valor da polinização no Brasil era de US$ 11 bilhões. É importante salientar que esse valor é subestimado, pois, para muitas culturas agrícolas, não temos informações científicas sobre a dependência de polinizadores. Recentemente, estudos indicaram que é necessária uma avaliação multidimensional 3 (considerando os capitais natural, físico, humano, financeiro e social) para determinar o valor do serviço de polinização de forma mais aprimorada. Assim, é urgente que haja investimento em pesquisa básica e aplicada na área da biologia da polinização, pois apenas assim conseguiremos valorar corretamente esse serviço no Brasil.

As referências bibliográficas escolhidas como básicas para esse assunto irão auxiliar o leitor a entender todo o processo de valoração do serviço de polinização, desde como verificar o grau de dependência de polinizadores de determinada cultura agrícola até como valorar o serviço de polinização com base no valor total da produção.

Importance of pollinators in changing landscapes for world crops

Klein A-M, Vaissiere BE, Cane JH, et al. (Proc R Soc B Biol Sci, 2007)

Este foi o primeiro estudo que avaliou a dependência da polinização animal para a produção mundial de alimentos. Com base em dados de 200 países, os autores descobriram que a produção de frutas, vegetais ou sementes de 87 dos principais cultivos mundiais de alimentos depende da polinização animal, enquanto apenas 28 não dependem dela.

Os autores categorizam a dependência das espécies agrícolas com relação à polinização por animais. Eles relatam que para 13 cultivos os polinizadores são essenciais, que a produção é altamente dependente de polinizadores em 30 delas, que ela é moderadamente dependente em 27, ligeiramente dependente em 21, sem importância para sete e de significância desconhecida para os nove cultivos restantes.

O estudo ainda indica, embora de forma modesta, que a localização, a paisagem e o manejo para serviços de polinização natural podem ajudar a sustentar a diversidade e a produção das culturas. A intensificação da agricultura pode prejudicar as comunidades de polinizadores selvagens, ocasionando um desequilíbrio no fornecimento do serviço de polinização, segundo o texto. O trabalho foi fundamental para a criação de modelos para estimar o valor monetário da polinização.

Economic valuation of the vulnerability of world agriculture confronted with pollinator decline

Gallai N, Salles J-M, Settele J, Vaissière BE (Ecol Econ, 2009)

Neste estudo, os autores avaliaram a contribuição da polinização por insetos para o valor econômico da produção agrícola mundial e a vulnerabilidade da agricultura mundial diante do declínio dos polinizadores.

Para a avaliação, os autores utilizaram uma abordagem bioeconômica que calculou a dependência da produção em relação aos polinizadores nos 100 principais cultivos usados diretamente para alimentação humana em todo o mundo. Pela primeira vez, o valor monetário do serviço de polinização foi estimado: o total foi de € 153 bilhões, o que representou 9,5% do valor da produção agrícola mundial destinada à alimentação humana em 2005. Os legumes e as frutas foram as principais categorias de cultivo em valor de polinização de insetos, com cerca de € 50 bilhões cada, seguidos por oleaginosas comestíveis, estimulantes, nozes e especiarias.

Os autores do estudo mostraram que a taxa de vulnerabilidade da agricultura diante do declínio dos polinizadores (ou seja, o valor monetário da polinização dividido pelo valor total da colheita atual) variou consideravelmente entre as categorias de cultura (legumes, frutas, oleaginosas comestíveis, estimulantes, nozes e especiarias), e houve correlação positiva entre a taxa de vulnerabilidade de uma categoria de cultivo e seu valor por unidade de produção.

Sem dúvida, o trabalho fez com que diferentes pesquisadores de áreas do conhecimento olhassem para a biologia da polinização como um processo extremamente importante para o bem-estar humano, pois ela garante segurança alimentar e influencia a balança comercial mundial.

The dependence of crops for pollinators and the economic value of pollination in Brazil

Giannini TC, Cordeiro GD, Freitas BM, et al. (Econ Entomol, 2015)

Neste artigo, os autores buscam entender como se dá a dependência das espécies agrícolas em relação aos polinizadores e qual é o valor econômico da polinização no Brasil. O assunto estava fervilhando no cenário internacional na época da publicação, e os autores entenderam que o Brasil — que sempre teve destaque importante nas discussões sobre a conservação dos polinizadores — poderia contribuir para o entendimento dos aspectos econômicos do tema,trazendo subsídios para possíveis discussões de políticas públicas.

Os autores analisaram 141 cultivos e descobriram que 85 deles dependem de polinizadores. Um terço desses cultivos é essencialmente dependente deles. A contribuição econômica dos polinizadores totaliza 30% (cerca de US$ 12 bilhões) da renda agrícola anual em todos os cultivos dependentes (totalizando quase US$ 45 bilhões).

