Como a Guerra Fria nos ajuda a entender a obra de Florestan Fernandes

Gustavo Mesquita

Tese

Florestan Fernandes e o antirracismo nos Estados Unidos e no Brasil

autor

Gustavo Mesquita

orientadora

Elizabeth Cancelli

Área e sub-área

História, História Social

Defendido em

Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas em 20/04/2017

Link para o original

Figura central nas ciências sociais brasileiras, Florestan Fernandes já foi tema de diversos trabalhos a respeito de sua obra e seus efeitos. Este trabalho esmiúça a obra do autor à luz do contexto das ciências sociais durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Nos Estados Unidos, havia um movimento em direção ao desenvolvimento de novas teses sobre o racismo e à criação de uma agenda antirracista, alinhada à defesa do aprofundamento da democracia e dos direitos humanos.

A partir de documentação internacional – como correspondência pessoal com professores e estudantes, boletins institucionais de universidades e organizações internacionais, artigos acadêmicos e relatórios secretos –, o trabalho revela como se deu o desenvolvimento das teses de Florestan em diálogo com paradigmas teóricos das ciências sociais americanas. A pesquisa indica que livros do sociólogo foram escritos no momento em que as ciências sociais respondiam, numa espécie de fórum internacional promovido pelos Estados Unidos através da Unesco, aos problemas de marginalização e exclusão de grupos raciais oprimidos ao longo da história.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Essa pesquisa oferece uma interpretação histórica à questão de como se deu a mudança de visão de elites do pensamento brasileiro sobre o sentido de nossas relações raciais e de que maneira essas afetam a democracia representativa moderna. Destaca, no pensamento do sociólogo Florestan Fernandes, conclusões divergentes em torno das relações entre brancos, negros e mestiços, marcadas não pela harmonia, mas pelo mascaramento do racismo. O racismo velado passa a ser entendido como limitação da democracia: a perpetuação de um padrão de exclusão política e social da população negra. Como foi possível essa compreensão do fenômeno quando a valorização da mestiçagem era um fundamento da nação brasileira?

Por que isso é relevante?

A obra de Florestan Fernandes sobre relações raciais ganha um novo sentido se for lida como expressão de seu tempo: a Guerra Fria e seus embates político-ideológicos. Essa nova luz nos permite entender de forma mais precisa uma ideia muito recorrente nos estudos históricos, sociológicos e políticos. Trata-se da ideia de dilema brasileiro. Assim como a versão aparentada do dilema americano, do “An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy”, livro publicado por Gunnar Myrdal em 1944, essa ideia significa que o modelo competitivo de democracia liberal enfrenta sérias limitações por causa do círculo vicioso e destrutivo das desvantagens cumulativas da população negra. Para ambos os autores, é preciso que o círculo vicioso seja interrompido para que a democracia inclua a todos e funcione verdadeiramente, com substancial igualdade política e de oportunidades, e sem distinções de raça, cor ou classe social.

Uma nova luz sobre as ligações entre diagnósticos da exclusão social nos convida ao debate e reflexão em torno do capitalismo, do socialismo e das possibilidades de mudança e mesmo transformação da sociedade contemporânea. A relevância atual da ideia de dilema da democracia liberal se resume no discurso de várias organizações do movimento negro: “Enquanto houver racismo, não haverá democracia”. Ecos e reverberações de um pensamento marcado pelo horizonte normativo do universalismo, da equidade e da inclusão democrática.

Resumo da pesquisa

Investigo nessa pesquisa a formação do pensamento de Florestan Fernandes em bases internacionais, nos anos de batalha da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o que tivera forte inspiração de cânones do interacionismo simbólico da Escola de Chicago e do estrutural-funcionalismo da Escola de Harvard. Mostro que seu contato com obras e professores desses paradigmas teóricos, muito além do marxismo e do socialismo, começou assim que iniciara sua formação em ciências sociais na Universidade de São Paulo. O trabalho de fundações privadas e agências de política externa dos Estados Unidos foi fundamental para o desenvolvimento das ciências sociais em São Paulo, do que Florestan, então um jovem cientista social, se beneficiou ao travar contato com obras e professores estrangeiros, a maioria advindos de universidades dos Estados Unidos e da França.

