Regatões: crédito e confiança em uma economia sustentável na Amazônia

Vinícius de Aguiar Furuie

Tese

Argonautas da Amazônia: comércio e direitos nos rios da Bacia do Xingu

Argonauts of the Amazon: River Trade and Rights in the Xingu Basin

autor

Vinícius de Aguiar Furuie

orientadores

João Biehl e Carolyn Rouse

Área e sub-área

Meio ambiente, Economia ambiental

Defendido em

Universidade de Princeton, Departamento de Antropologia em 3/09/2020

Link para o original

No debate público nacional, a conservação ambiental, o respeito aos direitos humanos e o desenvolvimento econômico costumam aparecer como interesses incompatíveis – uma escolha entre destruição ou pobreza. Essa tese, defendida no Departamento de Antropologia da Universidade de Princeton, demonstra como a economia ribeirinha amazônica supera esse falso dilema criando valor econômico a partir de bens sociais e naturais enquanto fortalece laços comunitários e promove a biodiversidade.

Utilizando uma perspectiva etnográfica e histórica, o trabalho investigou o comércio fluvial da bacia do médio Xingu e as trocas entre povos ribeirinhos e comerciantes locais conhecidos como regatões.

Apesar da construção de estradas e barragens ter afetado a região, os participantes do comércio fluvial têm conseguido manter a circulação de mercadorias. Contudo, as mudanças climáticas, o desmatamento da bacia do Xingu e as dificuldades de acesso a financiamento ameaçam a economia local e, com ela, um modelo nativo de uma verdadeira economia sustentável.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa analisa etnograficamente o comércio fluvial da bacia do médio Xingu para refletir sobre os laços morais e históricos que sustentam as trocas entre povos ribeirinhos e comerciantes locais conhecidos como “regatões”. O trabalho investiga como se formou e que tipos de relações informam esse comércio, e como a construção de rodovias e a barragem de Belo Monte estão afetando a economia local.

Por que isso é relevante?

A Amazônia é a maior floresta equatorial do mundo e estima-se que abriga no mínimo 10% da biodiversidade existente. Sabe-se também que a floresta exerce um importante papel de regular o clima do planeta e gerar chuvas para o resto do continente sul-americano. Em paralelo, mais de 20 milhões de pessoas vivem na porção brasileira da floresta e a região Norte, onde se encontra a maior parte do bioma, lidera o ranking de pobreza nacional. Torna-se assim urgente encontrar maneiras de proteger a floresta e garantir condições de vida para a população amazônica.

Os projetos de desenvolvimento econômico adotados pelo governo brasileiro a partir da segunda metade do século 20 foram ancorados em investimentos públicos na abertura de rodovias e construção de represas em rios amazônicos. Esse modelo causou imensa destruição ambiental, com a perda de cerca de 20% da cobertura vegetal em menos de meio século, e deslanchou uma onda de violência contra povos indígenas, ribeirinhos e pequenos proprietários de terras.

A atual polarização política tende a colocar, de um lado, a conservação ambiental e respeito aos direitos humanos e, do outro, o desenvolvimento econômico, enquadrando o problema como uma escolha entre destruição ou pobreza. Contudo, é possível proteger os bens naturais e sociais da floresta e dinamizar a economia ao mesmo tempo. Comunidades amazônicas se sustentaram durante séculos coletando produtos como borracha, castanha do Pará e resinas vegetais trocando-as por mercadorias com regatões, sem causar danos ao meio ambiente. O arcabouço de práticas e conhecimentos que fazem parte dessa economia é um patrimônio para a criação do futuro da região amazônica.

Resumo da pesquisa

O estudo embasou-se em 20 meses de pesquisa de campo com regatões que trabalham ao longo dos rios Xingu, Iriri e Riozinho do Anfrísio. Navegando nas pequenas embarcações, com tripulação por vezes constituída apenas pelo próprio comerciante, foi possível observar como eles negociam dívidas, resolvem disputas e firmam compromissos com os moradores das margens do rio, o chamado “beiradão”. Em paralelo, investigou-se o arquivo da pesquisadora e viajante Emilia Snethlage no Museu Etnográfico de Berlim, contendo os primeiros relatos de uma cientista europeia sobre a região, além de objetos coletados para a coleção etnográfica do museu. A visão estrangeira complementa a história local de ascensão e queda da economia da borracha cuja memória oral foi acessada por meio de uma parceria com jovens adultos que receberam treinamento em pesquisa. Com o apoio do Instituto Socioambiental, os jovens moradores do beiradão produziram seus próprios relatos do sistema de crédito e escambo conhecido por aviamento que sustentou os ciclos da economia amazônica. Os trabalhos foram apresentados em um seminário realizado na cidade de Altamira, PA e estão sendo compilados para publicação.

Quais foram as conclusões?

A perspectiva etnográfica e histórica adotada pela pesquisa enfatiza a continuidade das práticas econômicas ao longo dos rios amazônicos. Embora a construção de estradas e barragens na região tenha afetado a temporalidade dos compromissos entre ribeirinhos e regatões, os participantes do comércio fluvial têm conseguido, em grande parte, manter a infraestrutura moral e social necessária para a circulação de mercadorias. No entanto, as maiores ameaças para a economia local são riscos ambientais associados às mudanças climáticas e ao desmatamento da bacia do Xingu, assim como dificuldades de acesso a financiamento. Sem as devidas condições, a economia ribeirinha corre o risco de entrar em colapso, abrindo caminho para grileiros e madeireiros tomarem controle da terra.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

A pesquisa busca informar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável da economia amazônica. Ela complementa propostas focadas no uso de tecnologias para a valorização de conhecimentos locais e tradicionais sobre a biodiversidade amazônica (ex. Nobre e Nobre 2018). Para ir além da extração de recursos e conhecimentos tradicionais, é necessário que novos modelos econômicos partam das relações já existentes em uma comunidade econômica, ou seja, é preciso incorporar as formas locais de trocas, crédito e confiança às políticas públicas e projetos de desenvolvimento sustentável.

Referências

Alarcon, Daniela e Torres, Mauricio. 2014. Não tem essa lei no mundo, rapaz! A Estação Ecológica da Terra do Meio e a resistência dos beiradeiros do alto rio Iriri. Altamira/São Paulo: Associação de Moradores da Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio e Instituto Socioambiental.

Comissão Nacional da Verdade. 2014. “Violações de direitos humanos dos povos indígenas”. Relatório: textos temáticos (Relatório da Comissão Nacional da Verdade, v.2). Brasília: CNV.

Kopenawa, Davi e Bruce Albert. 2010. A queda do céu. São Paulo: Companhia das Letras.

Nobre, Antônio Donato. 2014. O Futuro Climático da Amazônia: relatório de avaliação científica. São José dos Campos: CCST-INPE.

Nobre, Ismail e Carlos Nobre. 2018. “The Amazonia Third Way Initiative: The Role of Technology to Unveil the Potential of a Novel Tropical Biodiversity-Based Economy” em Land Use: Assessing the Past, Envisioning the Future, editado por Luis Loures. Londres: IntechOpen.

Vinícius de Aguiar Furuie é antropólogo e pesquisa o comércio entre as populações ribeirinhas afetadas pelas mudanças climáticas e por projetos de infraestrutura em grande escala nos rios amazônicos. Graduado em jornalismo pela Universidade de São Paulo, é mestre em estudos culturais pela Universidade de Tóquio e PhD em antropologia pela Universidade de Princeton. Atualmente, realiza pós-doutorado no Center for the Environment da Universidade de Harvard, onde pesquisa a importância das categorias locais de troca moral para o desenho de políticas públicas e o impacto da construção de barragens nas populações urbanas amazônicas.

Parceiros

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