Quais fatores interferem no desenvolvimento na primeira infância

Sonia Isoyama Venancio

Paper

Fatores associados ao desenvolvimento da primeira infância em municípios do Ceará, Brasil: um modelo hierárquico de contextos, ambientes e domínios de nurturing care em um estudo transversal

Factors Associated With Early Childhood Development in Municipalities of Ceará, Brazil: a Hierarchical Model of Contexts, Environments, and Nurturing Care Domains in a Cross-Sectional Study

autoras

Sonia Isoyama Venancio, Juliana Araujo Teixeira, Maritsa Carla de Bortoli e Regina Tomie Ivata Bernal

Área e sub-área

Ciências da saúde, Epidemiologia

Publicado em

The Lancet Regional Health - Americas, em 01/01/2022

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Após a aprovação do Marco Legal da Primeira Infância, em 2016, apesar de o Brasil aumentar o número de programas voltados à primeira infância, ainda enfrentamos um desafio relacionado à escassez de informações sobre como as crianças brasileiras estão se desenvolvendo.

Este trabalho, publicado na revista The Lancet Regional Health Americas, analisa justamente quais fatores interferem positivamente e negativamente no desenvolvimento de crianças de 0 a 5 anos de idade, residentes em 16 municípios do estado do Ceará. A pesquisa utilizou os dados do Pipas Ceará 2019 (Primeira Infância para Adultos Saudáveis) com informação fornecida por cuidadores de 6.447 crianças entre 0 e 5 anos de idade durante a campanha de multivacinação. Identificou-se que 13,4% delas apresentavam uma chance de não estar se desenvolvendo adequadamente.

Os resultados são fundamentais considerando que dimensões decisivas da vida – desde a qualidade da saúde até a produtividade no trabalho – estão intimamente correlacionadas ao período formativo até os 6 anos de idade.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Buscamos analisar quais fatores interferem positivamente e negativamente no desenvolvimento de crianças de 0 a 5 anos de idade, residentes em 16 municípios do estado do Ceará.

Por que isso é relevante?

Pesquisas recentes mostram uma relação entre o desenvolvimento na primeira infância, que ocorre até os 6 anos de idade, e o desempenho escolar, a produtividade no trabalho, a saúde física, mental e bem-estar social ao longo da vida.

Investimentos na primeira infância são necessários para que todas as crianças tenham oportunidade de alcançar seu pleno potencial de desenvolvimento. Estima-se que 43% de crianças menores de cinco anos (cerca de 250 milhões) que vivem em países de baixa/média renda correm o risco de um desenvolvimento deficiente, devido à pobreza e ao atraso no crescimento.

Os ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) incluíram em suas metas para 2030 que todas as meninas e meninos tenham acesso a um desenvolvimento de qualidade na primeira infância, cuidados e educação pré-escolar, de modo que eles estejam prontos para o ensino primário. A OMS (Organização Mundial da Saúde), o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e o Banco Mundial lançaram o Nurturing Care Framewok, um modelo de cuidados para apoiar os países no alcance dessa meta. Segundo esse modelo, para atingir seu pleno potencial, as crianças precisam de cinco dimensões de cuidados, trabalhados de forma intersetorial: boa saúde, nutrição adequada, aprendizagem desde os primeiros anos, segurança/proteção e cuidados responsivos.

No Brasil, as ações e programas voltados ao desenvolvimento na primeira infância estão se intensificando, em especial após a aprovação do Marco Legal da Primeira Infância, em 2016. Porém, enfrentamos um desafio relacionado à escassez de informações sobre as cinco dimensões do Nurturing Care Framewok e sobre como as crianças brasileiras estão se desenvolvendo.

Resumo da pesquisa

Foram analisados dados do estudo Pipas Ceará 2019 (Primeira Infância para Adultos Saudáveis) realizado com cuidadores de 6.447 crianças entre 0 e 5 anos de idade durante a campanha de multivacinação. Identificou-se que 13,4% apresentavam uma chance de não estar se desenvolvendo adequadamente.

Para as crianças com menos de 3 anos, a chance de estar se desenvolvendo de acordo com o esperado foi 168% maior caso elas tivessem acesso à brinquedos manufaturados e 71% maior, quando engajadas em pelo menos quatro atividades de estímulo nos últimos três dias. Quando os chefes de família estavam empregados e quando os cuidadores leram a Caderneta de Saúde da Criança a chance de ela ter os marcos do DI (desenvolvimento infantil) previstos para a sua idade foi 61% e 42% maior, respectivamente. Para aquelas que nasceram com baixo peso, essa chance diminuía em 36%.

