Os desafios da repatriação de arquivos digitais às comunidades indígenas

Maria Luísa Lucas

Paper

Digitalização, retorno e circulação de gravações sonoras entre os Bora na Amazônia colombiana

Digitization, return, and circulation of sound recordings among the Bora in the Colombian Amazon

autora

Maria Luísa Lucas

Área e sub-área

Antropologia, Estudos amazônicos, Humanidades digitais

Publicado em

Journal de la Société des Américanistes em 15/12/2020

Link para o original

A restituição ou repatriação de artefatos conservados em reservas de museus é um debate que se instaurou na comunidade internacional desde pelo menos os anos 1980. Enquanto nos Estados Unidos a discussão, à época, passou pela denúncia da negligência estatal em relação aos restos humanos e aos objetos considerados “sagrados” (Native American Graves Protection and Repatriation Act, 1990), a Europa tem visto crescer, nos últimos anos, as demandas de restituição de objetos coletados no contexto de suas antigas missões coloniais. Nesse sentido, países como França, Alemanha e Reino Unido têm sido obrigados a responder tais requerimentos por meio da instituição de grupos de trabalho e de pesquisa voltados ao estudo sobre a procedência dos artefatos e sobre os dispositivos jurídicos e diplomáticos que podem viabilizar o retorno das peças. Infelizmente, uma morosidade conveniente ainda faz com que tudo avance a passos muito mais lentos do que a urgência da questão exige.

Paralelamente, contudo, iniciativas mais difusas e silenciosas de restituição de arquivos e de imagens começaram a fazer parte das relações entre as comunidades indígenas e antropólogos, linguistas, etnomusicólogos, arqueólogos e museólogos ao redor do mundo. Trata-se, no geral, de arquivos de campo acumulados por esses mesmos pesquisadores e antigos acervos depositados em museus e nas universidades. Dentre os últimos, abundam fotos, registros sonoros, filmes, ilustrações e textos produzidos por agentes coloniais, exploradores e viajantes entre a segunda metade do século 19 e a primeira metade do século 20. A ideia desse artigo, portanto, é descrever passo a passo um processo contemporâneo de repatriação de registros sonoros a uma comunidade indígena amazônica.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Esse trabalho busca entender qual a especificidade da repatriação de arquivos digitais a comunidades indígenas e, ainda, se registros sonoros são em alguma medida diferentes de outros acervos. A partir de uma experiência concreta e algo experimental, o trabalho se questiona também sobre o impacto do retorno de registros sonoros e sobre quais as diretrizes que podem ou devem ser formuladas para a realização desse tipo de atividade.

Nesse sentido, no desenrolar do processo emergiram questões sobre como conceber práticas de acesso a arquivos digitais restituídos e sobre os tipos de transformações acarretadas pelo avanço tecnológico de maneira mais geral, como no caso dos variados suportes e dispositivos usados para o registro e a reprodução de arquivos sonoros (fitas magnéticas, cartões USB, bases de dados online, etc.).

Por que isso é relevante?

O tema da repatriação sonora não é novo, como podemos notar na robusta publicação do “Oxford Handbook of Musical Repatriation” (Gunderson, Lancefield & Woods, 2019). Infelizmente, ele ainda costuma ser mais recorrentemente abordado por etnomusicólogos e linguistas que atuam em comunidades fora da América do Sul. Quando nos voltamos à repatriação digital (prática geralmente relacionada às restituições sonoras contemporâneas), o cenário não é muito diferente. Exceções à regra são, por exemplo, a coletânea (Vapnarsky, 2020) – da qual o próprio artigo apresentado aqui é parte – e algumas reflexões mais recentes sobre a construção de bases de dados colaborativas.

Porém, apesar da ausência de publicações sobre o tema, conceber novas formas de conferir acesso aos arquivos e acervos de museus, universidades e coleções privadas é um passo fundamental para viabilizar um futuro no qual a relação entre essas instituições e os povos indígenas seja, ao mesmo tempo, mais simétrica e mais afinada com o crescente acesso dos povos tradicionais às tecnologias digitais. Além disso, atividades de repatriação virtual podem ser verdadeiros laboratórios práticos para que comunidades indígenas, pesquisadores e instituições culturais possam debater sobre – e imaginar soluções para – os dilemas das políticas de open access e das diferentes formas de autoria, direitos de propriedade e de reprodução.

Resumo da pesquisa

Esse trabalho é uma descrição detalhada e etnográfica do processo de retorno de cerca de 25 horas de registros sonoros às comunidades Bora no médio rio Igara Paraná, na Amazônia ocidental. Esses registros, gravados entre 1969 e 1974 pela antropóloga franco-suíça Mireille Guyot (ver Guyot, 1969), contém, em sua maioria, canções rituais e de cura e narrativas míticas. Os originais desse material (26 fitas magnéticas de rolo) encontram-se atualmente na Universidade Paris Nanterre. A maior parte da atividade de repatriação foi financiada pelo CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica, França) e desenvolvida ao mesmo tempo em que eu realizava um longo trabalho de campo para minha pesquisa de doutorado (Lucas, 2019).

No trabalho em foco aqui, apresento o processo de digitalização do material na França, assim como a recepção, os usos e algumas consequências do retorno dos arquivos. Desde o primeiro contato com o material, estive especialmente atenta aos mais variados tipos de reações de meus interlocutores. Me interessei, além disso, em pensar sobre os encontros e os desencontros das diferentes expectativas em jogo: a dos Bora, as minhas e as da universidade que detém o arquivo.

Quais foram as conclusões?

