Como o desenvolvimento infantil é impactado pela desnutrição e aleitamento materno

Hermano Rocha

Paper

Undernutrition and Short Duration of Breastfeeding Association with Child Development in Ceará, Semi-Arid Region of Brazil: a Population-Based Study

Associação entre desnutrição e curta duração do aleitamento materno com o desenvolvimento infantil no Ceará, Semi-Árido do Brasil: um estudo de base populacional

autores

Hermano A. L. Rocha, Luciano L. Correia, Álvaro J. M. Leite, Sabrina G. M. O. Rocha, Márcia M. T. Machado, Jocileide S. Campos, Antonio J. L. A. Cunha, Anamaria C. e Silva e Christopher R. Sudfeld

Área e sub-área

Saúde Global, Saúde materno-infantil

Publicado em

Jornal de Pediatria em 09/09/2021

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Segundo estudos recentes, o desenvolvimento das crianças é um determinante fundamental para os resultados do capital humano na vida adulta.

Este artigo, publicado no Jornal de Pediatria em 2021, relata um estudo transversal populacional com amostra aleatória de todo o estado do Ceará com crianças de 0 a 6 anos. A equipe analisou o desenvolvimento infantil, o peso e a altura dos participantes, bem como seu estado nutricional, o histórico de amamentação, a renda familiar e a escolaridade materna.

A pesquisa concluiu que a desnutrição e a curta duração do aleitamento materno têm associação com resultados piores de desenvolvimento em crianças, concluindo que os programas nutricionais integrados podem melhorar os resultados de crescimento infantil.

A qual pergunta a pesquisa responde?

O desenvolvimento infantil, medido nas áreas de comunicação, motora e social, em crianças cearenses de 0 a 6 anos, está associado com a desnutrição infantil crônica ou aguda ou com a duração do aleitamento materno?

Por que isso é relevante?

Segundo dados do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), 21,3% das crianças menores de cinco anos no mundo apresentavam desnutrição em 2019, o que representa 144 milhões de indivíduos. Os últimos dados disponíveis para o Brasil relataram uma prevalência de 6,95% de baixa estatura em 2007. A desnutrição foi identificada como negativamente associada ao desenvolvimento infantil, enquanto outros estudos mostraram que as intervenções nutricionais, especialmente em locais onde a desnutrição é endêmica, têm um efeito positivo no desenvolvimento infantil. O desenvolvimento infantil tem tido grande relevância na saúde global na última década. Mais de 250 milhões de crianças com menos de 5 anos em países de baixa e média renda (LMICs – Low-to-Middle-Income Country) podem não atingir seu potencial de desenvolvimento total, conforme estimado em 2015. O desenvolvimento das crianças é um determinante essencial do desempenho educacional que elas viram a apresentar, bem como determina os resultados do capital humano na vida adulta, sendo impactantes em toda a sociedade. Estudar essa associação em um momento que vemos o aumento da insegurança alimentar, que pode levar a desnutrição, é essencial.

Resumo da pesquisa

Realizamos um estudo transversal populacional com amostra aleatória de todo o estado do Ceará. Participaram do estudo cearenses de 0 a 6 anos, representativas de toda a população do estado. Nestas crianças, avaliamos seu desenvolvimento infantil com a ferramenta ASQ3, que teve suas características psicométricas avaliadas no Brasil, e avalia os domínios de desenvolvimento motor amplo, motor fino, comunicação, resolução de problemas e habilidades sociais. Além do desenvolvimento infantil, pesamos e medimos diretamente as crianças durante as entrevistas, e identificamos seus estados nutricionais de acordo com as métricas da OMS (Organização Mundial de Saúde). Além disso, investigamos o histórico de amamentação das crianças. Em adição aos fatores principais, medimos também outros fatores associados ao desenvolvimento infantil para termos certeza que o efeito encontrado se deveu à desnutrição, como renda familiar e escolaridade materna. Um total de 3.566 crianças participou da pesquisa. Descobrimos que 8,2% delas eram raquíticas, 3,0%, com baixo peso e 3,6% emaciadas no momento da entrevista. Todos os fatores estudados foram associados a maior prevalência de comprometimento do desenvolvimento infantil em pelo menos um dos domínios avaliados. A desnutrição foi o fator com o efeito mais forte, com um odds ratio ajustado (AOR) de 4,14 (2,26–7,58), p <0,001. A amamentação por até dois meses em comparação a mais de seis meses (AOR 2,08 (1,38–3,12)) também foi associada com pior resultado na avaliação com o ASQ.

Quais foram as conclusões?

Concluímos que a desnutrição e a curta duração do aleitamento materno têm associação com os resultados de desenvolvimento em crianças. Considerando estes achados, conclui-se ainda que os programas nutricionais integrados podem melhorar os resultados do desenvolvimento infantil.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Estes resultados são de grande importância para os gestores de saúde pública, para o planejamento de políticas que mitiguem o risco de insegurança alimentar e da consequente desnutrição infantil e do, como demonstrado, risco aumentado de prejuízo do desenvolvimento infantil, que impacta toda a sociedade. Lembremos que foi estimado que cada dólar investido em desenvolvimento infantil retorna sete dólares. Além disso, educadores e profissionais de saúde que lidam diretamente com as crianças e com seu desenvolvimento devem levar em consideração os achados deste estudo e atuar dentro de suas possibilidades para amenizar os efeitos da desnutrição. Particularmente, o achado do efeito protetor de um tempo mais longo de amamentação pode sugerir um estímulo à amamentação, em especial em crianças vulneráveis à desnutrição.

Referências

LL Correia, Hal Rocha, Sudfeld CR, et al. Prevalence and socioeconomic determinants of development delay among children in Ceará, Brazil: A population-based study. PloS one 14.11 (2019): e0215343.

LL Correia, Hal Rocha, SGM Oliveira Rocha, et al. Methodology of maternal and child health populational surveys: a statewide cross-sectional time series carried out in Ceará, Brazil, from 1987 to 2017, with pooled data analysis for child stunting. Ann Glob Health, 85 (1) (2019), p. 24.

Rocha, Hermano A. L.; Sudfeld, Christopher R.; Leite, Álvaro J. M.; Rocha, Sabrina Gabrielle Maia Oliveira; Machado, Márcia M. T.; Campos, Jocileide S.; Silva, Anamaria C. E; Correia, Luciano L. Covid-19, food security and maternal mental health in Ceará, Brazil: a repeated cross-sectional survey. Public Health Nutrition. , v.1, p.1 - 12, 2021.

Rocha, Hermano A. L.; Sudfeld, Christopher R.; Leite, Álvaro J. M.; Machado, Márcia M. T.; Rocha, Sabrina G. M. O.; Campos, Jocileide S.; Silva, Anamaria C. E; Correia, Luciano L. Maternal and neonatal factors associated with child development in Ceará, Brazil: a population-based study. BMC Pediatrics. , v.21, p.163 - , 2021.

JP Shonkoff. Leveraging the biology of adversity to address the roots of disparities in health and development. Proc Natl Acad Sci U S A, 109 (suppl 2) (2012), pp. 17302-17307.

Hermano Alexandre Lima Rocha é médico, pós-doutorando da Harvard School of Public Health e professor da Universidade Federal do Ceará. Cientista do desenvolvimento infantil, realiza estudos epidemiológicos que tentam levantar evidências para a geração de políticas públicas que ajudem a aumentar o capital humano internacional. No momento, está realizando dois estudos de alto potencial, um específico para crianças abaixo da linha da pobreza e uma coorte das crianças entrevistadas neste estudo.

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeGEMAADRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUTMacroAmb