Soluções baseadas na natureza e o enfrentamento das mudanças climáticas

Thais Kasecker

A doutora em ecologia e especialista em sustentabilidade Thais Kasecker recomenda cinco leituras que mostram como o próprio meio ambiente é um aliado eficaz nas ações no combate à crise do clima

Apesar da humanidade há tempos se utilizar de soluções inspiradas pela natureza, o conceito de SbN (soluções baseada na natureza) foi cunhado apenas recentemente pela IUCN (Nature Based Solutions, 2016) 1. Desde então, há um grande esforço para tornar as SbN mais acessíveis e compreendidas numa estrutura analítica comum, definindo limites e medidas de eficácia. Ainda há uma escassez de artigos científicos e de pesquisas publicadas, sendo mais facilmente encontrados relatórios, guias ou material técnico que são constantemente atualizados. A literatura para o tema está concentrada nos últimos cinco anos, com uma tendência de se intensificar e ganhar robustez à medida que ferramentas e metodologias começam a ser difundidas e aplicadas. Recomendo fortemente manter o radar aceso para novas referências, com foco em redes de pesquisa ligadas a áreas urbanas e em instituições como a IUCN. Abaixo trago uma seleção básica de guias, relatórios técnicos e artigos científicos sobre SbN e mudanças climáticas, que apoiam uma reflexão crítica sobre teoria e prática dessa abordagem.

Guidance for Using the IUCN Global Standard for Nature-based Solutions - A User-Friendly Framework for the Verification, Design and Scaling up of Nature-based Solutions

(IUCN, 2020)

O Padrão Global da IUCN sobre SbN é o resultado do trabalho de mais de 800 especialistas de cerca de 100 países, numa combinação de percepção e conhecimento sobre como a natureza pode ser uma aliada eficaz no combate à mudança climática e outros desafios do século 21. O guia fornece parâmetros claros de referência para definir SbN e uma estrutura comum para apoiar o desenvolvimento de projetos, avaliação e a ampliação do conceito de forma consistente e confiável.

Seu público-alvo envolve uma ampla gama de usuários, particularmente aqueles de fora do setor tradicional de conservação. Aliado a isso, o guia faz parte de um projeto maior da IUCN de estabelecimento de uma comunidade global de usuários que possam coletivamente aprender e apoiar a atualização do guia, previsto para acontecer a cada quatro anos.

Na prática, são discutidos oito critérios e 28 indicadores que abordam os pilares do desenvolvimento sustentável (biodiversidade, economia e sociedade) e a gestão resiliente de projetos. A administração se baseia na premissa de que uma solução precisa ser responsiva a um contexto e o resultado varia caso a caso. O guia apoia os usuários em 1) avaliar até que ponto uma solução proposta se qualifica como uma SbN, identificando quais ações podem ser tomadas para fortalecer a intervenção; 2) apoiar a adesão de uma solução aos critérios e indicadores; 3) desenvolver e implementar novos projetos dentro dos parâmetros. O resultado vem na forma de uma correspondência percentual em relação às boas práticas, com um sistema de semáforo para identificar áreas para trabalho futuro e adesão ao Padrão Global de SbN.

Nature-Based Solutions to Climate Change Adaptation in Urban Areas

Nadja Kabisch, Horst Korn, Jutta Stadler e Aletta Bonn (Springer Open, 2017)

Este livro de acesso aberto reúne especialistas da ciência, política e prática para fornecer uma visão geral do estado atual de conhecimento sobre a eficácia e a implementação de soluções baseadas na natureza e em seu potencial para a adaptação às mudanças climáticas e cobenefícios em áreas urbanas. Ele faz parte de uma série de livros “Teoria e Prática das Transições de Sustentabilidade Urbana” que se destina a explorar diferentes dinâmicas, desafios e avanços na aceleração de transições de sustentabilidade em áreas urbanas de todo o mundo.

É dada ênfase ao potencial das abordagens baseadas na natureza para criar benefícios múltiplos para a sociedade. As contribuições dos especialistas apresentam recomendações para criar sinergias entre os processos políticos em andamento, programas científicos e a implementação prática de medidas de conservação da natureza em áreas urbanas globais.

São apresentadas evidências científicas da adaptação à mudança climática, além de discutir as implicações socioeconômicas em relação a considerações de equidade e justiça na implementação de SbN. Muitos capítulos destacam a importância do planejamento urbano no desenvolvimento da infra-estrutura verde e da gestão da conservação e da biodiversidade dentro das cidades, além de recomendações para aprofundar os trabalhos.

Apesar da publicação contar com casos europeus em sua maioria, o livro contribui para uma maior compreensão de como a SbN pode ajudar centros urbanos a se adaptar às mudanças climáticas, e o papel da governança no planejamento urbano bem sucedido a partir de uma perspectiva da teoria da transição.

Investing in Nature for Development: Do Nature-Based Interventions Deliver Local Development Outcomes?

Dilys Roe, Beth Turner, Alexandre Chausson, Emma Hemmerle e Nathalie Seddon (IIED, 2021)

Este relatório fornece informações sobre os tipos de intervenções diretas que podem influenciar a obtenção de resultados de desenvolvimento para a população local, tanto positivos quanto negativos. Focando especificamente nos países mais pobres (de baixa e média-baixa renda), ele explora evidências documentadas de que "intervenções baseadas na natureza" ou "investimentos na natureza" (incluindo proteção, gerenciamento, restauração e aproveitamento da natureza para a produção de alimentos), podem produzir resultados de desenvolvimento tangíveis para a população local, incluindo empregos, segurança alimentar, capacitação, bem como resiliência às mudanças climáticas.

É uma publicação muito recente, que consegue trazer percepções sobre como a natureza também pode contribuir para os planos de recuperação da covid-19. A estrutura conceitual para esta análise destaca as contribuições tanto de longo quanto de curto prazo, feitas através do envolvimento das comunidades na implementação de SbN. Em 2021, sabemos da urgência de assegurar que esses benefícios de longo prazo incluam ações genuinamente transformadoras para colocar as economias do mundo em caminhos sustentáveis que enfrentem as crises de mudança climática, a perda de biodiversidade e a crescente desigualdade que enfrentamos.

Em suma, é um excelente relatório atualizado sobre contribuições de SbN para impulsionar o desenvolvimento alinhado aos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) e a Estrutura Global de Biodiversidade pós-2020. É focado na teoria, mas derivado de experiências práticas de mais de 70 países, trazendo também recomendações-chave para políticas e práticas.

Nature-Based Solutions to Climate Change Mitigation and Adaptation in Urban Areas: Perspectives on Indicators, Knowledge Gaps, Barriers, and Opportunities for Action

Nadja Kabisch, Niki Frantzeskaki, Stephan Pauleit, Sandra Naumann, McKenna Davis, Martina Artmann, Dagmar Haase, Sonja Knapp, Horst Korn, Jutta Stadler, Karin Zaunberger, e Aletta Bonn (Ecology and Society, 2016)

Esse artigo foi uma das primeiras tentativas de resumir o panorama de pesquisa em soluções baseadas na natureza em áreas urbanas verdes, envolvendo as agendas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Os resultados foram derivados de uma oficina inter e transdisciplinar com especialistas de pesquisa, municípios, políticas e sociedade.

Nele são explorados os vários contextos em que as SbN são relevantes para a mitigação e adaptação climática em áreas urbanas, identificando indicadores para avaliar a eficácia das soluções baseadas na natureza e as lacunas de conhecimento relacionadas. O artigo também traz algumas barreiras existentes e oportunidades potenciais para aumentar a escala e a eficácia da implementação de SbN. O artigo destaca três necessidades principais para futuras agendas científicas e políticas: 1) produzir evidências mais fortes sobre soluções baseadas na natureza para adaptação e mitigação da mudança climática e aumentar a conscientização através do aumento da implementação; 2) adaptar-se aos desafios de governança na implementação de soluções baseadas na natureza através do uso de abordagens reflexivas, o que implica reunir novas redes da sociedade, embaixadores de soluções baseadas na natureza e profissionais; 3) considerar a justiça socioambiental e a coesão social ao implementar soluções baseadas na natureza, utilizando abordagens integradas de governança que levam em conta uma participação transdisciplinar de diversos atores.

Diálogo setorial UE-Brasil sobre soluções baseadas na natureza: contribuição para um roteiro brasileiro de soluções baseadas na natureza para cidades resilientes

Cecilia Herzog; Carmen Antuña Rozado, Tiago Freitas, Josefina Enfedaque e Guilherme Wiedman (Comissão Europeia, 2019)

Resultado de mais de quatro anos de diálogos entre Comissão Europeia e o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações do Brasil sobre SbN, esse relatório (um dos poucos em português!) apresenta um conjunto de conhecimento que torna indiscutível a importância da natureza na busca de soluções para desafios sociais, ambientais e econômicos. Nele, especialistas europeus e brasileiros analisam ocorrências e oportunidades de SbN no Brasil, levantando boas práticas na União Europeia com potencial de adaptação para o contexto brasileiro, contribuindo assim para a elaboração de uma estratégia no país.

Dez estudos de caso europeus e 15 brasileiros ilustram como as SbN podem ter um impacto positivo na vida das pessoas, abordando desafios diversos: gestão hídrica, recuperação de ecossistemas, efeito da ilha de calor urbana, enchentes, deslizamentos e erosão costeira. Em particular, os estudos de casos brasileiros abrangem todas as regiões do país e os biomas mais ameaçados (Mata Atlântica, Cerrado e Amazônia). Eles mostram como a megabiodiversidade do Brasil pode ser a solução para uma série de questões e fonte de inspiração para futuros projetos.

O relatório aborda teoria e prática, e consegue trazer com clareza mensagens-chave para os tomadores de decisão. Traz como fatores estruturantes a participação de várias partes interessadas, a abordagem local e o investimento em I&I (investigação & inovação). O relatório conclui que SbN são não apenas ótimas escolhas de investimento, mas também uma forma de melhorar a qualidade de vida e uma oportunidade para transitar para uma nova economia e um novo estilo de vida – mais conectado com a natureza e aos processos naturais, com base no capital natural.

Thais Kasecker é doutora em ecologia, trabalha com biodiversidade, mudanças climáticas e sustentabilidade para tomada de decisões. Atua como diretora na GIZ (Agência de Cooperação Técnica Alemã), é colaboradora do 6º relatório do IPCC, e integra o Programa Women’s Leadership Network no Brasil. Escreve a convite da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos).

Parceiros

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