Antirracismo e lutas negras na contemporaneidade

Ana Luísa Machado de Castro
A pesquisadora Ana Luísa Machado de Castro recomenda cinco leituras que ampliam as análises a respeito das ações e estratégias de ativismo do movimento negro em geral, e das mulheres negras em particular, nos últimos anos

Os primeiros estudos sobre as mobilizações negras no Brasil foram realizados ainda na primeira metade do século 20, acompanhando as interpretações feitas à época sobre relações raciais e o significado do racismo na sociedade brasileira. Nesse primeiro momento, os estudos abordam as mobilizações políticas dos negros de forma muito pontual, descritas como pouco efetivas ou desconectadas da realidade dos negros brasileiros que, de forma geral, não experienciavam o preconceito racial.

Contemporaneamente, observamos uma ampliação desses estudos que têm destacado cada vez mais o papel ativo da população negra na política brasileira. Especialmente a partir da década de 1980, com a ampliação de estudos sobre as relações raciais elaborados por intelectuais negros também engajados na luta antirracista, vemos uma produção acadêmica importante voltada para destacar não apenas a persistência do racismo como também caracterizar a atuação dos movimentos negros brasileiros no combate à essa opressão. Nos últimos anos, esses estudos ganham ainda mais espaço, ampliando as análises para as relações do movimento negro com outros atores, as estratégias de negociação de suas demandas em um âmbito mais institucional e como outros marcadores de opressão, como gênero, classe e sexualidade intercruzam na ação coletiva dos movimentos negros e dos movimentos de mulheres negras do país.

As obras de Nilma Lino Gomes, Cristiano Rodrigues, Ana Claudia Jaquetto Pereira e Claudia Pons Cardoso e Keeanga-Yamahtta Taylor apresentam reflexões brilhantes sobre a atuação complexa dos movimentos negros no geral e dos movimentos de mulheres negras na contemporaneidade, demonstrando relevância da compreensão das lutas antirracistas nos processos de combate às desigualdades estruturais e democratização política.

Movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação

Nilma Lino Gomes (Editora Vozes, 2017)

O livro da intelectual negra Nilma Lino Gomes explora o papel do movimento negro brasileiro como educador, produtor de saberes emancipatórios e um sistematizador de conhecimentos sobre a questão racial no Brasil. Apesar de ser área da educação, a autora apresenta no livro uma análise interdisciplinar que reconhece a centralidade dos movimentos sociais para a elaboração de saberes contra hegemônicos que pressionam as diversas áreas do conhecimento para um sentido mais crítico e emancipador.

O movimento negro brasileiro é interpretado na obra como um ator político que ressignifica e politiza a ideia de raça e, a partir disso, questiona a história do Brasil e da população negra no país. Assim, constrói novos instrumentos políticos, teóricos e analíticos para explicar o funcionamento do racismo brasileiro, tanto em âmbito institucional, como também no cotidiano dos negros e negras do país.

A autora destaca também como os saberes elaborados por esse ator político foram traduzidos em reivindicações e transformados nas últimas décadas em políticas de Estado determinantes para o combate ao racismo no país. Como exemplo, temos a implementação de ações afirmativas no ensino superior e a lei n. 10.639/03 que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, fruto das lutas históricas do movimento negro e que encarnam a possibilidade de reeducar toda a sociedade.

A importância da obra está relacionada com a trajetória política, acadêmica e intelectual de Nilma Lino Gomes, uma das grandes referências dos movimentos negros e dos movimentos de mulheres negras da contemporaneidade. As reflexões apresentadas no livro ecoam a potência da autora que tem construído e inspirado há décadas as lutas de combate ao racismo e pela emancipação social no Brasil e na Diáspora Africana.

Afro-latinos em movimento: protesto negro e ativismo institucional no Brasil e na Colômbia

Cristiano Rodrigues (Appris Editora, 2020)

O trabalho de Cristiano Rodrigues analisa como a convergência da abertura de oportunidades políticas e discursivas impactam nos ganhos políticos dos movimentos negros no Brasil e na Colômbia, comparativamente. Adotando um viés mais institucionalista e se ancorando na abordagem das teorias de processos políticos, o autor busca preencher uma lacuna do campo ao fornecer um entendimento sobre o impacto das reivindicações dos movimentos negros sobre as arenas político-institucionais.

O autor identifica que a interação societal entre movimento negro e Estado, a partir da década de 1990, provocou alterações em três esferas interligadas: nas estruturas internas das organizações negras, que se tornaram cada vez mais burocráticas e profissionalizadas; nas redes de articulação, que se multiplicaram em nível nacional e internacional; e nos discursos estatais sobre raça e igualdade racial, que foram cada vez mais incorporados pelo Estado. Nos dois países analisados, percebe-se o impacto político dos movimentos negros, a partir da criação de espaços de participação institucional e da elaboração de legislações e políticas públicas racialmente sensíveis

Apesar de existir uma tradição antiga de estudos comparados sobre as relações raciais que colocam especialmente Brasil e Estados Unidos como sistemas opostos de relações raciais, o estudo de Rodrigues acompanha uma tendência mais recente de estudos comparados que se debruçam sobre as relações raciais dos países da América Latina. São trabalhos que apontam como tais países se aproximam no tocante à integração dos afrodescendentes nas suas sociedades e na perversidade do racismo que são submetidos.

Intelectuais negras brasileiras: horizontes políticos

Ana Claudia Pereira (Letramento, 2019)

O trabalho sistematiza a elaboração teórico-política das mulheres negras brasileiras a partir de suas experiências de ação coletiva. Fruto da tese de doutorado em ciência política da autora, é um dos únicos estudos sobre as ações coletivas de mulheres negras brasileiras da área. Com pioneirismo, a autora identifica como o movimento de mulheres negras elaborou perspectivas analíticas e concepções de justiça social, dando vida a um pensamento social e político que se organiza a partir de uma reflexão crítica das suas experiências interseccionais.

Um aspecto importante do trabalho da autora é a reconstrução da mulher negra como sujeito político-epistêmico a partir das representações dos movimentos de mulheres negras e em oposição às representações desses corpos políticos presentes até então nos cânones das ciências sociais. A autora destrincha obras de autores canônicos como Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e Florestan Fernandes, para identificar como as categorias de gênero e raça são articuladas nesses escritos. Percebe-se uma recorrência de imagens e papéis atribuídos a mulheres negras que as confinam em funções subalternas de cuidado e subordinação social.

O estudo apresenta uma inovação metodológica importante ao examinar uma amostra robusta de documentos ligados ao ativismo de grupos e organizações de mulheres negras. A maioria dos estudos sobre os movimentos de mulheres negras brasileiras utilizam entrevistas e observação participante para coleta de dados primários e o trabalho dePereira amplia o seu corpus analítico ao se debruçar em um volume considerável de textos, panfletos, boletins e livretos produzidos por esses grupos com a finalidade persuasiva e política.

Outras falas: feminismos na perspectiva de mulheres negras brasileiras

Cláudia Pons Cardoso (Tese de doutorado em estudos interdisciplinares sobre mulheres, gênero e feminismo, Universidade Federal da Bahia, 2012)

A tese de doutorado de Cláudia Pons Cardoso apresenta uma recuperação histórica do movimento de mulheres negras brasileiras, identificando os marcos das lutas das mulheres negras desde a década de 1980 em defesa de seus direitos e da sua emancipação na sociedade. Com uma abordagem interdisciplinar, a autora analisa a construção de uma identidade política coletiva das mulheres negras e as intervenções políticas construídas para visibilizar a existência da discriminação racial associada ao enfretamento do sexismo.

Recorrendo a figura do Griô, o guardião das tradições orais, a autora entrevista 22 ativistas dos movimentos de mulheres negras que cumprem a função de transmitir a história e os saberes das mulheres negras brasileiras. A partir da fala das Griôs, a autora se aprofunda nas maneiras em que essas sujeitas políticas operacionalizam as desigualdades de raça, gênero, classe e sexualidade na construção de uma agenda política orientada para a consolidação dos direitos das mulheres negras e da comunidade negra.

A novidade do trabalho de Claudia Pons Cardoso é fornecer uma proposta teórica inédita do pensamento feminismo negro brasileiro a partir da elaboração teórico-política de suas entrevistadas. Assim, emerge um pensamento feminista crítico, ancorado em valores, princípios e cosmovisões negro-africanas que desafiam as estruturas de poder estabelecias e recuperam a contribuição política e intelectual das mulheres negras nas diversas áreas do conhecimento e no enfretamento político do racismo, do sexismo e heterossexismo a partir de uma perspectiva interseccional.

#VidasNegrasImportam e libertação negra

Keeanga-Yamahtta Taylor (Elefante, 2020)

Publicado em 2016 nos Estados Unidos, o livro apresenta uma análise comparativa histórica das lutas pela libertação negra, desde a metade do século 20 até a eclosão recente do movimento Black Lives Matter. Sua questão central é compreender porque o movimento Black Lives Matter emergiu durante o mandato do primeiro presidente negro do Estados Unidos, contexto em que a chegada de Barack Obama ao cargo mais alto de poder do país foi celebrada por muitos como um marco do início da era pós-racial ou até mesmo da superação do racismo no país. Se a brutalidade policial contra pessoas negras ocorre desde a abolição, porque teria atingido o seu ponto de ruptura durante o governo de Barack Obama?

A obra foi escrita durante a efervescência dos protestos que eclodiram após as mortes de Trayvon Martin, Michael Brown, Eric Garner, e mostra as contradições inerentes às tentativas de libertação negra de cunho liberal que não rompem com o sistema capitalista. Fenômenos como a pobreza contínua da população negra, a ascensão da elite política negra e o seu distanciamento dos interesses da comunidade negra de forma geral e a acentuação das disparidades de classe na comunidade negra são destrinchados para explicar a emergência dos movimentos negros contemporâneos.

A versão publicada no Brasil em 2020 também conta com um posfácio no qual a autora apresenta um balanço crítico dos cinco protestos que seguiram a eclosão dos primeiros do Black Lives Matter, identificando as dificuldades que o movimento teve em fazer uma transição da atuação política para um movimento mais amadurecido.

Um destaque importante feito pela autora é o papel das mulheres negras nessas lutas. Apesar de estarem historicamente presentes como lideranças das mobilizações, foram relegadas ao anonimato nas principais narrativas apresentadas sobre o período. Nas disputas mais contemporâneas a face das lutas já surge com o protagonismo das mulheres negras e das pessoas queers, com nomes como Alicia Garza, Patrisse Cullors e Opal Tometi, como as fundadoras do movimento Black Lives Matter.

Ana Luísa Machado de Castro é doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Mestra em direitos humanos pelo Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Direitos Humanos da UFG (Universidade Federal de Goiás). Possui graduação em relações internacionais pela Universidade Federal de Uberlândia (2015). Faz parte do Coletivo Rosa Parks: Estudos e Pesquisas sobre Raça, Etnia, Gênero, Sexualidade e Interseccionalidades (UFG) e do Nepem (Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher). Recebeu, em 2021, o Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política na categoria “doutoranda”.

Este texto faz parte da série de materiais que serão publicados ao longo de 2021, no Nexo Políticas Públicas, pelos vencedores da primeira edição do Prêmio Lélia Gonzalez de Manuscritos Científicos sobre Raça e Política.

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