Intersecção entre raça, gênero e sexualidade

Silvia Aguião

A pesquisadora Silvia Aguião recomenda obras de três autoras — Lélia Gonzalez, Laura Moutinho e Mara Viveros Vigoya — para ampliar a visão sobre identidades e desigualdades

Os significados atribuídos a raça, gênero e sexualidade se vinculam de modo estreito a processos históricos por meio dos quais se afirmam ideias e ideais envolvendo família, nação, civilização, cultura, progresso e desenvolvimento. Operando em sentidos tanto inclusivos quanto exclusivos, muitas vezes tais marcadores atuam no interior dos discursos científicos, políticos e culturais no sentido de naturalizar e hierarquizar diferenças e (re)produzir desigualdades sociais.

A abordagem interseccional pode ser entendida como uma ferramenta conceitual e metodológica para a compreensão de como esses mecanismos complexos operam na produção cotidiana de identidades, subjetividades, subordinações e agenciamentos.

Nas obras de Lélia Gonzalez, Laura Moutinho e Mara Viveros Vigoya, através de argumentações claras e didáticas, vemos a articulação dessa perspectiva por meio da discussão de diferentes questões sociais e políticas. Os textos evidenciam o quão imprescindível é o olhar que considera o entrecruzamento de diferentes dimensões para a compreensão das dinâmicas de coprodução entre raça, gênero e sexualidade.

De maneira brilhante, ampliam a nossa visão a respeito de circunstâncias naturalizadas das interações sociais cotidianas e desvelam as tramas políticas, históricas e sociais que conformam as consequências duradouras de teorias científicas e práticas racistas e sexistas ao longo do tempo.

Primavera para as rosas negras: Lélia Gonzalez em primeira pessoa

Lélia Gonzalez (Editora Filhos da África, 2018)

A publicação reúne escritos de Lélia Gonzalez cobrindo o período entre meados dos anos 1970 e dos anos 1990 e, finalmente, disponibiliza para o público mais amplo a riqueza de seu pensamento. Os textos, com diversos formatos e fontes, expressam a sua sofisticação enquanto uma intérprete do Brasil — característica ressaltada por Raquel Barreto na introdução da coletânea.

Auspiciosamente, muito vem sendo produzido a respeito da vida e obra de Lélia Gonzalez. Aqui nos concentramos em indicar como a sua produção antecipa elementos que ganham cada vez mais atenção em relação ao entrecruzamento inescapável de diferenciações sociais de raça, gênero e sexualidade. Hoje a autora é reconhecida como precursora da abordagem que convencionamos chamar interseccional, termo que só viria a se popularizar no Brasil na primeira década dos anos 2000.

O título do livro se origina da preciosa e atual entrevista da autora publicada em 1990, “Primavera para rosas negras”. Nessa conversa, Gonzalez é incisiva ao apontar as sobrevivências da ideologia do branqueamento e dos apelos à mestiçagem como signo de integração no Brasil. São traços coloniais comuns, que definem os contornos que o racismo assume na região latino-americana e que são cotidianamente reforçados por estereótipos naturalizados que reservam a atribuição de valores positivos e/ou superiores ao “grupo racialmente dominante”.

Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos

Lélia Gonzalez (Zahar, 2020)

Sempre conjugando proposições teóricas e políticas, esta publicação também reúne textos variados de Lélia Gonzalez, expressivos de sua originalidade e arsenal teórico multifacetado, como destacam as organizadoras do livro, Flavia Rios e Márcia Lima, na apresentação da coletânea.

Em “Por um feminismo afro-latino-americano”, artigo publicado originalmente em 1988 e que intitula o livro, Gonzalez se refere às “contradições internas” do feminismo latino-americano. A ênfase recai na necessidade de articular a discriminação sexual e a discriminação racial, apontando para o “racismo por omissão” presente no feminismo que critica a divisão sexual do trabalho sem considerar o seu correlato racial e termina por incorrer em uma “espécie de racionalismo universal abstrato”.

