O pensamento de Virgínia Bicudo sobre relações raciais no Brasil

Marcell Machado dos Santos

Dissertação de mestrado

O mundo branco é um moinho: a sociologia das relações raciais em Virgínia Leone Bicudo

autor

Marcell Machado dos Santos

orientadores

Antonio da Silveira Brasil Jr. e Alejandra Judith Josiowicz

Área e sub-área

Sociologia, Pensamento social brasileiro

Defendido em

Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro em 31/03/2021

Esta dissertação de mestrado da Universidade Federal do Rio de Janeiro analisou a construção do pensamento de Virgínia Bicudo sobre as relações raciais no Brasil. Por meio de uma pesquisa documental, o trabalho reconstrói o contexto intelectual do período e defende a sofisticação teórico-metodológica da autora.

Enquanto grande parte da sociologia dos anos 1940 considerava que pretos e mulatos sofriam apenas preconceito de classe, Bicudo estudou os efeitos do racismo na subjetividade de pessoas negras.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Virgínia Leone Bicudo (1910-2003) foi uma socióloga e psicanalista negra que defendeu em 1945 sua dissertação, chamada “Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo”, na ELSP (Escola Livre de Sociologia e Política), orientada pelo sociólogo estadunidense Donald Pierson, intelectual de destaque nos estudos sobre relações raciais no Brasil da época.

Na dissertação, Bicudo utiliza o conceito de atitude racial para fazer uma análise, circunscrita à cidade de São Paulo, das percepções de pretos e mulatos sobre as interações entre esses grupos e os brancos. Para isso ela usou como método principal as entrevistas com pretos e mulatos de classe “inferior” e intermediária, além de investigar a atuação da Frente Negra Brasileira. Bicudo mobilizou seu conhecimento em psicanálise na dissertação, como o uso de conceitos e na própria ênfase de sua análise na subjetividade dos entrevistados e como essas são afetadas pelas interações com os brancos. Nesse sentido, a pesquisa procura responder: como Virgínia Bicudo forjou sua perspectiva teórico-metodológica a partir de um universo de autores, nacionais e estrangeiros, que estavam à disposição em seu contexto intelectual?

Por que isso é relevante?

Primeiramente, esta pesquisa é relevante pela importância de entender os processos de circulação internacional do conhecimento entre países com diferentes contextos sócio-históricos, incluindo a respeito da questão racial, como Estados Unidos e Brasil, visto que havia forte presença da sociologia estadunidense na ELSP, em especial da chamada Escola de Chicago. Dessa forma, será possível entender as apropriações e reinvenções que ocorrem nesse tipo de processo, em relação à chegada dessas ideias no cenário nacional.

A pesquisa também se mostra relevante por mostrar como existiam diferentes caminhos de vertentes teórico-metodológicas nas pesquisas sobre relações raciais no Brasil durante os anos 1940, época que Virgínia Bicudo produziu sua dissertação. Assim, mostramos que a perspectiva teórico-metodológica produzida por Bicudo – mesclando elementos da sociologia, psicanálise e higiene mental – foi fruto de suas próprias escolhas no interior de um campo de possibilidades, ao invés de um caminho inevitável a ser seguido.

Por fim, a pesquisa mostra sua relevância pelo fato de mostrar como uma intelectual negra como Virgínia Bicudo pode ganhar novos sentidos na fortuna crítica e na sua biografia ao longo da história, pois durante décadas ela foi desconhecida na sociologia brasileira. Entretanto, recentemente ela vem sendo redescoberta como uma autora importante nos estudos sobre relações raciais no Brasil.

Resumo da pesquisa

O objetivo da pesquisa é entender a construção do pensamento de Virgínia Bicudo sobre as relações raciais no Brasil, presente em sua dissertação “Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo”. Para alcançar esse objetivo foram buscados documentos que pertenciam a diferentes instituições, a fim de reconstruir de modo indireto o contexto intelectual em que Virgínia Bicudo estava inserida, sendo analisados a partir de elementos do contextualismo linguístico de Quentin Skinner. Essa reconstrução indireta foi necessária pelo fato de diversos documentos com informações sobre Virgínia Bicudo não terem sido encontrados.

Nesse sentido, organizamos a dissertação de forma a reduzir o perímetro de análise em cada capítulo. No primeiro, procuramos mapear o contexto intelectual mais amplo de Virgínia Bicudo, no qual ela esteve inserida enquanto estava dedicada à sociologia, no período como estudante na ELSP. No segundo, foi feita uma análise do contexto intelectual mais restrito da autora, a partir da análise de alguns autores brasileiros e estrangeiros mobilizados por ela em sua dissertação. No terceiro, buscamos analisar em profundidade a dissertação produzida por Bicudo mostrando as articulações realizadas entre sociologia, psicanálise e a questão racial em sua pesquisa, além de analisarmos a importância da psicanálise e da higiene mental na sua trajetória profissional.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa concluiu que Virgínia Bicudo construiu sua dissertação como uma pesquisa inovadora, por duas razões. Em primeiro lugar, por sua construção teórico-metodológica, pois ela mobilizou seu conhecimento da psicanálise e experiência profissional como visitadora psiquiátrica em sua pesquisa. Assim, Bicudo pode demonstrar com profundidade os efeitos do racismo na subjetividade dos sujeitos pretos e mulatos. Outro ponto sobre a construção teórico-metodológica de Bicudo é que ela não trabalha com os autores de sua bibliografia de modo acrítico, mas tenciona e mobiliza suas formulações na sua pesquisa, na medida em que sejam úteis para a análise de seu material empírico. Assim ela escapa de reproduzir análises prontas, que seriam inadequadas para o uso na sua pesquisa.

Em segundo lugar, Virgínia Bicudo conseguiu realizar uma dissertação inovadora por conta de suas escolhas do material empírico para a pesquisa. A base principal para suas reflexões são as entrevistas com pretos e mulatos; no seu texto a socióloga cede bastante espaço para os relatos diretos dos entrevistados. Para seu material empírico, Bicudo também investigou a atuação da Frente Negra Brasileira, entrevistando uma de suas lideranças e analisando documentos do grupo. A partir desses dois fatores, Bicudo obteve êxito em revelar na sua pesquisa a existência do racismo sobre pretos e mulatos.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Os resultados dessa pesquisa devem ser conhecidos pelos pesquisadores interessados nos estudos de relações raciais no Brasil, pois a dissertação de Virgínia Bicudo foi um trabalho importante produzido nos anos 1940 no campo da sociologia, por apontar a existência do racismo e seus efeitos psicológicos e sociais sobre pretos e mulatos, em contraposição à posição majoritária na sociologia da época, a qual considerava que no Brasil estes sofriam apenas um preconceito de classe.

Ainda que o objetivo dessa pesquisa não seja traçar uma biografia sobre Virgínia Bicudo, seus resultados também devem ser conhecidos pelos interessados em saber mais sobre sua trajetória profissional, visto que ela foi uma intelectual negra com feitos importantes na sociologia e na psicanálise, cuja obra vem sendo redescoberta desde 2010, após décadas de invisibilização. Assim, conhecer sobre a trajetória profissional de Virgínia Bicudo ajuda a entender como mulheres negras são atravessadas pelo racismo e machismo, mas ao mesmo tempo como encontram estratégias para superá-lo.

Referências

Abrão, Jorge Luís Ferreira. Virgínia Leone Bicudo: a trajetória de uma psicanalista brasileira. São Paulo: Arte & Ciência, 2010.

Bicudo, Virgínia Leone. Atitudes dos Alunos dos Grupos Escolares em relação com a Côr dos seus Colegas. In: Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. 1a ed. São Paulo: Anhembi, 1955. p. 227–310.

Bicudo, Virgínia Leone. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. São Paulo: Sociologia e Política, 2010.

Gomes, Janaina Damaceno. Os Segredos de Virgínia: estudos de atitudes raciais em São Paulo (1945-1955). 166 f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

Marcell Machado dos Santos possui graduação em ciências sociais e mestrado em sociologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Trabalha atualmente como técnico em antropologia do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). É pesquisador convidado do Gemaa/Iesp-Uerj (Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

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