Gestão escolar

Priscilla Bacalhau

A pesquisadora e doutora em economia Priscilla Bacalhau recomenda cinco leituras sobre liderança na educação

A gestão escolar é um tema recorrente tanto no debate político educacional quanto na literatura acadêmica nacional e internacional, com divergências na definição das dimensões da gestão e do papel do gestor. Há uma crescente valorização teórica da atuação pedagógica do gestor, por meio do acompanhamento do processo pedagógico e do apoio ao desenvolvimento profissional dos professores. Evidências de pesquisas acadêmicas apontam para a importância de uma gestão pedagógica e participativa para o aprendizado dos estudantes em detrimento de uma gestão puramente burocrática, em que o gestor não exerce um papel de líder na mobilização dos diversos atores escolares.

O conceito de gestão também aparece em uma das metas do Plano Nacional de Educação, em que se busca garantir a gestão democrática da educação, englobando a participação de toda a comunidade escolar no planejamento e nas tomadas de decisão. O acompanhamento do cumprimento dessa meta do PNE ainda é um desafio, pois não há indicadores relacionados à gestão escolar, o que ressalta a importância de ampliar os conhecimentos e as discussões sobre a temática.

Apresentamos aqui cinco referências básicas sobre gestão escolar, que discutem o conceito geral, suas dimensões e componentes, a importância da gestão participativa e evidências de boas práticas de gestão escolar que estão associadas a melhores resultados educacionais.

How Leadership Influences Student Learning

Kenneth Leithwood, Karen Seashore Louis, Stephen Anderson e Kyla Wahlstrom (The Wallace Foundation, 2004)

Este relatório elaborado por pesquisadores das universidades de Minnesota e Toronto examina as evidências disponíveis sobre o papel fundamental da gestão na melhoria do aprendizado, por meio de uma extensa revisão de práticas bem-sucedidas de liderança escolar. Vale a pena também conferir versões revisitadas deste relatório, publicadas em anos mais recentes, mas o original continua sendo uma importante fonte de evidências para educadores e formuladores de políticas públicas para a promoção de uma liderança educacional eficaz.

As evidências encontradas sugerem que a liderança pode desempenhar um papel altamente significativo na melhoria do aprendizado dos estudantes e no clima escolar, embora esse seja uma função muitas vezes subestimada. Também há uma indicação de que a liderança efetiva é um fator relevante para a implementação bem-sucedida de reformas escolares em larga escala.

Um dos principais aprendizados deste estudo, amplamente citado na literatura sobre o tema, é que a liderança está em segundo lugar entre todos os fatores intraescolares que contribuem para que os estudantes aprendam na escola, ficando atrás apenas do ensino em sala de aula, ou seja, dos professores. Além disso, uma liderança eficaz tem maior impacto para as escolas que mais precisam dela, ou seja, as escolas com os menores resultados de aprendizado.

Todas essas evidências corroboram a importância de uma liderança efetiva na escola, junto a outros fatores que também contribuem para o bom desempenho dos estudantes. Por fim, o estudo indica algumas práticas de liderança associadas ao sucesso dos estudantes, como estabelecer expectativas elevadas, desenvolver pessoas e construir uma gestão escolar baseada em evidências.

The Impact of Leadership on Student Outcomes: An Analysis of the Differential Effects of Leadership Types

Viviane Robinson, Claire Lloyd e Kenneth Rowe (Educational Administration Quarterly, 2008)

O estudo desenvolvido por Viviane Robinson e coautores é um dos mais citados trabalhos em revistas de administração escolar. Examina o impacto de diferentes tipos de liderança nos resultados acadêmicos e não acadêmicos dos estudantes. Por meio de revisão bibliográfica e meta-análise, os resultados apontam que o perfil de liderança mais pedagógico é o que mais surte efeito no desempenho escolar dos estudantes, destacando essa dimensão no papel do diretor.

O estudo revelou cinco conjuntos de práticas de liderança: estabelecimento de metas e expectativas; recursos estratégicos; planejamento, coordenação e avaliação do ensino e do currículo; e promoção do desenvolvimento profissional dos professores. Foram encontrados fortes efeitos para o desempenho dos estudantes com a dimensão da liderança envolvendo a promoção do desenvolvimento do professor. Já com o estabelecimento de metas e para o planejamento, coordenação e avaliação do ensino e do currículo, foram encontrados efeitos moderados.

Logo, quanto mais os líderes focam seus relacionamentos, seu trabalho e seu aprendizado no ensino e na aprendizagem, maior sua influência sobre os resultados dos estudantes. O artigo conclui com uma discussão sobre a necessidade de que a pesquisa e a prática de liderança estejam mais intimamente ligadas às evidências sobre o ensino eficaz e o aprendizado efetivo dos professores.

