Como o êxodo rural afeta o consumo de carne de animais silvestres na Amazônia?

Willandia Chaves

Paper

Impactos da migração rural para urbana, urbanização e mudança geracional no consumo de animais selvagens na Amazônia

Impacts of Rural to Urban Migration, Urbanization, and Generational Change on Consumption of Wild Animals in the Amazon

autores

Willandia A. Chaves, Denis Valle, Aline S. Tavares, Thais Q. Morcatty e David S. Wilcove

Área e sub-área

Ciências sociais aplicadas à conservação, Conservação da fauna silvestre

Publicado em

Conservation Biology em 30/10/2020

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Pela primeira vez na história, há mais pessoas vivendo em cidades do que no campo. No Brasil, 55% das pessoas moram hoje em zonas urbanas, e tudo indica que esse percentual deve continuar a crescer. Tamanha mudança demográfica carrega implicações na maneira como as pessoas usam os recursos naturais.

Diante desse fenômeno, a pesquisa investiga como a migração rural-urbana e a urbanização afetam o consumo de carne de animais silvestres, conhecida regionalmente como carne de caça, na Amazônia.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa investiga como a migração rural-urbana e a urbanização afetam o consumo de carne de animais silvestres, conhecida regionalmente como carne de caça, na Amazônia. O estudo também analisa como o consumo e a preferência por carne de caça difere entre adultos e jovens. Para responder a essas perguntas, os autores utilizaram os quelônios (tartarugas, jabutis) como grupo modelo, pois eles são um dos grupos mais caçados e ameaçados na Amazônia e globalmente. Além disso, a pesquisa fez também uma estimativa do consumo anual de quelônios na zona urbana do estado do Amazonas.

Por que isso é relevante?

Mais de 55% dos brasileiros vivem em zonas urbanas, porcentagem que tende a continuar crescendo devido à migração rural-urbana. Essa mudança demográfica tem implicações importantes em como as pessoas usam os recursos naturais. A maioria dos trabalhos anteriores relacionados ao processo de migração rural-urbana teve como foco as consequências que tal migração traz para a conservação das áreas rurais abandonadas. No entanto, quando as pessoas migram para as zonas urbanas elas também trazem consigo seus hábitos alimentares, entre eles o consumo de carne de caça.

Tendo isso em vista, é importante sabermos as consequências dessas mudanças demográficas para a demanda por animais silvestres. Primeiro, porque essa demanda é uma grande ameaça global a espécies ameaçadas de extinção - em muitos casos de extinções de espécies, e extinções locais, um dos principais fatores é a caça predatória para saciar a alta demanda por esses animais. Portanto, entender como a migração rural-urbana afeta a demanda é importante para identificarmos formas de diminuir a pressão sobre a fauna silvestre.

Em segundo lugar, a pesquisa é relevante dado que a demanda urbana por carne de caça pode ter consequências negativas diretas sobre a segurança alimentar das populações rurais, problema conhecido como “a crise da carne de caça”. Isso ocorre porque embora a população urbana consuma carne de caça, tal população tem acesso a alternativas, como carnes de animais domesticados. Já as populações rurais dependem muito mais da fauna silvestre como fonte de alimento, uma vez que não têm esse acesso, ou têm acesso limitado a alternativas.

Resumo da pesquisa

A pesquisa investigou como a migração rural-urbana, a urbanização e as mudanças geracionais afetam o consumo de animais selvagens. O estudo utilizou como modelo os quelônios (tartarugas, jabutis), que pertencem a um dos grupos mais caçados na Amazônia.

Foram entrevistadas 1.356 famílias e 2.776 crianças em idade escolar em dez áreas urbanas da Amazônia brasileira (seis pequenas cidades, três cidades grandes, além de Manaus, a maior cidade da Bacia Amazônica) com uma técnica de resposta aleatória e questionários anônimos.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa demonstra que o consumo de carne de caça nas zonas urbanas é alarmante, com os autores estimando que cerca de 1.7 milhão de tartarugas e jabutis sejam consumidos por ano na zona urbana do estado do Amazonas. No entanto, o consumo de carne de caça diminui com o nível de urbanização: quanto maior a cidade, menor o consumo. Além disso, o consumo per capita diminui com o tempo de moradia na zona urbana; ou seja: com o tempo, as pessoas que migram da zona rural para a zona urbana tendem a diminuir o consumo per capita de carne de caça. No entanto, não está claro se o declínio observado será rápido o suficiente para conservar as espécies caçadas.