Da conhecida pesquisa sobre relações raciais em São Paulo, patrocinada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), que Fernandes coordenou sob a batuta de Roger Bastide, emerge o diagnóstico interacionista do preconceito velado, o de que os brasileiros têm preconceito de ter preconceito. A discriminação racial é identificada como um problema estrutural da sociedade brasileira, o que completa o diagnóstico do racismo de Florestan. Minha pesquisa compara esta com teses americanas de relações raciais e aponta para um produtivo diálogo, em que Fernandes analisa as especificidades do racismo brasileiro.

Confronto a ideia de dilema da democracia no Brasil com sua versão americana, pensada pelo economista e sociólogo social-democrata Gunnar Myrdal. Lendo-as de forma conjunta, entendemos que a discriminação racial produz desvantagens cumulativas e estruturais nos dois países. É a esse problema que a agenda antirracista da Guerra Fria buscava responder internacionalmente.

Quais foram as conclusões?

A principal conclusão dessa pesquisa é que Florestan Fernandes mudou o entendimento das relações raciais, explicando a grande barreira que impõem ao funcionamento da democracia representativa moderna, a partir de sua participação nas disputas de hegemonia entre capitalismo e socialismo e na agenda internacional da Guerra Fria para o antirracismo. Com liderança dos Estados Unidos, essa agenda visava à formulação de políticas de antirracismo, ou seja, políticas que promovessem a integração do negro na sociedade de classes em países politicamente liberais e democráticos.

Os livros “Brancos e negros em São Paulo” e “A integração do negro na sociedade de classes” foram escritos no momento em que as ciências sociais respondiam vigorosamente, numa espécie de fórum internacional promovido pelos Estados Unidos através da Unesco, aos problemas de marginalização e exclusão de grupos raciais oprimidos ao longo da história. Disputas político-ideológicas da Guerra Fria acirravam a produção de teorias, métodos, técnicas e interpretações políticas e sociológicas.

No terreno das ideologias, a obra de Florestan Fernandes dos anos 1950 e 1960 não pode ser identificada ao socialismo leninista, mas à confluência do liberalismo com a democracia, ou seja, responde a projetos de democratização da sociedade e da política em bases liberais e competitivas. A sua visão de igualdade entre brancos e negros numa democracia mais profunda, porque mais ajustada à competição, vai ao encontro de tais projetos.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Os que têm interesse e curiosidade de saber mais sobre a história das ciências sociais, e principalmente da sociologia a partir da Segunda Guerra Mundial, em suas relações com a questão democrática e os direitos humanos. Terão especial interesse as pessoas que queiram ler sobre o desenvolvimento das ciências sociais no Brasil e nos Estados Unidos, o papel de fundações e agências norte-americanas, as redes internacionais de cientistas sociais e o modo de vinculação da discriminação racial da população negra aos problemas de exclusão numa sociedade de classes, vista como pilar da democracia.

A tese de doutorado pode interessar a estudantes, professores, pesquisadores, líderes políticos e ativistas, gestores públicos e de organizações não-governamentais, entre outros públicos leitores. Os resultados da tese estão reunidos no livro “Guerra Fria e Brasil: para a agenda de integração do negro na sociedade de classes”, escrito em coautoria com Elizabeth Cancelli e Wanderson Chaves e publicado com apoio da Fapesp.

Referências

Bastide, Roger & Fernandes, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. 4ª ed. rev. São Paulo: Global, 2008.

Cancelli, Elizabeth; Mesquita, Gustavo; Chaves, Wanderson. Guerra Fria e Brasil: para a agenda de integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Alameda, 2020.

Fernandes, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. 5ª ed. São Paulo: Globo, 2008.

Hazard Jr., Anthony Q. Postwar Anti-racism: The United States, UNESCO, and “Race”, 1945-1968. New York: Palgrave Macmillan, 2012.

Myrdal, Gunnar. An American Dilemma: The Negro Problem and Modern Democracy. London and New York: Routledge, 1996.

Gustavo Mesquita é pós-doutorando do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e doutor em história social pela Universidade de São Paulo. Atua como pesquisador colaborador do Afro/CEBRAP - Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial, do Laboratório de Pensamento Social da Fundação Getúlio Vargas e do Grupo de Estudos sobre a Guerra Fria da Universidade de São Paulo. É autor de artigos e livros, entre eles “Gilberto Freyre e o Estado Novo” (Global, 2018), “Guerra Fria e Brasil” (Alameda, 2020) e “Foundations, U.S. Foreign Policy, and Anti-Racism in Brazil” (Routledge, no prelo).

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