Indígenas que subvertem a velha divisão entre antropólogos e nativos

Miguel Aparicio
O professor da Universidade Federal do Oeste do Pará Miguel Aparicio recomenda cinco leituras de pesquisas produzidas pela antropologia indígena no Brasil

Houve quem tenha lamentado que a cavalaria brasileira não tenha sido tão eficiente quanto a americana no extermínio de sua população originária. Felizmente, apesar da ofensiva contra suas terras, seus direitos, seus corpos e seus saberes, a população indígena no Brasil cresceu. De múltiplas línguas e denominações, persistem na sua tradição de captura do inimigo reinventando as ferramentas e os espelhos do mundo ao seu redor. Nessa manobra de resistência, a partir dos anos 1980, mas sobretudo desde os anos 2000, eles estão presentes também nas universidades. Assim como em outras disciplinas, como antropólogos protagonizam novos rumos na área em que tradicionalmente ocupavam a posição de objetos pesquisados. Agora produtores de etnografias, a antropologia será feita com eles, ou não será. Os antropólogos indígenas não vêm, portanto, para complementar, mas para redefinir.

As novas produções da antropologia indígena no Brasil mostram um entrelaçamento entre o engajamento acadêmico e os vínculos com os povos aos quais pertencem. Nesse encontro, ela emerge não somente como “política afirmativa para indígenas” ou como “apropriação de ferramentas de gestão” das suas terras. Os antropólogos indígenas reinventam assim a própria natureza do conhecimento antropológico e mostram que, para além de um movimento de assimilação dos métodos da academia, suas produções são uma das principais instâncias de inovação nessa “ciência-sobre-os-outros”. As cinco teses de doutorado de antropólogos e antropólogas indígenas aqui apresentadas confirmam esta trajetória, em que os “nativos” tomaram para si o clássico diário de campo dos antropólogos.

A emergência étnica de povos indígenas no Baixo Rio Tapajós, Amazônia

Florêncio Almeida Vaz Filho (Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal da Bahia, 2010)

Indígena maitapu, professor universitário em Santarém, frade franciscano e um dos principais líderes do movimento indígena no rio Tapajós, Florêncio Vaz Filho é uma dessas personalidades na qual a biografia individual se confunde com a trajetória de afirmação dos povos indígenas da sua região. Sua tese de doutorado é um texto não apenas sobre os processos de emergência indígena de descendentes de tapuios que “acabaram perdendo a cultura”, ou de grupos anonimizados como “caboclos”, mas uma etnografia dos próprios vínculos indígenas do autor, fundada na convicção de que “não compete aos antropólogos atestar quem é verdadeiramente indígena, pois só os próprios indígenas é que podem fazê-lo quando afirmam tal identidade” (p. 8). A tese mostra a possibilidade de aliar análise das fontes históricas com engajamento ativo nos itinerários da educação popular da teologia da libertação nos anos 1970 e, também, na consolidação crescente do movimento indígena na conquista de direitos e territórios. A condição cabocla é redescoberta nessas páginas como condição indígena, que se manifesta como força coletiva, por exemplo, no dinamismo das festas de santo, nas práticas de pajelança e no vigor da memória contemporânea sobre a Cabanagem.

O caboclo nascido em Pinhel, no município de Aveiro, através das lutas do movimento indígena que ajudou a construir, encontrou no exercício da antropologia as armas para defender as reivindicações identitárias, territoriais e políticas de seus parentes. A tese é resultado desse trajeto coletivo de assembleias, conselhos, mobilizações em que o autor, junto com os “caboclos”, restitui o próprio direito coletivo de afirmação como Maitapu, Tupinambá, Borari, Kumaruara, Arapium, Tapajó, Tupaiú e outros povos do rio Tapajós e do Planalto santareno. Até hoje, Vaz e seus parentes são criticados como “inventores de índios” e “fabricantes de etnias” pelos setores do agronegócio que sustentou, ao longo do tempo, o apagamento das comunidades indígenas sob a etiqueta neutra da mestiçagem. Essa tese constitui um testemunho – na linha de frente – da vitalidade da emergência indígena.

