Agricultura e meio ambiente

Francisco Luis Lima Filho

O doutor em economia e especialista em agricultura sustentável Francisco Luis Lima Filho recomenda cinco leituras que mostram os impactos da produção rural sobre as florestas, o ar, o solo e a água

Um dos principais desafios para o setor agrícola é alimentar uma população global crescente, ao mesmo tempo que deve reduzir seu impacto ambiental e ajudar a conservar os recursos naturais para as gerações futuras.

A atividade agrícola pode ter efeitos significativos no meio ambiente. Entre os impactos negativos, destacam-se a poluição e a degradação do solo, da água e do ar. No entanto, a agricultura também pode ter impactos positivos, por exemplo, prendendo gases de efeito estufa dentro de safras e solos.

Apresento aqui cinco referências básicas que mostram como as atividades agrícolas podem impactar o meio ambiente. Essas referências também mostram efeitos diretos do setor sobre a nossa saúde e alguns possíveis caminhos para solucionar esses problemas.

Agricultural Technologies and Tropical Deforestation

Arild Angelsen e David Kaimowitz (eds.) (Cifor, 2001)

O progresso tecnológico na agricultura protege ou coloca em risco as florestas tropicais? Este livro tenta responder a essa pergunta. A resposta depende muito do tipo de tecnologia usada na produção, das características dos agricultores, das condições de mercado, do ambiente político e das condições agroecológicas, entre outros fatores.

O livro contém casos da América Latina, da África Subsaariana e do Sudeste Asiático, além de dois estudos sobre a experiência histórica dos Estados Unidos e de países desenvolvidos da Europa. O texto cobre uma ampla gama de mudanças tecnológicas (novas safras, variedades de maior rendimento, mecanização, irrigação, fertilizantes, controle de pragas, etc) em diferentes sistemas agrícolas (cultivo itinerante, cultivo permanente em terras altas, agricultura irrigada ou cultivo em terras baixas e pecuária).

Economic Growth and the Rise of Forests

Andrew D. Foster e Mark R. Rosenzweig (The Quarterly Journal of Economics, 2003)

Neste artigo, os autores buscaram identificar os caminhos pelos quais o crescimento econômico afeta as florestas, focando no papel da demanda por produtos florestais, na demanda por florestas como bens ambientais, em mudanças de tecnologia agrícola e nos custos de mão de obra rural. A chave é o mercado de produtos florestais (madeira, principalmente).

Quando investigaram o crescimento econômico e mudanças florestais para países em desenvolvimento, os autores descobriram, com base em dados empíricos, que, em economias abertas, não há uma relação sistemática entre o crescimento econômico e as mudanças na cobertura florestal. Os achados refletem os resultados relativamente fracos da literatura existente. Por outro lado, para economias fechadas que fornecem grande parte de sua própria demanda por produtos florestais, o estudo concluiu que há uma relação positiva significativa e clara entre mudanças na renda e mudanças na área florestal. Os autores interpretam esse resultado como se as árvores fossem bens ambientais, de tal forma que aumentos de renda não correspondem a aumentos na demanda por produtos florestais.

Agricultural Fires and Health at Birth

Marcos A. Rangel e Tom S. Vogl (Review of Economics and Statistics, 2019)

No Brasil, como em outros lugares, a colheita da cana-de-açúcar está acompanhada de queimadas, que eliminam detritos e criam nuvens de fumaça que elevam as concentrações de poluentes atmosféricos nas proximidades. Este artigo estudou as queimadas da cana-de-açúcar e os efeitos sobre a saúde de bebês no estado de São Paulo.

O artigo encontra uma relação causal entre a exposição à fumaça e problemas de saúde em recém-nascidos ou aumento do risco de natimorto. A exposição in utero à fumaça da queima da cana-de-açúcar durante os últimos três meses de gestação aumenta a prevalência de peso muito baixo ao nascer (abaixo de 1.500 gramas) e de nascimento muito prematuro (menos de 32 semanas). Uma implicação dessa descoberta é que a poluição, mesmo em baixos níveis, é uma ameaça significativa para a saúde. Os resultados mostram que as preocupações sobre os efeitos da poluição do ar na saúde não devem parar na periferia das cidades ou nos centros industriais. Os níveis de poluição desse estudo são virtualmente ignorados pelas agências ambientais em todo o mundo, embora pareçam ser uma ameaça significativa à saúde.

Down the River: Glyphosate Use in Agriculture and Birth Outcomes of Surrounding Populations

Mateus Dias, Rudi Rocha e Rodrigo R. Soares (IZA Discussion Papers, 2019)

Este artigo estudou os efeitos do uso agrícola do glifosato — o herbicida mais utilizado atualmente — nos resultados de saúde das populações vizinhas à produção de soja no Brasil. Os principais resultados mostraram que os locais que receberam água de áreas que expandiram o uso de glifosato experimentaram uma deterioração significativa nos resultados de partos, além de aumentos significativos na mortalidade infantil, na incidência de nascimentos prematuros e na frequência de nascimentos com baixo peso.

Em poucos casos o trade-off 1 entre a produtividade agrícola e os efeitos externos dos pesticidas se manifesta tão claramente como no caso da produção de soja no Brasil. Nesse sentido, deveríamos iniciar uma nova discussão sobre possíveis regulações para o uso de herbicidas à base de glifosato.

Technological Change and Deforestation: Evidence from the Brazilian Soybean Revolution

Juliano Assunção e Arthur Bragança (CPI Working Paper, 2015)

Este artigo estudou o impacto das inovações tecnológicas da produção de soja sobre o uso da terra no Brasil entre 1960 e 1985. As estimativas empíricas indicam que as inovações tecnológicas que se adaptaram para o Centro-Oeste brasileiro criaram benefícios econômicos e ambientais substanciais. Os autores descobriram que, apesar de ter havido uma pressão para expansão das terras agrícolas, nos locais que adotaram essas novas tecnologias houve transição de áreas de pastagem para áreas de cultivo. Como consequência, a área com florestas nativas privadas aumentou em municípios mais adequados para o cultivo da soja com tecnologias modernas.

O artigo destacou a importância de considerar as possibilidades de substituição entre as culturas e as restrições de recursos para entender o efeito de inovações tecnológicas na agricultura sobre o desmatamento. Mudanças no uso de insumos evidenciaram que a prática agrícola é mais intensiva em insumos modernos e capital do que a pecuária, de tal forma que restrições de recursos podem ser determinantes sobre qual atividade irá prevalecer.

Francisco Luis Lima Filho é analista sênior no CPI/PUC-Rio na agenda de agricultura sustentável. Possui doutorado e mestrado em economia pela FGV-EPGE (Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro) e bacharelado em economia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia).

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