Ecologia e sociodiversidade da Caatinga

Felipe P. L. Melo
O biólogo e professor da Universidade Federal de Pernambuco Felipe Melo indica cinco leituras para compreender o bioma, o único exclusivamente brasileiro

Seria um clichê dizer que a Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e que, por isso, deveríamos entendê-lo melhor. Há inúmeras razões relevantes para compreender esse “lugar” para além da sua exclusividade brasileira.

A lista de publicações a seguir é um pequeno e inconcluso apurado de textos científicos que oferecerão elementos para a recriação da Caatinga pelo leitor. Os trabalhos selecionados representam o estado atual do conhecimento sobre o bioma, junto com uma leitura clássica que solidificou sua definição. A tradição naturalista da botânica e o olhar analítico da ecologia estão presentes nas obras, bem como um caso de sucesso de um projeto de proteção ambiental que mistura futebol, política e conservação. O leitor encontrará, portanto, uma ampla base de informação que fornece uma boa ideia dessa invenção que é a Caatinga.

Caatinga: The Largest Tropical Dry Forest Region in South America

José Maria Cardoso da Silva, Inara R. Leal e Marcelo Tabarelli (eds.) (Springer, 2017)

Este livro é o resultado da compilação mais recente sobre história natural, ecologia e conservação da Caatinga. Participam dele todos os principais grupos de pesquisa que atualmente a estudam. O livro traz informações completas e atualizadas sobre aspectos biológicos, socioecológicos e de conservação desse bioma, que é um dos mais desconhecidos para a ciência brasileira e mundial.

Os textos são em inglês, mas o leitor brasileiro pode entrar em contato com os autores para pedir informações em português. Foi um livro concebido para ser a porta de entrada para estudos sobre a Caatinga. É bibliografia básica para futuras gerações de biólogos, gestores de recursos naturais e pessoas interessadas na conservação deste bioma.

A flora das Caatingas do São Francisco

José Alves de Siqueira Filho et. al (Andréa Jakobsson Estúdio, 2013)

Premiado com o Jabuti em 2013 como melhor livro de ciência, este trabalho é resultado da compilação de estudos botânicos e históricos sobre a Caatinga e traz textos em português com uma qualidade gráfica impecável.

Com mais de 500 páginas, o livro é uma compilação organizada pelo pesquisador José Alves Siqueira Filho, da Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), após anos trabalhando na coleta de plantas e na organização de um dos melhores herbários dedicados à Caatinga, o HVasf.

O livro também é resultado das políticas de compensação da obra de transposição do rio São Francisco, que financiou centenas de expedições que forneceram os dados para a obra. “A flora das Caatingas do São Francisco” afasta de vez a ideia da Caatinga como uma terra arrasada, de pouca vida e sem exuberância. O livro é uma ode à Caatinga, em toda sua riqueza e majestade, mas também denuncia as ameaças à sua herança biológica e cultural. Devemos conservar a Caatinga e garantir os direitos socioambientais dos caatingueiros e caatingueiras — os homens e mulheres do sertão que dão sentido a esse lugar.

Chronic Anthropogenic Disturbance on Caatinga Dry Forest Fragments

Marina Antongiovanni, Eduardo M. Venticinque, Marcelo Matsumoto e Carlos Roberto Fonseca (Journal of Applied Ecology, 2020)

Esqueça a noção de desmatamento criando uma não floresta em contraste com as florestas remanescentes. Ainda que o desmatamento tenha um papel importante para a Caatinga, outro tipo de perturbação que age lenta e continuamente pode afetar enormes porções de qualquer bioma, especialmente desse. Neste artigo, a pesquisadora Marina Antongiovanni e colaboradores mostram como os remanescentes de Caatinga, se vistos sob outras lentes que não a do desmatamento, estão sob forte impacto de outras atividades socioeconômicas de menor escala — todas ligadas à proximidade dos remanescentes com as infraestruturas humanas. A Caatinga, quando cercada por estradas e pessoas, sofre com extração de madeira e criação de gado bovino e caprino solto na vegetação, por exemplo. Isso cria uma pressão que, apesar de não gerar desmatamento severo, vai degradando a Caatinga ao ponto que pode levar a um fenômeno extremo conhecido como desertificação.

