Como fatores socioeconômicos impactam nas taxas de suicídio no Brasil

Daiane Borges Machado

Paper

Relação entre o programa nacional de transferência de renda Bolsa Família e a incidência de suicídio no Brasil: Um estudo quase-experimental

Relationship between the Bolsa Família national cash transfer programme and suicide incidence in Brazil: A quasi-experimental study

autores

Daiane Borges Machado; Elizabeth Williamson; Julia M. Pescarini; Flavia J. O. Alves; Luís F. S. Castro-de-Araujo; Maria Yury Ichihara; Laura C. Rodrigues; Ricardo Araya; Vikram Patel; Maurício L. Barreto

Área e sub-área

Saúde, Saúde mental

Publicado em

Plos Medicine em 18/05/2022

Link para o original

O suicídio é um grave problema de saúde pública global e ranqueia entre as 20 principais causas de mortalidade em todo o mundo. Considerando esse quadro, a busca por estratégias e políticas públicas que diminuam as taxas dessa fatalidade vem crescendo continuamente. Esse estudo, publicado no Plos Medicine, avaliou a relação entre fatores socioeconômicos, como a transferência de renda, e as taxas de suicídio no Brasil.

A pesquisa analisou uma coorte que compreende metade da população brasileira e analisou os impactos que a transferência de renda do programa Bolsa Família possui nas taxas de suicídio no país. Os resultados mostraram que os beneficiários do programa apresentaram menor taxa de suicídio do que os não-beneficiários, e que essa associação foi mais forte entre mulheres e indivíduos com idade entre 25 e 59 anos.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Transferência de renda contribuí para a prevenção de suicídio?

Por que isso é relevante?

O suicídio é um grave problema de saúde pública global e ranqueia entre as 20 principais causas de mortalidade em todo o mundo. Fatores socioeconômicos têm sido consistentemente associados ao suicídio, mas há ainda evidências limitadas sobre o impacto das intervenções socioecônomicas na redução das taxas.

No Brasil a taxa é de mais de 6,1 a cada cem mil habitantes e vem constantemente crescendo nas últimas décadas, o que contraria a tendência mundial de redução das taxas.

Apesar do constante crescimento, estes são óbitos que poderiam ser evitados com a adoção de medidas eficazes de prevenção.

Resumo da pesquisa

O estudo investigou a associação entre o maior programa de transferência condicionada de renda do mundo, o Bolsa Família, e as taxas de suicídio em uma coorte que compreende 100 milhões de brasileiros. Para a execução da pesquisa, foram utilizaram dados administrativos em um período de 12 anos (2004 a 2015), que foram vinculados através de linkages (isto é, relacionamento de bases de dados) no Cidasc/Fiocruz (Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde). Para as análises foram utilizados métodos estatísticos robustos como Kernel Matching, IPTW e escores de propensão, e várias análises de sensibilidade para testar a robustez dos resultados. Foi observado que os beneficiários do programa de transferência de renda apresentaram menor taxa de suicídio do que os não-beneficiários, e que essa associação foi mais forte entre mulheres e indivíduos com idade entre 25 e 59 anos.

Quais foram as conclusões?

Observamos que o PBF (Programa Bolsa Família) esteve associado à menores taxas de suicídio, com resultados semelhantes em todas as análises de sensibilidade. Essas descobertas devem ajudar a informar os desenvolvedores de políticas públicas e as autoridades de saúde para melhor projetar estratégias de prevenção ao suicídio. Intervir nos determinantes sociais em saúde utilizando programas de transferência de renda pode ser importante para limitar as taxas de suicídio, que devem aumentar com a recessão econômica consequente à pandemia de covid-19 e à guerra na Ucrânia.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Pesquisadores, profissionais da área de saúde mental e gestores em saúde.

Referências

Machado DB, Pescarini JM, LFSC de A, Barreto ML. Austerity policies in Brazil may affect violence related outcomes. Ciência Saúde Coletiva. 2019;24:4385–94. pmid:31778489

Gunnell D, Appleby L, Arensman E, Hawton K, John A, Kapur N, et al. Suicide risk and prevention during the covid-19 pandemic. Lancet Psychiatry. 2020;7:468–71. pmid:32330430

Ridley MW, Rao G, Schilbach F, Patel VH. Poverty, Depression, and Anxiety: Causal Evidence and Mechanisms. Science. 2020.

Machado DB, Rasella D, Dos Santos DN. Impact of income inequality and other social determinants on suicide rate in Brazil. PLoS ONE. 2015;10:e0124934. pmid:25928359

Alves FJO, Machado DB, Barreto ML. Effect of the Brazilian cash transfer programme on suicide rates: a longitudinal analysis of the Brazilian municipalities. Soc Psychiatry Psychiatr Epidemiol. 2019;54:599–606. pmid:30456426

Daiane Borges Machado é pesquisadora da Harvard Medical School e também pesquisadora associada do CIDACS/Fiocruz. É psicóloga com mestrado e doutorado em epidemiologia e saúde da população. Publicou diversas contribuições científicas, incluindo um dos trabalhos mais citados na área no Brasil (Suicídio no Brasil de 2000 a 2012), que possui 245 citações até o momento. Ela já recebeu sete bolsas e financiamentos, um prêmio de mérito à pesquisa sobre suicídio e trabalhou como especialista em saúde mental para Organizações Não-Governamentais, incluindo a PAHO/Organização Mundial Da Saúde.

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeMudanças Climáticas FAPESPGEMAADRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUTMacroAmb