Como ganhos com restauração florestal na Mata Atlântica são comprometidos pelo desmatamento de florestas antigas

Marcos R. Rosa

Paper

Devastação oculta de florestas mais antigas ameaçam Mata Atlântica brasileira e desafiam programas de restauração

Hidden Destruction of Older Forests Threatens Brazil’s Atlantic Forest and Challenges Restoration Programs

autores

Marcos R. Rosa, Pedro H. S. Brancalion, Renato Crouzeilles, Leandro R. Tambosi, Pedro R. Piffer, Felipe E. B. Lenti, Márcia Hirota, Edson Santiami e Jean Paul Metzger

Área e sub-área

Meio ambiente, Conservação

Publicado em

Science Advances em 20/01/2021

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A estabilidade da área de cobertura florestal na Mata Atlântica não significa ausência de desmatamento. Este artigo publicado na Science Advances utilizou mapas de cobertura e uso da terra do MapBiomas para quantificar a dinâmica de cobertura da floresta nativa no bioma, em bases anuais, de 1990 a 2017. Concluímos que a relativa estabilidade da cobertura florestal no período (aproximadamente 28 milhões de hectares) camufla a perda da floresta mais antiga, substituída por florestas mais novas, sobretudo em terrenos planos, mais propícios à agropecuária.

Foi verificado que as mudanças da cobertura e sua distribuição espacial aumentaram o isolamento dessas florestas mais antigas e mais biodiversas. O corte das florestas mais antigas – e também das florestas mais novas – resultou em um progressivo rejuvenescimento da cobertura florestal natural.

Compreender a dinâmica de perda e ganho florestal é crucial para a conservação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Os resultados desta pesquisa destacam a necessidade de incluir essa perspectiva nos programas de restauração para melhor estimar os benefícios esperados e lidar com os problemas inesperados.

A qual pergunta a pesquisa responde?

Estudos anteriores de sensoriamento remoto sobre as florestas tropicais focaram, em sua maioria, no desmatamento tropical, detectando e analisando perdas imediatas de grandes manchas florestais. Com os recentes avanços na tecnologia de imagem por satélite e processamento de dados em nuvem, nossa capacidade para mapear, quantificar e qualificar as mudanças na cobertura arbórea em escala global aumentou substancialmente. Essas aceleradas inovações permitiram que os pesquisadores passassem a enfrentar o desafio de monitorar a regeneração florestal nativa – um processo contínuo de longo prazo e altamente variável, que ocorre normalmente por meio da emergência de pequenas manchas de floresta recente em paisagens heterogêneas.

Além disso, a maior parte de estudos focados em mudanças de cobertura florestal em escala continental não fez distinção entre cobertura por árvores exóticas ou nativas. E quando isso foi feito, só foram consideradas grandes áreas remanescentes de florestas antigas. Esta pesquisa elucida a dinâmica florestal na Mata Atlântica, em bases anuais, analisando toda a cobertura florestal do bioma, incluindo florestas primárias e secundárias, e observando suas variações espaciais entre 1990 e 2017.

Por que isso é relevante?

Mais de 100 milhões de hectares de florestas tropicais e subtropicais foram degradadas e desmatadas no mundo entre 1980 e 2021, principalmente pela expansão das fronteiras agrícolas. Para reverter parcialmente as consequências ambientais negativas disso, programas de restauração e reflorestamento em larga escala são promovidos globalmente, e muitas regiões tropicais estão agora observando transições florestais, de perda para ganho líquido de cobertura vegetal. Entretanto, a expansão de jovens florestas secundárias, principalmente em áreas marginais a terras usadas para agropecuária, pode camuflar a destruição de florestas antigas.

Dessa forma, a qualidade da cobertura florestal e o potencial de contribuição para a conservação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos podem declinar mesmo com as metas de restauração (ou desmatamento zero) sendo alcançadas. A restauração em larga-escala deve ser monitorada não somente com base na qualidade e na extensão das áreas recuperadas, mas também considerando-se as múltiplas consequências das transformações na cobertura florestal segundo os benefícios ambientais desejados.

Um monitoramento de restauração florestal abrangente precisa mapear simultaneamente e acompanhar tanto perdas quanto ganhos florestais, já que são fatores determinantes da recuperação da biodiversidade e do fornecimento de serviços ecossistêmicos por florestas tropicais restauradas.

Resumo da pesquisa

A dinâmica florestal da Mata Atlântica, um bioma de grande prioridade para a conservação da biodiversidade e para a restauração de florestas tropicais, foi quantificada em grande escala e longo prazo. Para isso, foram utilizados os dados e mapas de cobertura e uso da terra da Coleção 5 do MapBiomas (1985 a 2019), bem como o processamento de dados em nuvem da plataforma Google Earth Engine.

O MapBiomas é uma rede colaborativa multi-institucional surgida no Brasil, que produz mapas anuais de cobertura e uso da terra baseados em imagens Landsat de 30m de resolução, utilizando algoritmos Random Forest de aprendizado de máquina. Com a metodologia desenvolvida pela iniciativa, coberturas arbóreas nativas e exóticas são diferenciadas e a idade das florestas nativas pode ser estimada. Essa nova abordagem oferece uma oportunidade valiosa para o mapeamento da dinâmica de restauração e conservação de florestas nativas, que tem um papel crítico no acompanhamento do progresso de restaurações ambiciosas e compromissos de reflorestamento. Isso também permite uma profunda análise de longo prazo da dinâmica florestal anual em grandes escalas espaciais, não somente melhorando o entendimento sobre a distribuição das florestas nas regiões tropicais, mas também dando suporte para melhor quantificação dos benefícios da restauração.

Nesta pesquisa, a legenda dos mapas do MapBiomas, que tem 23 classes na Coleção 5, foi simplificada de forma binária para “florestas nativas” (formação florestal natural) e “antrópicas” (correspondendo a monocultura florestal, área agrícola, pastagem, infraestrutura urbana e mineração). Outras classes não foram consideradas na pesquisa [como formação savânica, mangue, formação natural não-florestal (incluindo todas as subclasses), praias e dunas e corpos d’água (incluindo todas as subclasses)]. Um filtro de pós-classificação temporal, baseado em uma janela móvel, foi ampliado em mapas simplificados para reduzir a incerteza e as flutuações de ano a ano dos ganhos e perdas das florestas nativas. Ganhos e perdas de florestas nativas acumuladas de menos de 11 pixels (aproximadamente 1 hectare) ao longo da série temporal analisada foram desconsiderados.

Quais foram as conclusões?

A área total de cobertura florestal na Mata Atlântica manteve-se estável – entre 28 e 30 milhões de hectares – nos últimos 30 anos (1989-2018). Porém, um processo de rejuvenescimento dessa cobertura florestal foi evidenciado pelos seguintes dados:

  • 260 mil hectares de perdas e ganhos florestais a cada ano desde 2005;
  • o desmatamento anual de florestas nativas (existentes no mapa de 1985) variou de 220 mil para 80 mil hectares em cada ano entre 2000 a 2015, chegando ao menor nível (76.200 hectares ) em 2015; e
  • florestas mais novas (detectadas a partir de 1988) têm tido um ganho anual de cerca de 156 mil hectares entre 2000 a 2015.

A pesquisa revelou que a aparente estabilidade da cobertura florestal nativa observada nas últimas décadas camufla a destruição de florestas antigas insubstituíveis e um aumento do isolamento florestal em 36,4% do bioma. Os resultados indicam um alarmante processo de rejuvenescimento da cobertura florestal e até de distribuição espacial para áreas menos atraentes para a agricultura mecanizada, que podem ter efeitos deletérios para a conservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos. Destaca-se a necessidade crítica de desenvolver políticas que garantam a conservação de florestas antigas e diferencie florestas novas e antigas para a mensuração do impacto dos programas de restauração e reflorestamento.

Dado o pioneirismo brasileiro em políticas de restauração e especificamente a Lei da Mata Atlântica, é provável que essa destruição camuflada de florestas antigas esteja ocorrendo em passos mais largos em outras áreas tropicais.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

As consequências da dinâmica florestal observada na Mata Atlântica podem ser drásticas para a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos do bioma, incluindo o isolamento dos habitats e a extinção de espécies endêmicas. Ainda que a agricultura intensiva tenha poupado terras para restauração, ela também promove direta e indiretamente a destruição de florestas mais antigas, com altos valores potenciais para conservação, levando a impactos bastante negativos para a biodiversidade.

A pesquisa oferece elementos cruciais para a mensuração de ambiciosos programas de restauração florestal planejados para a próxima década. Isto se dá pela demonstração de como coberturas arbóreas nativas e exóticas podem ser diferenciadas; de como coberturas naturais florestais podem ser classificadas segundo a idade; e da forma como o impacto da dinâmica da cobertura vegetal no isolamento dos habitats pode ser medido. Portanto, a pesquisa aponta dados e metodologia para formuladores de políticas públicas, apoiadores e implementadores de programas de conservação e restauração em áreas tropicais. Além disso, a pesquisa oferece subsídios para novos estudos sobre a conservação da Mata Atlântica e de sua biodiversidade.

Os resultados desta pesquisa destacam a oportunidade de se promover políticas ambientais que conciliam a conservação de antigas florestas com a proteção das novas (limitando, por exemplo, as taxas de corte). Tais medidas contribuem, em última instância, para a mitigação do perverso rejuvenescimento e do deslocamento espacial das florestas nativas, que podem ser particularmente danosos para os ecossistemas mais biodiversos e ricos em carbono do planeta.

Referências

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Marcos R. Rosa é coordenador-técnico do MapBiomas, responsável técnico pelo Atlas dos Remanescentes Florestais da SOS Mata Atlântica/Inpe e responsável técnico - ArcPlan S/C Ltda. Doutor em ciências pela Geografia Física/USP, tem mais de 20 anos de experiência em planejamento, monitoramento e meio ambiente.

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