A Caatinga é o lar de mais de 24 milhões de brasileiros que nela e dela vivem. O manejo sustentável do bioma só será possível se reconhecermos suas particularidades enquanto socioecossistema. Entender como as atividades humanas, somadas, podem gerar perturbações crônicas é um passo crucial.

The Caatingas Dominium

Dárdano de Andrade-Lima (Revista Brasileira de Botânica, 1981)

Este artigo é um clássico de autoria de um dos mais renomados botânicos do Brasil, o pesquisador Dárdano de Andrade-Lima. No começo da década de 1980, ele publicou o texto como uma revisão crítica sobre as origens da vegetação da Caatinga. O trabalho é um tratado de história natural sobre os fatores edáficos (solo), geográficos e climáticos que determinam a ocorrência dos cinco tipos de Caatinga que o autor identificou, e que estão subdivididos em 12 comunidades caracterizadas pela dominância de algumas espécies.

Contrariando a interpretação mais conhecida do bioma — a de “mata-branca” —, Dárdano começa o artigo traduzindo o termo indígena como uma “floresta aberta”, questionando que essa seja a característica que define a Caatinga, região repleta de vegetações diferentes cuja ocorrência é o resultado de fatores históricos, de solo e clima. Uma viagem pela Caatinga nos leva aos vales repletos de Carnaúba (Copernicia sp) ou às regiões extremamente secas do Cariri Paraibano, dominadas por Catingueiras (Cenostigma pyramidale) e Pereiros (Aspidosperma pyrifolium). As Caatingas são muitas, e suas ameaças, diversas, mas, neste artigo, Dárdano já chamava a atenção para os ciclos de baixa produtividade de gado e algodão que deixam áreas afetadas e com baixa densidade populacional.

Football and Biodiversity Conservation: Fifa and Brazil Can Still Hit a Green Goal

Felipe P. Melo, José A. Siqueira, Bráulio A. Santos, Orione Álvares‐da‐Silva, Gerardo Ceballos e Enrico Bernard (Biotropica, 2014)

Este artigo foi o gatilho para a criação do Refúgio de Vida Silvestre Tatu-Bola criado pelo estado de Pernambuco em março de 2015. A história dessa unidade de conservação é um emblemático exemplo de como a ciência pode ter efeitos políticos quando há uma oportunidade à vista.

A Copa do Mundo de futebol da Fifa em 2014 foi realizada no Brasil e teve como mascote um simpático tatu-bola de nome Fuleco. O bicho, endêmico da Caatinga, emprestou a cara para aquela Copa — que viria a ser a vergonha nacional em termos de futebol, com a goleada de 7 a 1 sofrida pela seleção brasileira da Alemanha. Com o evento, por outro lado, a Caatinga acabou ganhando uma área protegida de 112 mil hectares, que foi o resultado da repercussão que este artigo teve na mídia. Quando o texto foi publicado, matérias, entrevistas e abaixo-assinados virtuais com mais de 200 mil assinaturas pediram que a Fifa e o Brasil fossem coerentes e ajudassem na criação de uma área protegida que pudesse servir para a conservação do tatu-bola.

O artigo conseguiu colocar a Caatinga no radar midiático durante o maior evento esportivo do mundo. Muita gente ouviu falar do bioma e do seu então morador ilustre, o tatu-bola, quando Fuleco entrou em campo.

Felipe P. L. Melo é biólogo, doutor em ecologia pela Universidad Nacional Autónoma de México, professor da Universidade Federal de Pernambuco e membro do conselho técnico-científico da BPBES (Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos). É especialista nas áreas de ecologia política, conservação e Caatinga.

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