“Na educação continua do mesmo jeito”: retomando os fios da história Tembé Tenetehara de Santa Maria do Pará

Rosani de Fatima Fernandes (Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade Federal do Pará, 2017)

A pesquisa de Rosani de Fatima Fernandes possui uma singularidade que cativa a atenção do leitor: trata-se de uma antropóloga kaingang de Santa Catarina que desenvolve uma etnografia sobre os Tembé Tenetehara do Pará. É uma obra polifônica na qual são analisados os processos históricos de etnocídio vividos por uma população indígena amazônica, a partir do olhar de uma mulher com vivências dramaticamente análogas no sul do Brasil. A biografia de Rosani se inicia com os desafios da luta pela terra entre os Kaingang do Oeste de Santa Catarina. Ela revisita sua inserção na escola não indígena onde era estigmatizada como “bugra”, bem como em seu trabalho como doméstica na cidade de Chapecó. Após uma trajetória como professora nas escolas indígenas Kaingang e Kyikatejê-Gavião, conectada às agendas das associações indígenas e das suas conquistas de direitos nas políticas públicas, Rosani cursou mestrado em direito na UFPA e, para avançar na sua qualificação como militante indígena, fez doutorado em antropologia social na mesma universidade.

A tese de Rosani Fernandes discute os processos de educação escolar a que foram submetidos os Tembé Tenetehara pelos Capuchinhos Lombardos da Missão do Norte, que ali haviam se estabelecido graças a um acordo com o governo do Pará, desde o final do século 19. Aldeados fora de suas terras, os filhos e filhas dos Tembé Tenetehara foram conduzidos a internatos masculinos e femininos, numa manobra de catequese e instrução em favor da integração nacional e do abandono das tradições consideradas “selvagens”. Durante 100 anos, esse povo indígena viveu um duro processo de silenciamento, até iniciar a retomada de suas terras tradicionais em 1999. A etnografia de Rosani analisa as estratégias dos Tembé Tenetehara na luta pelo reconhecimento de seus direitos e na superação dos apagamentos identitários e culturais aos quais foram submetidos. O espaço escolar emerge como um campo de atenção especial ao longo da tese, pois os silenciamentos históricos vividos pelos Tembé Tenetehara continuam sendo reeditados nas atuais escolas não indígenas que eles frequentam.

Educação escolar entre os povos indígenas de Mato Grosso: cinco casos, cinco estudos

Francisca Navantino Pinto de Ângelo (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2018)

Francisca Navantino – mais conhecida como Chikinha Paresi no movimento indígena – é filha de um “Paresi de Rondon” que trabalhou nas linhas telegráficas do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) e fixou residência com sua esposa no bairro Aldeinha, no centro de Cuiabá. Após anos de formação escolar em colégios católicos e de estudos universitários na UFMT (graduação em história, mestrado em educação), Chikinha Paresi orientou sua militância ao campo da educação escolar indígena, como professora e como gestora de políticas públicas. Tornou-se uma das principais referências nacionais na construção de novos paradigmas da educação indígena “específica, diferenciada, bilíngue e intercultural”, com atuações marcantes na Constituinte de 1988, nos Conselhos Estaduais e Nacionais de Educação e no Conselho Nacional de Política Indigenista.

Com essa trajetória acumulada, a sua tese de doutorado no Museu Nacional aborda os novos desafios das escolas indígenas diante de um panorama onde houve avanços inquestionáveis na formação dos professores indígenas, no protagonismo indígena na gestão e administração escolar, nas dinâmicas do ensino na língua e da construção curricular, bem como nos processos diferenciados de ensino e aprendizagem. A impressionante pesquisa de campo que sustentou a produção da tese permite-lhe analisar cinco cenários escolares mato-grossenses: escolas Ikpeng do Parque Indígena do Xingu, Balatiponé-Umutina, Haliti-Paresi, Kurâ-Bakairi e Goveúvý-Guató do Pantanal de Mato Grosso. Sua tese constitui, sem dúvida, uma das principais referências para compreender os impasses e desafios contemporâneos da educação escolar indígena no Brasil.

Vukápanavo. O despertar do povo Terena para os seus direitos: movimento indígena e confronto político

Luiz Henrique Eloy Amado (Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2019. Editora E-papers/LACED)

Terena da aldeia Ipegue em Mato Grosso do Sul, a trajetória pessoal e de pesquisa de Luiz Henrique Eloy Amado está marcada pela violência extrema do agronegócio regional contra as terras indígenas, numa das regiões mais antiindígenas do continente. Foi diante desse cenário que Eloy Terena abraçou a carreira jurídica e se tornou um dos pioneiros do direito indígena no Brasil. Seu percurso foi marcado pelo exercício da advocacia na defesa das pautas do Conselho Aty Guasu Guarani Kaiowá e do Conselho do Povo Terena, bem como na defesa das lideranças indígenas criminalizadas nos processos de luta pela terra. A antropologia veio consolidar esse seu percurso como uma das principais lideranças da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e como primeiro advogado indígena a vencer uma ação de jurisdição constitucional perante a Suprema Corte. Foi ele o autor da ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Constitucional) que, em 2020, exigiu do governo federal medidas urgentes de proteção contra a pandemia de coronavírus que ameaça de forma mais contundente as populações indígenas do país.

A tese de doutorado em antropologia de Eloy Terena – intitulada Vukápanavo, “avante” em língua terena – aborda os movimentos da retomada conduzida pelas lideranças da terra indígena Taunay-Ipegue, realizando uma “observação participante” dos processos de tomada de decisão das lideranças e caciques terena na luta pelos seus territórios. Os resultados da tese apresentam ainda um elemento crítico inovador: declara-se com firmeza o compromisso do antropólogo indígena como veículo de expressão das vivências e resistências de seu próprio povo. Eloy Terena atende a exigência de seus líderes: “Já chega do purutuyê [branco] falar por nós! Nós temos que falar por nós agora, é para isso que enviamos nossos jovens para as universidades” e define o objetivo que o animou ao longo da pesquisa: “É momento oportuno para (re)ver tudo que foi escrito sobre nós pelos antropólogos”.

Kumuã na kahtiroti-ukuse: uma “teoria” sobre o corpo e o conhecimento-prático dos especialistas indígenas do Alto Rio Negro

João Paulo Lima Barreto (Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Amazonas, 2020. Editora Mil Folhas/Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFAM/Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena - NEAI)

A biografia de João Paulo Lima Barreto, como vimos também nos perfis anteriores, revela um autêntico trânsito entre mundos, revivido nas primeiras páginas da tese, que transitam das paisagens do rio Tiquié pelas mãos de seu avô, o pajé Ponciano Barreto, até os internatos salesianos, a Escola Técnica de Mineração, o seminário e o ingresso na universidade

A antropologia de João Paulo Barreto cresceu num ambiente de diálogos múltiplos, com os especialistas xamânicos do rio Negro yaiua, kumuã e bayaroa, com os colegas antropólogos indígenas e não indígenas, em debates intensos no Brasil e no exterior, onde ele levantou sempre a bandeira da reflexividade indígena (na tarefa de “pensar o pensamento”, como ele diz) e insistiu em colocar as “teorias nativas” num esforço de simetria com as formas de conhecimento da ciência ocidental. A tese revela uma “antropologia nativa” que se afirma como filosofia indígena: não se trata, porém, de uma filosofia das ideias abstratas, mas de uma filosofia da construção dos corpos indígenas. Ela nos traz uma descrição das dinâmicas de formação dos corpos humanos, constituídos de substâncias vegetais e minerais (terra, água), de fenômenos (ar, calor) e de qualidades de animais; corpos imersos numa rede cósmica exposta à ação dos não humanos waimahsã, dos animais, dos alimentos, dos fenômenos naturais e de substâncias perigosas que podem causar desarmonia no corpo.

As dinâmicas de transformação corporal, os procedimentos de cuidado e proteção, as práticas de cura, as palavras dos especialistas xamânicos surgem ao longo dessa etnografia das práticas de bahsese (“benzimentos”) que se observam no Centro de Medicina Indígena Bahserikowi, fundado por João Paulo no centro histórico de Manaus. O autor realiza, assim, uma tarefa inédita de tradução, instaurando as bases de uma autêntica antropologia tukana.

Miguel Aparicio é doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, UFRJ, professor de antropologia no Instituto de Ciências da Sociedade da Universidade Federal do Oeste do Pará, em Santarém, e pesquisador do Opi/CNPq (Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato).

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