Para crianças entre 3 e 5 anos, aquelas que foram amamentadas apresentavam de 221% a 289% mais chance de estar se desenvolvendo adequadamente. Crianças que tinham livros infantis em casa também tinham essa chance aumentada em 71% até 171%, assim como quando os seus cuidadores receberam informações sobre DI (49% mais chance). O engajamento em atividades de estímulo fez com que as crianças tivessem 80% mais chance de estar se desenvolvendo de acordo com o esperado. Em contrapartida, elas eram menos propensas a atingir os marcos de DI se: usassem telas por mais de 2h/dia (-39%), se brincassem com objetos domésticos (-38%), e se seus cuidadores considerassem bater como uma medida necessária para educar a criança (-33%). Verificou-se que as crianças cujas famílias participaram de programas sociais apresentaram pior desempenho na avaliação do DI. Isso mostra que esses programas estão conseguindo alcançar as crianças em situação de maior vulnerabilidade e com maior risco de não alcançarem seu pleno potencial de desenvolvimento.

Quais foram as conclusões?

Os dados apontaram que um ambiente favorável e estimulante para o desenvolvimento na primeira infância tem como fatores chave a amamentação, a oferta de informações sobre esse assunto para pais e cuidadores e a presença de atividades de estímulo, brinquedos e livros no domicílio.

Por outro lado, assim como em outros estudos, condições socioeconômicas desfavoráveis, expressas pela participação em programas governamentais de transferência de renda e em programas voltados à primeira infância, que tem como público-alvo as crianças de famílias em situação de maior vulnerabilidade social, a longa exposição à telas e disciplinas punitivas severas, como bater na criança, exerceram influência negativa no seu desenvolvimento.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

O Projeto Pipas visa disponibilizar informações para gestores e profissionais de diferentes setores, em especial da saúde, educação e assistência social, para apoiar a tomada de decisão no tocante à formulação, implementação e monitoramento de ações e programas voltados à primeira infância. Além disso, a ampla divulgação dos resultados pode apoiar as famílias e cuidadores para que estabeleçam interações afetuosas com as crianças, além de alertá-los sobre práticas que interferem positiva e negativamente no desenvolvimento infantil.

A aplicação do Projeto Pipas no Ceará contou com o apoio da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e se deu por meio de articulações e mobilização da Secretaria Estadual de Saúde e das diferentes secretarias municipais. Os resultados da pesquisa forneceram um valioso retrato sobre o desenvolvimento infantil das crianças cearenses na primeira infância que possibilitaram o planejamento de ações e tomada de decisão não apenas das secretarias de saúde, mas também para as lideranças estaduais e municipais de diversas secretarias. Uma das ações foi a realização de um ciclo de oficinas de planejamento estratégico de políticas de primeira infância entre novembro de 2019 e fevereiro de 2020. A partir desse planejamento diferentes ações na área da primeira infância estão em andamento.

Referências

Black MM, Walker SP, Fernald LCH, et al. Early childhood development coming of age: science through the life course. Lancet 2017. doi:10.1016/S0140-6736(16)31389-7

Britto PR, Lye SJ, Proulx K, et al. Nurturing care: promoting early childhood development. Lancet 2017;389:91–102

Rocha HAL, Sudfeld CR, Leite ÁJM, et al. Adverse childhood experiences and child development outcomes in Ceará, Brazil: A population-based study. Am J Prev Med 2021;60:579–586.

Venancio SI, Buccini GS, Alves CRL, et al. Psychometric properties of the Child Development Assessment Questionnaire (QAD-PIPAS) for use in population studies involving Brazilian children aged 0–59 months. J Pediatr (Rio J) 2021. doi:10.1016/j.jped.2021.01.003.

Venancio SI, Bortoli MC, Frias PG, Giugliani ERJ, Alves CRL, MO Santos Development and validation of an instrument for monitoring child development indicators. J Pediatr (Rio J) 2019. doi:10.1016/j.jped.2019.10.008.

Sonia Isoyama Venancio é pediatra, mestre e doutora pela FSP-USP (Faculdade de Saúde Pública da USP), pesquisadora e diretora substituta do Instituto de Saúde, coordenadora do Programa de Mestrado Profissional em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde, docente do Programa de Pós-Graduação Nutrição em Saúde Pública da FSP-USP, pesquisadora principal do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância e consultora da Coordenação de Saúde da Criança e Aleitamento Materno do MS (Ministério da Saúde).

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