Ao ouvir os registros junto a meus interlocutores e debater com eles sobre o conteúdo e as possíveis formas de divulgação do material, tornou-se claro para nós que os arquivos sonoros, ao retornarem a suas comunidades de origem, acionam um tipo bem especial de presença daqueles cujas vozes foram registradas. De alguma maneira, as canções e narrativas atuaram como “imagens animadas” que trouxeram ao tempo presente pessoas e redes de transmissão que já não mais existiam. Nesse sentido, a tônica de nossas discussões foi encontrar a boa medida entre, de um lado, o perigo da “volta” desses antepassados e dessas relações e, de outro, o desejo de recuperar conteúdos hoje dominados por poucos.

Meus interlocutores resolveram, coletivamente, que os registros feitos por Mireille Guyot deveriam permanecer com acesso restrito a qualquer pessoa não-autorizada – o que passou a valer, inclusive, para os Bora que vivem fora de suas comunidades. Busco argumentar, no texto, que a motivação para tal decisão foi a preocupação que meus interlocutores tinham em não enfraquecer ou desativar redes de relações de transmissão que são fundamentais para a existência das narrativas míticas e das canções rituais e de cura. Logo, refletindo sobre temas como memória, aprendizado, adoecimento, cura e xamanismo, conclui-se que, ao contrário do que o senso comum ocidental poderia imaginar, a entrada de dispositivos eletrônicos (celulares, computadores, cartões de memória, etc.) não ameaça a existência dos conteúdos registrados. A questão, na verdade, era simplesmente debater sobre como usar esses equipamentos da melhor maneira possível.

Assim, uma das conclusões do texto que pode interessar a pessoas que trabalham em outras regiões e contextos é: as atividades de repatriação digital ganham muito quando se baseiam em pesquisas etnográficas detalhadas – e aqui a antropologia, pelos métodos de trabalho que utiliza, pode ser uma grande aliada. Só conhecendo com relativa clareza os desafios em jogo em cada caso é que pesquisadores, museus e universidades podem se afastar da ideia de que entregar esse tipo de registro às comunidades é algo sempre benéfico ou livre de problemas. Além disso, abrir-se ao impacto que essas discussões podem ter nas práticas museológicas e de trabalho de campo seria uma oportunidade de ir muito além da ideia de que tais atividades servem apenas para enriquecer com metadados os repositórios dessas instituições ou para contribuir com o “fortalecimento cultural” de povos indígenas ou outras comunidades tradicionais.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

A publicação do artigo em inglês teve como um dos objetivos a abertura de um canal de comunicação com acadêmicos e instituições internacionais, dada a baixa representatividade de trabalhos sobre o tema na América do Sul. Assim, esse texto deve interessar antropólogos, museólogos e outros pesquisadores que trabalham com comunidades indígenas ou com o tema do retorno ou repatriação digital de arquivos nos mais diferentes cenários. Espera-se que trabalhos desse tipo sirvam, ainda, para que as instituições culturais pensem criticamente suas práticas de inventário, com especial atenção às condições de acesso às bases de dados e às considerações sobre autoria.

Esse texto pode, ainda, incentivar que novos pesquisadores considerem a possibilidade de propor atividades desse tipo junto às comunidades com quem trabalham. Mesmo que algumas instituições brasileiras (como o Museu do Índio, no Rio de Janeiro) desenvolvam esse tipo de iniciativa há algum tempo, ainda existe um grande volume de arquivos sonoros, fílmicos e fotográficos dispersos em bibliotecas, museus, universidades e fundos privados de pesquisa no Brasil e no exterior.

Finalmente, espera-se que o impacto final e mais importante de trabalhos como esse seja uma mudança prática no acesso que os povos indígenas e outras comunidades tradicionais têm em relação a arquivos recolhidos em seus territórios. Desse modo, o desejo é que, num futuro próximo, eles não simplesmente saibam da existência desses materiais, mas também debatam e decidam, de forma autônoma, sobre o uso, a restituição, a conservação, a publicização, a restrição ou mesmo o descarte desses arquivos.

Referências

Guyot, Mireille. 1969. "Recherches ethnographiques dans les bassins des Rios Caqueta Putumayo (Amazonie colombienne)". Journal de la Société des Américanistes, 58: 267-283.

Lucas, Maria Luísa. 2019. O Oriente e o amanhecer. História, parentesco e ritual entre os Bora na Amazônia Colombiana. Tese de Doutorado. Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Rio de Janeiro.

Native American Graves Protection and Repatriation Act, 101-601 U.S.C. §. 1990. Disponível aqui.

Vapnarsky, Valentina. 2020. “From home base to database … and back? The circulation and virtualities of Amerindian knowledge in the digital era”. Journal de la Société des Américanistes, 106(2): 375-398.

Gunderson, Frank; Lancefield, Robert & Woods,Bret (eds). 2019. The Oxford Handbook of Musical Repatriation. Oxford: Oxford University Press.

A imagem que ilustra esse Acadêmico foi capturada por Mireille Guyot no rio Igaraparaná em 1970 e faz parte do acervo repatriado, em 2017, às comunidades Bora da mesma localidade.

Maria Luísa Lucas trabalha com povos indígenas amazônicos desde 2010. Fez seu mestrado e doutorado em antropologia social no Museu Nacional, UFRJ. Entre 2019 e 2021 foi pós-doutoranda no Museu do Quai Branly – Jacques Chirac e professora temporária do departamento de antropologia da Universidade Paris Nanterre, ambos na França. Atualmente é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos (Brazil LAB/HMEI). Nos últimos anos, tem coordenado projetos de documentação e repatriação digital em estreita colaboração com as comunidades indígenas por meio de diversas agências de financiamento como UNESCO Brasil, CNRS (França) e EMKP/The British Museum (Reino Unido).

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