O que são peixes Glandulocaudini, e como preservá-los

Mariana Bissoli de Moraes

Tese

Biologia evolutiva e conservação de espécies da tribo Glandulocaudini (Characiformes: Characidae)

autora

Mariana Bissoli de Moraes LATTES

orientadores

Ricardo Macedo Corrêa e Castro e Carla Natacha Marcolino Polaz

Área e sub-área

Zoologia, Ictiologia

Defendido em

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo em 09/11/2020

Link para o original

Esta tese, defendida na USP (Universidade de São Paulo) em Ribeirão Preto, estudou as características biológicas e os aspectos da história natural de nove espécies de Glandulocaudini, um grupo de peixes inseminadores de água doce conhecidos pelo comportamento reprodutivo complexo.

A pesquisa também avaliou as condições de habitat para a espécie Mimagoniates sylvicola, que está ameaçada de extinção, na região da Mata Atlântica do Nordeste do país. Os resultados indicam que é importante conservar a vegetação ripária (aquela presente em espaço próximo aos corpos d’água) para preservar os Glandulocaudini.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa teve como objetivo estudar comparativamente os aspectos alimentares, reprodutivos, comportamentais e de ocupação de habitat de espécies de Glandulocaudini, um pequeno grupo de peixes inseminadores, muito estudados com relação a sua morfologia e taxonomia e conhecidos pelo complexo comportamento de corte reprodutiva. O trabalho elucidou aspectos da história natural até então desconhecidos para a maioria das espécies do grupo e levantou hipóteses a respeito da evolução de suas características biológicas.

O estudo também avaliou a adequabilidade de habitat de Mimagoniates sylvicola, uma espécie ameaçada de extinção, e propôs ações para sua conservação, baseada na avaliação de áreas protegidas e impactadas da Mata Atlântica Nordeste, região-alvo do trabalho.

Por que isso é relevante?

O Brasil tem a maior diversidade de peixes de água doce do mundo, sendo a maioria das espécies de pequeno porte (menos de 15 cm de comprimento). Apesar disso, essa grande diversidade não é conhecida pela maioria da população, e muitas vezes é negligenciada pelas políticas ambientais. Portanto, as informações básicas sobre biologia e história natural de peixes de água doce são importantes, tanto para o conhecimento e o entendimento desses organismos e seus ambientes quanto para a avaliação de seu estado de conservação e a proposição de ações de conservação ambiental.

Resumo da pesquisa

Os Glandulocaudini são um grupo de peixes inseminadores de água doce, conhecidos por piabas ou tetras e caracterizados pela presença do órgão caudal em machos sexualmente maduros. O órgão caudal é uma estrutura localizada na base da nadadeira caudal, constituída por modificações de escamas e raios dessa nadadeira e associada a células glandulares do tipo club, que secretam feromônio, utilizado para atração de fêmeas durante a corte reprodutiva. Os Glandulocaudini estão distribuídos em bacias do leste e sul do Brasil, além de serem encontrados em riachos no Uruguai, Paraguai e Argentina. Além disso, as espécies desse grupo ocorrem em ambientes íntegros, com presença de vegetação ripária pouco alterada. Quatro das dez espécies descritas do grupo estão oficialmente ameaçadas de extinção, devido à degradação da qualidade do habitat. Devido a lacunas de conhecimento da história natural de algumas espécies do grupo, o trabalho avaliou, de maneira comparativa, as características biológicas da reprodução, alimentação, comportamento e ocupação de habitat de nove espécies da tribo Glandulocaudini, incluindo uma espécie não descrita. Também propomos ações de conservação baseadas em um estudo de caso com a espécie Mimagoniates sylvicola, utilizando uma abordagem chamada MDE (Modelagem de Distribuição de Espécies) (Pearson, 2010).

Quais foram as conclusões?

Todas as espécies ocuparam ambientes marginais sombreados, de remansos, de águas mais lentas, com exceção de duas espécies, que ocorreram também no meio do canal do rio, com correnteza moderada. Os Glandulocaudini têm dieta insetívora, com predominância de itens alóctones, ou seja, provenientes do ambiente terrestre, como formigas (Hymenoptera), besouros (Coleoptera) e percevejos (Hemiptera). Além disso, a maioria das espécies estudadas exibiu o complexo comportamento reprodutivo de atração e competição por fêmeas. As fêmeas apresentaram baixa fecundidade (menos de 600 ovócitos), o que pode estar relacionado com a eficiência da inseminação.

Com relação ao estudo de caso com M. sylvicola, as principais ações propostas foram a criação e ampliação de unidades de conservação já existentes, fiscalização de desmatamentos e regulação de barramentos de pequenos corpos d'água.

O estudo ressalta a importância da vegetação ripária para manutenção das populações dos Glandulocaudini, tanto relacionada à obtenção de alimentos como a locais de abrigo sombreados. O estudo pode servir como exemplo para outros trabalhos naturalísticos de curta duração para obtenção de informações biológicas desconhecidas e auxiliar na tomada de decisões de órgãos ambientais para a conservação e preservação da ictiofauna do Brasil.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgãos ambientais estaduais, a comunidade científica, a sociedade em geral e professores da educação básica, principalmente da comunidade local das áreas de ocorrência das espécies, pois podem usar os resultados da pesquisa como instrumento de educação ambiental.

Referências

Abilhoa, V.; Braga, R. R.; Bornatowski, H.; Vitule, J.R.S. 2011. Fishes of the Atlantic Forest Streams: Ecological Patterns and Conservation. In: Grillo, O.; Venora, G. (Eds.) Changing Diversity in Changing Environment. In Tech, 404 p.

Azevedo, M.A. 2010. Reproductive characteristics of characid fish species (Teleostei, Characiformes) and their relationship with body size and phylogeny. Iheringia. Série Zoologia, 100(4): 469-482.

Burns, J.R. & Weitzman, S.H. 2005. Insemination in ostariophysan fishes. In: Viviparous Fishes, Uribe, M.C. & Grier, H.J. (Eds.). New Life Publications, Homestead, Florida. Pp. 107-135.

Castro, R.M.C. & Polaz, C.N.M. 2020. Small-sized fish: the largest and most threatened portion of the megadiverse neotropical freshwater fish fauna. Biota Neotropica, 20(1): e20180683, 1-12.

ICMBio - Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. 2018a. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção: Volume I. Brasília: ICMBio. 492p. Disponível aqui.

Menezes, N.A. & Weitzman, S.H. 2009. Systematics of the Neotropical fish subfamily Glandulocaudinae (Teleostei: Characiformes: Characidae). Neotropical Ichthyology, 7(3): 295-370.

Nelson, K. 1964. Behavior and morphology in the glandulocaudine fishes (Ostariophysi, Characidae). University of California Publ. Zool., 75(2): 59-152.

Pearson, R.G. 2010. Species’ Distribution Modeling for Conservation Educators and Practitioners. Lessons in Conservation, 3: 54-89.

Mariana Bissoli de Moraes é graduada em ciências biológicas pela Unesp de Rio Claro, com mestrado em zoologia pela mesma universidade e doutorado em biologia comparada pela FFCLRP-USP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo). Pesquisa a biologia e ecologia de peixes de água doce do Brasil.

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