O nexo água-energia-alimentos e o desenvolvimento sustentável

Leandro L. Giatti
O professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo Leandro Giatti recomenda cinco leituras sobre a importância do uso mais eficiente, equitativo e justo de recursos interdependentes nos ecossistemas produtivos alimentares para promoção da conservação ambiental e do bem-estar humano

A busca do desenvolvimento sustentável por meio da Agenda 2030 da ONU traz 17 objetivos que são irrefutáveis por sua importância para a inclusão social, a redução de vulnerabilidades e para a preservação dos limites de operação do planeta. Porém, entre as distintas dimensões destes desafiadores objetivos há inevitáveis compensações (trade-offs) entre distintos setores, o que dificulta e compromete realizações importantes dado o grau de superexploração de recursos escassos e interdependentes.

Nesta perspectiva, o nexo água-energia-alimentos se coloca como uma nova racionalidade voltada à redução de compensações dentre setores, no intuito de atender necessidades de grandes contingentes populacionais em condições de vulnerabilidade socioambiental, e garantir um uso mais eficiente, equitativo e justo desses elementos por meio de soluções mais sustentáveis, que tenham efeitos tanto no nível local como no nível global. Por exemplo, em toda a cadeia de produção, processamento e distribuição de alimentos há significativas demandas por água e energia.

Para captar, tratar e distribuir água há intensa demanda de energia e, de modo geral, as cadeias de provimento de energia são fortemente dependentes de recursos hídricos. Nisso, a racionalidade do nexo requer a ruptura da gestão de recursos tradicionalmente realizada em silos, impõe necessidade de se avaliar eficiência de forma transetorial, requer alternativas integradoras dos setores do nexo para a gestão urbana (grande demandante de recursos) e, também, impulsiona a necessária integração de saberes interdisciplinares, reconhecendo a importância das dimensões sócio-políticas implicadas. Ao estimular essa visão holística e sistêmica, a racionalidade do nexo pode fazer frente a três tendências globais, que se apresentam com força no século 21: urbanização, crescimento populacional e mudanças climáticas.

Understanding the Nexus - Background Paper for the Bonn2011 Nexus Conference

Holger Hoff (Stockholm Environment Institute, 2011)

Considerado como publicação seminal sobre o tema, este texto foi produzido a partir de uma conferência internacional realizada em 2011 na Alemanha, servindo como base importante para as discussões sobre o nexo água-energia-alimentos na Rio+20, realizada em 2012. Seu conteúdo dialoga intensamente com as ameaças das mudanças climáticas, a globalização e a necessidade de se prover alternativas de inclusão e redução de vulnerabilidade para o bilhão mais carente da população mundial.

São apresentados argumentos e proposições para garantir a segurança alimentar e ampliar o acesso a água, energia, aumentando eficiência e reduzindo trade-offs. Na perspectiva de uma racionalidade do nexo (nexus thinking), o documento propõe recomendações políticas e sinergias para a governança intersetorial do nexo. Para o autor, a abordagem do nexo enfoca o potencial de ecossistemas produtivos na ótica da economia verde, contribuindo para redução da pobreza em consonância com redução de externalidades ambientais e aumento da eficiência global na utilização de recursos.

The Water-Energy-Food Nexus: An Integration Agenda and Implications for Urban Governance

Francesca Artioli, Michele Acuto e Jenny McArthur (Political Geography, 2017)

Neste artigo, os autores dedicam-se à governança urbana do nexo água-energia-alimentos com grande destaque para a importância da dimensão política para além de abordagens técnicas e de gestão dos recursos, mais presentes na literatura e nas ações associadas a esse tema emergente. Na proposição de se urbanizar o nexo, o texto dialoga com possíveis implicações positivas de integração entre políticas setoriais para contribuir com a sustentabilidade urbana. Isso remete à necessidade de reconectar os sistemas urbanos às infraestruturas de provimento de suas demandas por recursos, como no caso dos sistemas alimentares de fundamental relevância para suporte à vida e à saúde nas cidades.

Com isso, o nexo é apresentado como uma via para esta reconexão, em que a integração de políticas pode ocorrer por meio de três hipóteses. A primeira trata da integração transetorial como uma possibilidade de incorporação do nexo à gestão urbana, o que pode ocorrer por meio de atores coletivos advogando pelo manejo, eficiência e distribuição de recursos. A segunda refere-se às possibilidades de reorganização das relações entre Estado e capital privado na governança urbana, contrabalanceando riscos de que a busca de eficiência se resuma a uma lógica neoliberal simplificadora de suas reais potencialidades. A terceira hipótese considera o nexo operacionalizado em proposições de cidades inteligentes, em que as propriedades integradoras de novas tecnologias e de participação digital podem contribuir em relações holísticas de interesse à integração entre setores.

Water-Energy-Food Nexus: Concepts, Questions and Methodologies

Chi Zhang, Xiaoxian Chen, Yu Li, Wei Ding e Guangtao Fu (Journal of Cleaner Production, 2018)

Desde sua proposição, a racionalidade do nexo tem sido amplamente adotada em importantes estudos científicos. Contudo, diferentes áreas, contextos e pesquisadores assumem diversas interpretações sobre o nexo água-energia-alimentos. Neste artigo, os autores revisam um conjunto de publicações e apresentam duas perspectivas centrais comumente adotadas nas contribuições científicas. Na primeira, nexo é interpretado a partir das interações entre diferentes setores, com o objetivo de apreender as características gerais de sistemas complexos considerando as interligações entre seus componentes, tendo como premissas a perspectiva de segurança (hídrica, energética e alimentar) e a necessidade de uma gestão holística entre estes setores. Na segunda, mais prevalente nos estudos, nexo é compreendido como uma abordagem analítica para quantificar as conexões entre os elementos investigados (neste caso, água, energia e alimentos), com o objetivo de fomentar análises sistêmicas sobre a gestão de recursos naturais em diferentes setores e escalas, identificando sinergias e gerenciando as compensações necessárias.

