Como as artes brasileiras trataram da Amazônia

Marina Bedran

Tese

Virada amazônica: arte experimental, indianidade e ecologia política no Brasil

A Turn to Amazonia: Experimental Art, Indigeneity, and the Rise of Political Ecology in Brazil

autora

Marina Bedran

orientadores

Rachel Price e Pedro Meira Monteiro

Área e sub-área

Estudos latino-americanos, História da arte, Ecocrítica

Defendido em

Universidade de Princeton, Departamento de Espanhol e Português, em 27/08/2020

Link para o original

Desde o pós-guerra, boa parte dos intelectuais, artistas e escritores brasileiros adotou princípios modernizadores centrados no imaginário urbano e industrial, reproduzindo com frequência a retórica oficial do governo centrada na celebração e fomento do progresso e do desenvolvimento político e econômico. Durante a ditadura militar de 1964-85, a Amazônia tornou-se peça central do projeto de desenvolvimento do país, apoiado na colonização da região e projetos de infraestrutura, especialmente a construção de estradas.

A tese estuda a forma como artistas, escritores e cineastas criaram alternativas a esses projetos de modernização a partir do encontro com a Amazônia. Suas obras, que foram de certa forma ofuscadas por uma obsessão com a modernidade que engolfou tanto artistas quanto críticos, trazem questões relativas ao meio ambiente e às culturas indígenas que antecipam reavaliações mais recentes da modernidade e um interesse cada vez maior pela Amazônia em antropologia, arqueologia, história e estudos literários e culturais.

A tese remonta a um período que foi fundamental para moldar a ecologia e a imagem da Amazônia de hoje. A produção cultural analisada, que data de meados do século 20 até o início dos anos 1980, demonstra como os artistas se voltaram para a Amazônia como um recurso criativo que inspiraria experimentos estéticos e alternativas ao imaginário do desenvolvimento.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Por que, apesar da centralidade que a Amazônia teve para a economia e a política brasileira entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1980, boa parte da produção cultural brasileira privilegia outros lugares e questões? Esta pergunta ecoa a questão que o escritor indiano Amitav Ghosh explora em seu livro “The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable”, publicado em 2015: por que as artes, e sobretudo a literatura, reagiram às mudanças climáticas com um silêncio quase total, justamente no período em que as emissões de carbono escalavam a um nível sem precedentes, quando ambientalistas e cientistas já alertavam para os perigos de uma crise planetária? Ghosh problematiza a capacidade da arte contemporânea de responder aos desafios do presente e identifica na racionalidade moderna que informa a ciência e a arte feitas durante o Holoceno a causa desta discrepância e da idealização da natureza como algo estável e alheio. Isso é em grande medida também a causa do aquecimento global.

Então, a julgar pelos romances, contos, filmes e obras de arte produzidos em meados do século passado no Brasil, como saber que a Amazônia era tão central para o projeto de país e, cada vez mais, para o imaginário global? E que estéticas e epistemologias são preteridas neste apagamento? A partir desta questão inicial, uma série de perguntas que guiaram a pesquisa e a escrita da tese têm a ver com a produção mais marginal e experimental que se voltou para a Amazônia. Como ela pode contribuir para repensar o cânone moderno? Como complica celebrações da modernidade e do projeto de desenvolvimento que informam tanto os discursos oficiais como programas estéticos? Por fim, como pode nos ajudar a entender o presente?

Por que isso é relevante?

Hoje se sabe que a Amazônia tem um papel fundamental para a possibilidade de sobrevivência do mundo tal qual o conhecemos. Sabemos também que muito do que se acreditava em meados do século 20 – por exemplo, que os recursos naturais são infinitos ou que a cultura ocidental é superior às demais e seus valores incontornáveis – estava equivocado (e teve consequências nefastas). Prestar atenção a uma produção cultural que apontava para outros rumos ajuda a entender o momento atual de explosão de vozes e saberes vindos da Amazônia (mas não só) e também permite uma releitura do cânone latino-americano. Quer dizer, é possível recuperar e entender certas produções e temas que receberam menos atenção. Por fim, mas não menos importante, isso nos lembra da relevância da arte, da literatura e da cultura num momento em que as humanidades são cada vez mais jogadas de escanteio, quando não atacadas diretamente. Este é certamente o caso no Brasil sob Bolsonaro.

Resumo da pesquisa

A primeira parte da pesquisa baseou-se num estudo da extensa produção literária, visual e cinematográfica do período, assim como textos históricos sobre os projetos de desenvolvimento da Amazônia e a vibrante produção contemporânea de estudos amazônicos. Então, iniciei uma pesquisa em arquivos para tentar repensar a produção cultural sobre a Amazônia e sua recepção a partir de fontes primárias. Um deles foi o Fundo Flávio de Carvalho no Cedae (Centro de Documentação Alexandre Eulálio), da Unicamp (Universidade de Campinas), onde estão seus escritos, fotografias e filmes gravados na Amazônia. Este material, que fez parte de sua “Experiência n. 4”, é até hoje pouco conhecido. Pesquisei também os acervos e hemerotecas da Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, e da Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, o Arquivo Nacional, em Brasília, e também o MIS (Museu da Imagem e do Som) e a Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Em paralelo, realizei entrevistas com artistas e cineastas, principalmente Jorge Bodanzky e Cildo Meireles, cujos trabalhos eu analiso na tese.

Quais foram as conclusões?

Em primeiro lugar, a pesquisa me mostrou que o interesse dos artistas pela Amazônia à época é menos marginal do que parecia. Figuras como Flávio de Carvalho, Cildo Meireles e Lygia Pape, cujos trabalhos estão entre os mais importantes da arte moderna e contemporânea brasileira, se interessaram pela Amazônia, e alguns inclusive estiveram na região. Esse encontro deixou marcas nas suas obras, além de abri-las para temas relacionados ao meio-ambiente e à indianidade que não apenas questionam a unanimidade do moderno e a celebração do desenvolvimento, como antecipam discussões mais contemporâneas a este respeito.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Estudiosos de arte e cultura brasileira e latino-americana. A pesquisa também poderia dialogar com educadores, formadores de opinião e pessoas envolvidas com políticas públicas, porque busca entender diferentes narrativas sobre a Amazônia, assim como a forma em que influenciaram – e ainda podem influenciar – os destinos da floresta e de populações indígenas.

Referências

Acker, Antoine. Volkswagen in the Amazon: The Tragedy of Global Development in Modern Brazil. Cambridge: Cambridge University Press, 2017.

Carreira, Evandro. Recado amazônico. Brasília: Senado Federal Centro Gráfico, 1975.

Guattari, Félix. The Three Ecologies. Translated by Ian Pindar and Paul Sutton. London: Athlone Press, 2000.

Lutzenberger, José A. Fim do futuro? Manifesto ecológico brasileiro. Porto Alegre: Editora Movimento, 1977.

Viveiros de Castro, Eduardo, e Déborah Danowski. Há mundo por vir?Ensaios sobre os medos e os fins. ISA, 2015.

A imagem que ilustra esse Acadêmico foi capturada por Jorge Bodanzky, durante as filmagens do documentário Jari, na Amazônia, em 1979, e faz parte do acervo de Jorge Bodanzky/Instituto Moreira Salles.

Marina Bedran é professora assistente de literaturas e culturas lusófonas na Johns Hopkins University. É doutora em espanhol e português pela Universidade de Princeton, tem mestrado em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo e graduação em ciências sociais pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Sua pesquisa é interdisciplinar, combinando teoria literária, cultura visual, estudos de mídia e ecocrítica, e foca no Brasil e suas relações com a América Latina e o mundo lusófono.

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