The Moral Imperative of School Leadership

Michael Fullan (Corwin Press, 2003)

Neste livro, Michael Fullan defende que o papel do diretor é fundamental para a mudança escolar sistêmica. Autor de extensa produção acadêmica sobre liderança escolar e reforma educacional, Fullan examina o propósito moral da liderança da escola e o papel do gestor em transformar seu contexto.

O autor sugere que os gestores escolares devem se tornar agentes e beneficiários dos processos de mudança escolar, e que essa deve ser a sua principal agenda. Rechaça a imagem do gestor como alguém com superpoderes, mas defende que ele busque uma posição de destaque tanto na escola quanto no sistema escolar, o que tornaria o ofício mais gratificante. Fullan salienta ainda que o gestor deve ser o ponto focal da liderança escolar, mas que precisa ter como "imperativo moral" desenvolver a liderança dos demais atores do ambiente, fomentando uma liderança compartilhada que trará benefícios. O autor também coloca como público-alvo do seu livro as secretarias de Educação, pois são os níveis superiores da gestão educacional que podem modificar o sistema e criar condições para que o gestor exerça sua liderança.

A gestão participativa na escola

Heloisa Lück (Editora Vozes Limitada, 2017)

Heloísa Lück é uma referência nacional em gestão escolar. Neste livro, a autora discute os processos de melhoria da gestão escolar e a importância da gestão participativa para atingir o objetivo da escola de formação humano-social.

Lück discute as diferenças entre administração e gestão escolar, ressaltando que na gestão escolar participativa toda a comunidade se envolve ativamente no planejamento, execução e fiscalização das despesas da escola. Nesse modelo, as decisões também são tomadas de forma coletiva, por meio de conselho escolar, com participação de representantes dos pais, estudantes, professores e coordenadores. A autora defende que é por meio de uma gestão participativa que será possível alcançar as metas da escola, com o comprometimento da comunidade escolar e a aproximação de todos do processo ensino-aprendizagem. Ressalta também que a ampliação do canal de comunicação entre escola e comunidade é imprescindível para que ocorra uma gestão participativa efetiva.

Vale destacar que o tema discutido pela autora neste livro está bastante alinhado à meta 19 do Plano Nacional de Educação, que trata da gestão democrática da educação. Essa meta tem como objetivo promover a participação de toda a comunidade escolar no projeto político-pedagógico, na gestão da instituição, com atuação de instâncias como grêmios, conselhos e fóruns. Não há atualmente um indicador que permita acompanhar essa meta, o que reforça a relevância de obras como este livro para a discussão conceitual da gestão democrática.

Does Management Matter in Schools?

Nicholas Bloom, Renata Lemos, Raffaella Sadun e John Van Reenen (The Economic Journal, 2015)

Neste artigo, Nicholas Bloom e coautores desenvolvem um índice de gestão escolar e apresentam evidências sobre a qualidade da liderança e os resultados educacionais de escolas de diferentes tipos de países, incluindo o Brasil. O índice é calculado como uma média de 20 medidas práticas de gestão em quatro áreas: operações, monitoramento, definição de metas e pessoas.

Este artigo contribui com a literatura por criar um instrumento robusto que permite medir e comparar sistematicamente as práticas de gestão. Em comparação com outros, ele tem a vantagem de estar adaptado a países em desenvolvimento, especialmente o Brasil. Além disso, o instrumento foca nas práticas de gestão, e não nas habilidades do gestor, o que pode contribuir para a construção da prática nas redes de ensino.

Entre os oito países analisados e comparados, Reino Unido, Suécia, Canadá e EUA obtiveram as maiores pontuações gerenciais, enquanto Brasil e Índia tiveram as piores. Os resultados encontrados apontam que uma qualidade de gestão mais alta está fortemente associada a melhores resultados educacionais, mas há uma grande variação entre os países. No Brasil, a correlação encontrada entre a qualidade da gestão e os resultados educacionais é muito mais fraca em relação aos demais países analisados (correlação de 10% no Brasil e 24% na média dos países). Isso significa que há uma maior probabilidade de uma escola no Brasil apresentar resultados educacionais mais baixos do que uma escola com a mesma qualidade da gestão no Reino Unido, por exemplo.

Priscilla Bacalhau é doutora em economia pela FGV EESP e foi pesquisadora visitante na Escola de Educação da Universidade de Stanford. Atua como consultora para a equipe de Educação do Banco Mundial e presta assistência técnica em avaliação de impacto pela FGV EESP Clear para Brasil e África Lusófona. É pesquisadora convidada do CPTE (Centro de Pesquisa Transdisciplinar em Educação) do Instituto Unibanco.

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