Panoramas e desafios da eficiência energética na indústria

Amanda Schutze e Sara Brolhato

Paper

Energia e a má alocação dos recursos: evidência para o Brasil

Energy and Misallocation: Evidence From Brazil

autores

Juliano Assunção, Amanda Schutze e Sara Brolhato

Área e sub-área

Economia, Organização industrial

Publicado em

Climate Policy Initiative em 28/09/2018

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O Brasil não teve o mesmo sucesso que outras nações na promoção da eficiência energética. Apesar da grande oportunidade de estimular o crescimento econômico e reduzir as emissões de gases de efeito estufa através do investimento em eficiência energética, até o momento, o país pouco avançou no crescimento sustentável, principalmente na indústria. Além disso, pouco se sabe sobre a existência de relação entre a eficiência energética e a eficiência produtiva.

Pesquisadores do CPI/PUC-Rio (Climate Policy Initiative/Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) demonstram em pesquisa, justamente, que a eficiência energética e a eficiência produtiva da indústria brasileira estão intimamente relacionadas. Nesse sentido, os desafios na promoção da eficiência energética se alinham a questões mais amplas em relação à produtividade setorial. Além disso, a pesquisa mostra que a realocação de recursos (capital, trabalho, energia) entre as firmas resultaria em ganhos de produção agregados substanciais.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Na indústria brasileira, existe eficiência na alocação do recurso energia entre as firmas, ou seja, as firmas mais eficientes têm maior participação de mercado? De que maneira a eficiência da alocação energética está relacionada à produtividade das firmas na indústria brasileira e quais são seus efeitos sobre o produto agregado?

Outros estudos recentes revelaram um alto grau de variação nos níveis de eficiência energética entre as firmas de um mesmo setor industrial, o que poderia ser associado aos baixos investimentos em eficiência energética realizados pelas empresas industriais. Nesse caso, há um espaço considerável para melhorias nos níveis de eficiência energética, reduzindo o consumo agregado de energia e as emissões associadas à geração e uso de energia.

A literatura econômica mostra que os insumos produtivos adotados pela empresa são importantes para explicar a produtividade, sendo assim, os diferentes níveis de produtividade entre firmas de uma mesma indústria pode refletir a má alocação de recursos. Uma implicação importante deste resultado é que ganhos de produtividade agregados podem ser obtidos pela realocação de recursos entre as empresas. Portanto, a dispersão dos níveis de eficiência energética tem outra implicação importante, uma vez que potencialmente reflete uma aplicação ineficiente do uso de energia entre as empresas. Desta forma, a realocação de recursos dentro das indústrias pode levar a ganhos ambientais e econômicos agregados.

Por que isso é relevante?

O consumo racional de eletricidade é um dos caminhos para o desenvolvimento sustentável do Brasil nos próximos anos. No caso da indústria, a eficiência energética consiste em manter – ou até aumentar – os níveis de produção ao mesmo tempo em que diminui o consumo de energia. A redução do consumo de eletricidade tem o potencial de estimular a produtividade e a competição das firmas, além de atenuar as externalidades ambientais negativas (como a emissão de gases de efeito estufa) relacionadas à sua produção.

Apesar da preocupação do governo brasileiro em promover a eficiência energética, os avanços obtidos no país em comparação ao resto do mundo mostram que ainda há um longo caminho para se alcançar níveis ótimos de uso da energia. Como apresentado pelo Conselho Americano para uma Economia Energeticamente Eficiente, o Brasil encontra-se na 20ª posição em um ranking de 25 países, que mais consomem energia no mundo, em relação às suas políticas e esforços para promoção da eficiência energética (ACEEE, 2018).

As políticas e incentivos financeiros nacionais para promover a eficiência energética têm como foco principal o consumidor residencial. Ao invés de adotar um esforço contínuo para promover um melhor uso de energia, as ações do Estado respondem principalmente a choques negativos de abastecimento. Como resultado, as empresas têm pouco incentivo para investir em tecnologias mais eficientes, mesmo que sejam as responsáveis pela maior parte do consumo de eletricidade do país.

Ao compreender a alocação de eficiência energética das empresas, torna-se possível desenhar políticas que apontem para a melhora da eficiência energética agregada, sem necessariamente aumentar os níveis de tecnologia das empresas individuais.

Resumo da pesquisa

Esta pesquisa analisa a dinâmica do setor industrial brasileiro em relação à eficiência energética e à eficiência produtiva.

A pesquisa desenvolveu indicadores para avaliar a eficiência na utilização de recursos e o potencial de ganhos de produtividade. Para isso, o trabalho tem como base metodológica estudos econômicos recentes, que caracterizam como a alocação eficiente de recursos (capital, trabalho, eletricidade, etc.) afeta a produtividade.

A análise quantitativa utilizou dados anuais ao nível da firma, abrangendo 106 setores industriais entre 2007 e 2015. Os principais dados foram retirados da PIA (Pesquisa Industrial Anual) do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cuja base de dados é composta por cerca de 30 mil empresas por ano.

Na primeira parte do trabalho, as medidas de eficiência energética e produtiva foram separadas em dois fatores: a eficiência na utilização de recursos dentro da firma e a eficiência na alocação de recursos entre as firmas do mesmo setor industrial. Mudanças nas condições do ambiente econômico (tecnologia, financiamento, instituições, políticas públicas) podem promover maior eficiência por meio da melhoria na utilização de recursos dentro das firmas ou por meio da ampliação da participação de mercado das empresas mais eficientes.

Na segunda parte, foram calculados os ganhos de produtividade agregados advindos da realocação dos insumos produtivos (capital, trabalho e eletricidade) entre as firmas. A pesquisa também analisou a importância relativa de cada insumo no ganho total de produtividade.

Quais foram as conclusões?

Os resultados da pesquisa não apenas evidenciam o potencial econômico da agenda de eficiência energética no Brasil como também ilustram alguns de seus desafios. Primeiro, há uma relação positiva entre eficiência energética e produtiva na indústria brasileira, ou seja, os desafios de promoção de eficiência energética estão alinhados a questões mais amplas sobre a produtividade. Desta forma, os esforços para melhorar a eficiência energética estão relacionados às próprias políticas voltadas para a melhoria da produtividade agregada.

Segundo, no período analisado, a má alocação de recursos entre firmas aumentou e foi o principal motivo que impediu uma melhora da eficiência produtiva e energética no país. Durante este período, os recursos foram realocados das empresas mais eficientes, em termos de produtividade e uso de energia, para empresas com níveis de eficiência mais baixos. A existência de uma má alocação de energia implica que os ganhos potenciais com a melhoria da alocação de recursos na economia não só aumentariam a produtividade agregada, mas também elevariam o bem-estar ao reduzir o uso de energia e as emissões de gases do efeito estufa.

Por fim, dada uma realocação dos insumos produtivos entre firmas, ou seja, do capital, trabalho e eletricidade, a PTF (produtividade total dos fatores) do Brasil poderia alcançar ganhos entre 78% e 96%. No entanto, os ganhos relativos da realocação de capital são maiores do que os ganhos da realocação de eletricidade entre as firmas. Dessa forma, para que a agenda de eficiência energética, que tem benefícios sociais mais amplos que benefícios privados, seja efetiva, é necessário um trabalho de convencimento e estímulo ao setor.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Os resultados dessa pesquisa são relevantes por demonstrarem ser possível conciliar metas ambientais e crescimento econômico.

Como os esforços para aprimorar a eficiência energética estão relacionados às políticas voltadas para a melhoria da produtividade agregada, é fundamental que formuladores, gestores e executores de políticas industriais compreendam os efeitos dessas políticas na eficiência energética das firmas e, dessa forma, fortaleçam as iniciativas de estímulo ao uso racional de energia na indústria.

É também recomendável que os formuladores, gestores e executores de políticas energéticas compreendam o ambiente econômico em que as ações, programas e políticas de eficiência energética estão inseridas e como isso afeta o alcance das metas energéticas estipuladas. É necessário que as políticas energéticas e industriais estejam alinhadas para o avanço e o desenvolvimento econômico do Brasil.

Para que a indústria brasileira utilize o insumo energético de forma racional, é importante que o tema de eficiência energética seja amplamente divulgado na sociedade civil, conferindo-lhe a possibilidade de cobrar ações das empresas e do setor público. A melhoria da alocação de recursos na economia não só aumentaria a produtividade agregada, mas também o bem-estar ao reduzir o uso de energia e as emissões de gases do efeito estufa.

Referências

Cherniwchan, J., Copeland, B. R., and Taylor, M. S. (2017). Trade and the environment: New methods, measurements, and results. Annual Review of Economics, 9(1):59–85.

Hsieh, C.-T. and Klenow, P. J. (2009). Misallocation and manufacturing TFP in China and India. The Quarterly Journal of Economics, 124(4):1403–1448.

Olley, G. S. and Pakes, A. (1996). The dynamics of productivity in the telecommunications equipment industry. Econometrica, 64(6):1263–1297.

Restuccia, D. and Rogerson, R. (2008). Policy distortions and aggregate productivity with heterogeneous establishments. Review of Economic dynamics, 11(4):707–720.

Schutze, A., Holz, R., Assunção, J. (2020). O Papel Da Zona Franca de Manaus Na Eficiência Do Setor de Ar-Condicionado. Rio de Janeiro: Climate Policy Initiative. Disponível aqui.

Amanda Schutze é coordenadora de avaliação de política pública com foco em energia no CPI Brasil e leciona sobre economia do setor público na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro). No CPI pesquisa como o Brasil pode aumentar a sua matriz energética, ajudando o país a cumprir suas metas climáticas. É doutora em economia pela PUC-Rio, mestre pela EPGE-FGV (Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas) do Rio de Janeiro e bacharel em economia também pela PUC-Rio.

Sara Brolhato é consultora no Banco Mundial, atuando na área de produtividade, inovação e dinâmica de firmas. É doutora em economia pela PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e bacharel em economia pelo Insper.

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