O trabalho também salienta que faltam muitas informações sobre a dependência de algumas culturas importantes com relação ao polinizador, mostrando a necessidade urgente de pesquisas básicas em biologia reprodutiva e ecologia da polinização.

The assessment report of the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services on pollinators, pollination and food production

Potts SG, Imperatriz-Fonseca VL, Ngo HT (orgs.) (IPBES, 2016)

A “Avaliação temática dos polinizadores, polinização e produção de alimentos” foi o primeiro relatório aprovado pela IPBES (Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services). O texto fornece uma avaliação sobre a polinização como um serviço ecossistêmico de regulação, de provisão e cultural, pois tem um papel-chave na manutenção da biodiversidade, na produção de alimentos e na manutenção da qualidade de vida dos seres humanos.

O relatório é importante, pois fornece avaliações atualizadas e com alta credibilidade científica sobre os polinizadores para que a sociedade possa tomar decisões sobre o tema em nível local, nacional e global. É importante salientar que essa avaliação sobre polinizadores, polinização e produção de alimentos foi elaborada por especialistas de todas as regiões do mundo, que revisaram mais de 3.000 publicações científicas.

O texto aborda diversas temáticas, como o valor monetário e social da polinização, ameaças antrópicas sofridas pelos polinizadores, oportunidades para preservar o processo de polinização e diretrizes para tomadores de decisão elaborarem políticas públicas. Em especial, a avaliação trata criteriosamente de dois assuntos importantes para o planejamento de políticas para conservação dos polinizadores: (a) os efeitos letais e subletais de pesticidas, na natureza e em abelhas manejadas; e (b) os efeitos dos cultivos geneticamente modificados nos polinizadores.

A avaliação esclarece que já sabemos muito sobre polinização e polinizadores, e esse conhecimento pode auxiliar a elaboração de políticas públicas, mas ainda existem lacunas científicas significativas que precisam ser abordadas em programas de pesquisa nacionais e internacionais.

Relatório temático sobre polinização, polinizadores e produção de alimentos no Brasil

Marina Wolowski; Kayna Agostini; André Rodrigo Rech; Isabela Galarda Varassin; Márcia Maués; Leandro Freitas; Liedson Tavares Carneiro; Raquel de Oliveira Bueno; Hélder Consolaro; Luisa Carvalheiro; Antônio Mauro Saraiva; Cláudia Inês da Silva. Maíra C. G. Padgurschi (org.) (Editora Cubo, 2019)

Este relatório é fruto da parceria entre a BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos) e a Rebipp (Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador). O texto segue os moldes da avaliação realizada pela IPBES (Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services), mas considera a situação do Brasil para a avaliação dos polinizadores.

Os autores realizaram uma revisão sistemática de mais de 400 publicações com o objetivo de sintetizar o conhecimento atual e as ameaças que afetam a polinização, os polinizadores e a produção de alimentos no Brasil. Eles também buscaram sugerir medidas para preservação do serviço de polinização. O texto aponta que 76% dos cultivos brasileiros dependem desse serviço para produção de frutos e sementes. Entre esses cultivos estão alguns de grande importância para a agricultura brasileira, como a soja (Glycine max), o café (Coffea), o feijão (Phaseolus vulgaris L.) e a laranja (Citrus sinensis).

O relatório estimou o serviço de polinização no Brasil em US$ 11 bilhões anuais e o considerou fundamental para garantir a segurança alimentar da população e a renda dos agricultores brasileiros. A avaliação também destaca que o serviço ecossistêmico de polinização no Brasil tem sido ameaçado por diversos fatores, tais como desmatamento, mudanças climáticas, poluição ambiental, agrotóxicos, espécies invasoras, doenças e patógenos.

Os autores sugerem que há diversas oportunidades para melhorar o serviço de polinização, diminuir as ameaças aos polinizadores e aumentar o valor agregado dos produtos agrícolas. Entre as ações voltadas à conservação e ao manejo do serviço de polinização estão a intensificação ecológica da paisagem agrícola, formas alternativas de controle e manejo integrado de pragas e doenças, redução do deslocamento de agrotóxicos para fora das plantações, produção orgânica e certificação ambiental. O relatório apresenta dados que podem apoiar os tomadores de decisão e ainda indica quais políticas públicas destinadas aos polinizadores, à polinização e à produção de alimentos beneficiariam a conservação desse serviço ecossistêmico e promoveriam a agricultura sustentável no país.

Kayna Agostini tem doutorado em biologia vegetal pela Unicamp. É docente da UFSCar e coordena a Rebipp (Rede Brasileira de Interações Planta-Polinizador) desde 2016. Atua na área de biologia da polinização, com enfoque na polinização de áreas urbanas e agrícolas.

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeDRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUT