Como programas parentais podem ajudar a romper o ciclo intergeracional de violência em famílias

Elisa Rachel Pisani Altafim

Paper

Histórico de violência na infância materno no contexto de um programa de parentalidade

Maternal History of Childhood Violence in the Context of a Parenting Program

autoras

Elisa Rachel Pisani Altafim, Rebeca Cristina de Oliveira e Maria Beatriz Martins Linhares

Área e sub-área

Saúde mental, Psicologia

Publicado em

Journal of Child and Family Studies, em 05/01/2021

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Este artigo, publicado na revista científica Journal of Child and Family Studies, investiga o impacto de programas de parentalidade para mães que vivenciaram violência durante a infância. Os programas de parentalidade são aqueles direcionados a cuidadores para desenvolver relações harmoniosas e sem violência com crianças.

Analisando um conjunto de mães que participavam de um programa específico, o estudo verificou que muitas delas haviam vivido episódios de violência durante a infância. Mas, após a intervenção do programa, elas relataram melhorias nas práticas com seus filhos. Os resultados mostram o potencial de programas desse tipo para romper o ciclo intergeracional da violência dentro das famílias.

A qual pergunta a pesquisa responde

Qual a prevalência de violência na infância de mães participantes de um programa de parentalidade que busca a prevenção universal de violência contra crianças? Mães que vivenciaram violência na infância melhoram as suas práticas parentais após a participação em um programa de parentalidade?

Por que isso é relevante?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a violência contra crianças por familiares é uma das formas menos visíveis de maus-tratos infantis, mas amplamente prevalente em todas as sociedades. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definem como uma de suas prioridades o fim da violência contra as crianças, considerado fundamental para o desenvolvimento global.

A parentalidade é multideterminada, e um dos fatores que podem influenciar os estilos parentais é a forma como os pais foram criados e educados por seus próprios pais. A literatura indica que em muitos casos ocorre o ciclo intergeracional da violência. Se, por um lado, alguns pais repetem com seus filhos a forma como foram educados — com o uso de violência —, por outro lado, existem pais que vivenciaram adversidades extremas na infância, mas não adotam o mesmo padrão de comportamento com seus filhos.

Os programas de parentalidade auxiliam os pais no aprendizado e na reflexão sobre estratégias de disciplina positiva, que não envolvem o uso de violência contra crianças. Esses programas podem auxiliar a quebrar ciclos de violência intergeracional.

Os programas de parentalidade universais são oferecidos para a comunidade sem a identificação prévia de riscos como famílias que maltratam seus filhos ou crianças com problemas de comportamento. Por isso, torna-se fundamental conhecer o histórico de violência na infância de seus participantes após a intervenção. Uma compreensão qualitativa da história de experiências adversas de mães durante a infância pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias para quebrar o ciclo da violência. Além disso, é de extrema relevância verificar se um programa de parentalidade tem efetividade para melhorar as práticas parentais de mães que vivenciaram violência quando crianças.

Resumo da pesquisa

O estudo avaliou a eficácia do Programa ACT — Para Educar Crianças em Ambientes Seguros, um programa de parentalidade de prevenção universal da violência contra crianças, para melhorar as práticas parentais em dois grupos de mães. Os grupos foram diferenciados pela presença — ou não — de histórias de experiências adversas na infância. A pesquisa também buscou caracterizar os tipos de violência vivenciados pelas participantes. O trabalho utilizou a abordagem de métodos mistos, com análises qualitativas e quantitativas.

Os resultados mostraram uma alta prevalência (81%) de mães que relataram episódios violentos na infância, com predominância de abuso físico.As participantes também relataram que sofreram violência psicológica, exposição a violência familiar, problemas por morar com pessoas que utilizam drogas lícitas (como o álcool) e ilícitas e violência sexual. A maioria das participantes relatou ter vivenciado mais de um tipo de violência.

A alta porcentagem de mães que vivenciaram violência na infância foi um resultado inesperado, uma vez que o programa de parentalidade foi oferecido com caráter universal. Após a intervenção com o programa ACT, ambos os grupos de mães relataram melhorias nas práticas parentais, independentemente de seu histórico de violência na infância.

Quais foram as conclusões?

A prevalência de famílias participantes de um programa de parentalidade que vivenciaram violência na infância foi alta. O achado indica a necessidade de programas de parentalidade no âmbito das políticas públicas. Essas intervenções são fundamentais para que famílias possam refletir sobre suas práticas parentais e não repetir o padrão de seus familiares com o uso de práticas violentas. O achado também indica que os profissionais dos programas de parentalidade devem ser qualificados para lidar com demandas relacionadas à violência e a questões emocionais que podem emergir durante ou após os encontros.

As mães participantes do grupo de parentalidade Programa ACT - Para Educar Crianças em Ambientes Seguros melhoraram suas práticas parentais de comunicação, disciplina positiva e regulação emocional e comportamental, independentemente do histórico de violência na infância. Portanto, destaca-se a relevância da realização de programas de parentalidade para quebrar ciclos de violência intrafamiliar.

O Brasil tem duas legislações — o Marco Legal da Primeira Infância (lei n. 13.257, de 2016) e a Lei Menino Bernardo (lei n. 13.010, de 2014) — que destacam que se deve realizar, no âmbito das políticas públicas, programas de orientação para as famílias, a fim de melhorar as relações afetivas familiares e orientar sobre práticas educativas positivas.

O presente artigo apresentou evidências sobre um modelo de intervenção, o Programa ACT — Para Educar Crianças em Ambientes Seguros, que pode ser utilizado para promoção do desenvolvimento da criança e prevenção de maus-tratos e violência intrafamiliar.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Gestores públicos, profissionais da saúde, da psicologia e da assistência social, pesquisadores e formuladores e avaliadores de políticas públicas.

Referências

Altafim, E. R. P., de Oliveira, R. C., & Linhares, M. B. M. Maternal History of Childhood Violence in the Context of a Parenting Program. Journal of Child and Family Studies, 230-242.

Altafim, E. R. P., & Linhares, M. B. M. (2016). Universal violence and child maltreatment prevention programs for parents: a systematic review. Psychosocial Intervention, 25(1), 27–38. https://doi.org/ 10.1016/j.psi.2015.10.003.

United Nations Children’s Fund. (2017). A familiar face: violence in the lives of children and adolescents.

World Health Organization (2018). INSPIRE Handbook: action for implementing the seven strategies for ending violence against children.

Elisa Rachel Pisani Altafim é psicóloga com doutorado e pós-doutorado em ciências — saúde mental pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Tem graduação e mestrado pela Unesp. Em 2016, foi pesquisadora visitante na Harvard Graduate School of Education e tem formação em Harvard nos cursos Principles and Practice of Clinical Research e Executive Leadership Program in Early Childhood Development. Atualmente é professora colaboradora e pesquisadora na Pós-Graduação em Saúde Mental da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP. Atua como consultora da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

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