Outra conclusão importante é que os jovens são menos propensos a consumir carne de caça e têm menos preferência pelo sabor desta carne que os adultos. Desse modo, se esses jovens continuarem tomando as mesmas decisões em relação ao consumo de carne de caça à medida em que eles se tornarem adultos, é possível que a magnitude do consumo urbano diminua com o tempo, mesmo com o processo de urbanização. Entretanto, não sabemos como o consumo e a preferência desses jovens vão mudar com o tempo.

Os resultados da pesquisa também indicam intervenções de conservação com boa relação custo-benefício. Ações focadas na demanda (por exemplo, políticas públicas voltadas para a redução do consumo urbano de carne de caça), priorizando os migrantes recentes, podem ter um maior retorno sobre o investimento do que programas com foco na população em geral. Além disso, há certas cidades que parecem ser os pontos principais do consumo de carne selvagem. Focalizar os esforços de conservação nesses locais deve ter resultados substancialmente positivos. Por fim, os esforços para aumentar a conscientização sobre a situação das tartarugas amazônicas entre as crianças, assim como promover sua conexão com a natureza, também podem apresentar recompensas a longo prazo.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Organizações não governamentais voltadas à proteção do meio ambiente, agências de meio ambiente dos governos municipais, estaduais e federal que possam implementar iniciativas para redução da pressão sobre a fauna silvestre. Cientistas de áreas como ecologia e conservação de fauna silvestre, agricultura, pecuária e economia.

Além disso, é necessário que cientistas e instituições dessas diversas áreas colaborem de forma interdisciplinar - esse é um problema complexo e que precisa de um esforço conjunto para uma redução da demanda por fauna silvestre na zona urbana. Embora seja importante diminuir a pressão da zona urbana sobre a fauna silvestre, é fundamental garantir às pessoas o acesso à uma alimentação de qualidade e garantir que tal diminuição do consumo de fauna não resulte em outros problemas ambientais. Por exemplo, não seria desejável substituir o consumo de carne de caça por carne bovina, uma vez que a pecuária na Amazônia é uma das maiores causas de desmatamento na região. Somente com esforços conjuntos poderemos encontrar soluções sustentáveis viáveis para a região.

Referências

Brashares JS, Gaynor KM. 2017. Eating ecosystems. Science 356:136-137.

Higgs S. 2015. Social norms and their influence on eating behaviours. Appetite 86:38-44.

Milner-Gulland EJ, Bennett EL. 2003. Wild meat: the bigger picture. Trends in Ecology & Evolution 18:351-357.

Parry L, Barlow J, Pereira H. 2014.Wildlife harvest and consumption in Amazonia’s urbanized wilderness. Conservation Letters 7:565-574.

Parry L, Peres C, Day B, Amaral S. 2010. Rural–urban migration brings conservation threats and opportunities to Amazonian watersheds. Conservation Letters 3:251–259.

Willandia Chaves é professora de dimensões humanas da conservação na Virginia Tech e professora afiliada do Global Change Center e do Center for Emerging, Zoonotic, and Arthropod-borne Pathogens, ambos centros de estudos na Virginia Tech. Possui doutorado em ecologia interdisciplinar pela Universidade da Flórida (EUA), e atualmente pesquisa o comércio legal e ilegal de recursos naturais; as relações entre urbanização e o uso de recursos naturais e conexão com a natureza; as mudanças de comportamento relacionados à conservação da biodiversidade, incluindo marketing social e educação ambiental; e diversidade, equidade e inclusão no acesso e interação com a natureza. A pesquisa sobre o presente artigo foi realizada durante seu pós-doutorado na Princeton School of Public and International Affairs (Princeton University), sob a supervisão do professor David Wilcove, coautor do artigo.

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