Em artigo ainda anterior, “Racismo e sexismo na cultura brasileira”, de 1980, Gonzalez constrói uma abordagem relacional de gênero e da sua inscrição em dinâmicas de hierarquização baseadas na raça: o “duplo fenômeno” do racismo e do sexismo. O texto traz reflexões e propostas que permeiam toda a sua obra, desde os “lugares” predeterminados para pessoas negras na sociedade brasileira — e especialmente para mulheres negras — aos diversos modos de atualização do mito da democracia racial e do que ele “oculta, recalca e tira de cena”, desembocando no que a autora sagazmente denomina de “neurose cultural brasileira”. Lemos ainda a sua argumentação por uma “Améfrica Ladina”, que substituiria o referencial de valores brancos ocidentais por uma latinidade que estima as suas origens africanas.

Assim como em “Primavera para as rosas negras”, nesta coletânea temos apreciações que contemplam desde contextos de formação histórica e sociológica mais amplos a aspectos intersubjetivos, como a dimensão social das emoções e dos processos de subjetivação. As argumentações de Gonzalez lançam um olhar de atenção multidimensional para a complexidade da persistência das desigualdades racial, sexual e socioeconômica no país. A destreza com a qual a autora mescla enquadramento epistemológico e incidência política segue atual e renovadora de horizontes teóricos e práticos.

Razão, "cor" e desejo: uma análise comparativa sobre relacionamentos afetivo-sexuais "inter-raciais" no Brasil e na África do Sul

Laura Moutinho (Ed. Unesp, 2004)

O livro de Laura Moutinho realiza um exame minucioso de valores e representações sociais relacionadas a raça, mestiçagem, gênero, prestígio e erotismo. A partir da análise de relacionamentos afetivo-sexuais inter-raciais, Moutinho nos oferece uma vasta leitura e revisão crítica, forjando um terreno de questões múltiplas e férteis.

O paradigma predominante no século 19, organizado pelas ideias de progresso e civilização, interpretava a desigualdade humana como ordenada pelas leis da natureza. A ideia de raça e os racismos científicos de origem europeia ofereciam o esquema de pensamento que utilizava a biologia para justificar hierarquias sociais e condenar populações não-brancas à degeneração.

Na virada do século, o contingente de negros e mestiços tornou-se uma questão central para aqueles que buscavam pensar o Brasil enquanto um projeto viável de nação. Desse modo, a mestiçagem se constituiu como um ponto nodal para a produção de interpretações sobre a formação da nação. Por volta dos anos 1930, inicia-se a consolidação da narrativa apaziguadora sobre a convivência racial relativamente harmoniosa que ficaria conhecida como o “mito da democracia racial”.

Todas as nuances e permanências desses aspectos são perpassadas pela análise acurada da autora, que se baseia em dados demográficos, historiografia e sociologia clássicas, obras da literatura e do teatro, entrevistas, observação etnográfica e outros materiais. Desde os racismos científicos do século 19, passando pelas políticas de branqueamento republicanas e pelos repertórios que acionam noções de mistura, pureza, perigo, erotismo, prestígio e razão econômica e social. Moutinho desvela como nascem os mestiços enquanto sujeitos e ideal de (in)viabilidade da nação.

Outro traço distintivo da obra é a particularidade de tomar a África do Sul como eixo comparativo e questionar como podemos entender melhor o Brasil ao olhar para uma sociedade que instituiu a proibição legal da miscigenação. Com essa manobra, nos faz notar a produtividade da inflexão que desvia da tradição de trazer os Estados Unidos como espelhamento para a reflexão sobre relações raciais. A autora chega à conclusão de que, tanto lá quanto cá, é o desejo sexual interracial que funda idealizações de nação — seja pelo incentivo, seja pela interdição.

Vemos então que, antes que se popularizasse essa forma de denominar a perspectiva, Laura Moutinho já realizava preciosas leituras interseccionais de processos micro e macrossociais. Ao explorar novos ângulos e renovar indagações, seu texto estimula novos caminhos reflexivos, tanto no interior do chamado pensamento social brasileiro quanto no campo dos estudos de gênero e sexualidade e de relações raciais.