Na análise dos autores, chamam atenção os estudos mais recentes com enfoque nas conexões entre nexo, resiliência e sustentabilidade, sinalizando o desafio de prover evidências que ajudem a evitar políticas e decisões míopes que coloquem em risco a funcionalidade dos sistemas, sobretudo em um cenário de recursos limitados e demandas cada vez maiores. Apesar das importantes contribuições científicas alcançadas até o momento, os autores endossam a necessidade de estudos que aprofundem as análises sobre as interações entre as dimensões ecológicas, sociais e econômicas na perspectiva do nexo.

The Water-Energy-Food Nexus Research in the Brazilian Context: What Are We Missing?

Michele Dalla Fontana, Fabiano de Araujo Moreira, Gabriela Marques Di Giulio e Tadeu Fabricio Malheiros (Environmental Science and Policy, 2020)

Neste artigo os autores argumentam que a dimensão social do paradigma do desenvolvimento sustentável ainda precisa ganhar reforço analítico nas pesquisas sobre as interações entre água, energia e alimentos, particularmente nos países do Sul Global, como o Brasil, onde questões socioeconômicas, agravadas pelos processos de urbanização, iniquidades e pobreza, são urgentes. É a partir desse entendimento que o artigo traz uma análise crítica sobre os estudos realizados sobre nexo no contexto brasileiro. De um lado, a análise evidencia que os estudos, em sua maioria, são realizados a partir de métodos quantitativos privilegiando uma perspectiva monodisciplinar, com destaque para um maior número de contribuições das ciências físicas e engenharias. De outro lado, os autores evidenciam que são poucas as pesquisas que se valem de metodologias híbridas, combinando métodos quanti e qualitativos. Raros também são os estudos que lançam mão de abordagens transdisciplinares, na perspectiva de envolver atores científicos e não científicos no processo de coprodução de conhecimento.

Contudo, o resultado mais expressivo da análise é o que aponta que a maior parte dos estudos foca em questões de eficiência, otimização, modelagem e inovação tecnológica, sobretudo em dois temas considerados estratégicos: energia hidrelétrica e biocombustíveis. Os efeitos dos processos de urbanização sobre os três elementos são enfoques ainda tangenciais na agenda de pesquisa no contexto brasileiro. Outra demanda urgente centra-se nas contribuições práticas da abordagem do nexo para o enfrentamento de questões diretamente associadas à pobreza, particularmente sobre: (1) o direito à água, tendo em vista as recorrentes crises hídricas que assolam diferentes territórios do país; (2) acesso à energia (em particular a uma energia limpa e mais barata); e (3) garantia de segurança alimentar, sobretudo, neste momento em que o Brasil volta a estar presente no Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas.

Environmental Injustices on Green and Blue Infrastructure: Urban Nexus in a Macrometropolitan Territory

Mateus Henrique Amaral, Lira Luz Benites-Lazaro, Paulo Antonio de Almeida Sinisgalli, Humberto Prates da Fonseca Alves e Leandro Luiz Giatti (Journal of Cleaner Production, 2021)

O contexto deste recente estudo é a Macrometrópole Paulista, foco de um projeto temático financiado pela Fapesp (Projeto Macroamb). Por meio de indicadores multissetoriais, os autores classificam os 180 municípios deste vasto e interdependente território, identificando quatro padrões de municípios dentre as relações de provisão e demandas de serviços ecossistêmicos, considerando também o desenvolvimento humano. Nesta classificação destaca-se um grupo de municípios tratados como ´provedores´, que se destacam por possuírem significativas infraestruturas verdes em seus territórios, provendo serviços ecossistêmicos associáveis a fluxos do nexo, como por exemplo, destinando recursos hídricos para irrigação ou para dessedentação de animais. Este grupo de municípios provedores são identificados no centro de um contexto de injustiça ambiental, uma vez que suas populações apresentam condições desfavoráveis em indicadores de desenvolvimento humano ou em termos de acesso à energia.

A racionalidade do nexo, no caso, é indicada como uma possibilidade para mitigar essas injustiças no território da macrometrópole. Assim, os autores indicam que sinergias no nexo devem ser direcionadas para otimizar o uso destes serviços ecossistêmicos e para reparar as iniquidades dentre os municípios componentes. Este estudo é indicado como uma contribuição para compreender as interdependências inerentes à (in)sustentabilidade em amplos e complexos territórios urbanos.

Leandro L. Giatti é professor associado da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo desde 2010. Biólogo, doutor em saúde pública, é pesquisador nível 2 do CNPq, editor adjunto da revista Ambiente & Sociedade e pesquisador no Instituto de Estudos Avançados. Esta seleção bibliográfica contou com a colaboração de Gabriela M. Di Giulio, professora associada da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo desde 2013, a quem o autor agradece pela valorosa colaboração e parceria.

Parceiros

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