Diferenças e desigualdades negociadas: raça, sexualidade e gênero em produções acadêmicas recentes

Laura Moutinho (Cadernos Pagu, n. 42, 2014)

Em artigo mais recente, Moutinho realiza um adensado balanço de trabalhos que tratam da produção de diferenças e desigualdades, através de enquadramentos diversos que privilegiam a reflexão sobre a articulação entre marcadores sociais da diferença ou interseccionalidades.

Com especial destaque para a intersecção entre raça, nação, gênero e sexualidade, o artigo chama a atenção para a importância da perspectiva interseccional em projetos políticos e acadêmicos que se dedicam não apenas à reflexão sobre a constituição de sujeitos, subjetividades e agenciamentos, mas sobre o reconhecimento de identidades e a construção de políticas de enfrentamento das desigualdades.

As cores da masculinidade. Experiências interseccionais e práticas de poder na nossa América

Mara Viveros Vigoya (Papéis Selvagens, 2018)

O livro de Mara Viveros Vigoya reúne um conjunto de reflexões oriundas de sua vasta e pioneira experiência de investigação no campo das masculinidades desde uma abordagem interseccional e pós-colonial. Trabalhando com o tema desde os anos 1990, a autora busca entender as articulações entre raça, classe, gênero e sexualidade particularmente situadas na América-Latina e explicitar o enfoque relacional, demonstrando que homens também são marcados pela produção e reprodução de gênero.

A proposta de Viveros Vigoya é compreender criticamente as desigualdades inscritas nessas relações, considerando a complexidade com que são constituídas e vivenciadas as masculinidades em função de diferenças de classe, raça, gênero, sexualidade, idade etc. Essas nuances podem ser percebidas de maneiras distintas ao longo do curso de vida de um mesmo sujeito, conforme especificidades históricas e contextuais. Em uma explanação importante na introdução do livro, a autora ressalta que o seu trabalho aciona a análise interseccional não somente para compreender as experiências de grupos marginalizados, mas igualmente para entender os sujeitos que ocupam posições dominantes na estrutura social.

Ao circunscrever o seu objeto — as masculinidades — no contexto latino-americano, a autora situa como, historicamente, raça, gênero e sexualidade ocupam lugares centrais nos sistemas de dominação e hierarquia em nossa região. Por aqui, as ideologias raciais se entrelaçam com a “dominação de gênero” nas práticas de controle da sexualidade das mulheres e de subordinação dos sujeitos racializados.

A adoção da expressão “Nossa América” é feita em reconhecimento às propostas e questionamentos que emergem de povos indígenas e de pessoas afrodescendentes às concepções colonialistas sobre a América Latina. O trabalho atravessa a historicização e a crítica da mestiçagem como uma narrativa de “fusão harmônica” fundacional na região — narrativa que comumente oblitera a dinâmica violenta imiscuída nesses processos e os invisibiliza enquanto mecanismos de produção e manutenção de desigualdades.

O livro de Viveros Vigoya expõe uma riquíssima sistematização crítica dos estudos sobre homens e masculinidades no campo dos estudos de gênero e feministas e percorre questões como os estereótipos associados ao corpo negro masculino, à hipervirilidade, à hipersexualização e às hierarquias internas que compõem as performatividades masculinas, além de lidar com as representações correntemente atualizadas a respeito da “branquidade” e de sua articulação com expectativas de gênero e sexualidade — que estão sempre correlacionadas.

Nesse sentido, Viveros Vigoya busca recuperar os nexos de gênero e raça implicados em construções de autoridade, legitimidade e poder. Por fim, a autora nos apresenta uma potente argumentação que relaciona a violência estrutural do processo de colonização a diversas formas de violência de gênero. Suas colocações suscitam o deslocamento dos lugares hegemonicamente legitimados para a produção do conhecimento e de quais são as problemáticas mais ou menos relevantes a serem consideradas.

Silvia Aguião é doutora em ciências sociais pela Unicamp. É pesquisadora do Afro-CEBRAP (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial) e do Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos da Uerj.

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