Como a participação infantil pode contribuir para ações de divulgação científica

Marcelo Kei Sato

Dissertação de mestrado

Participação infantil, imaginação e infância: contribuições para a divulgação científica

Children Participation, Imagination and Childhood: Contributions to the Science Communication

autor

Marcelo Kei Sato

orientadora

Alessandra Fernandes Bizerra

Área e sub-área

Divulgação científica, Engajamento público

Defendido em

Universidade de São Paulo, Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências em 08/11/2019

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Esta dissertação de mestrado, defendida no Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências da USP (Universidade de São Paulo), analisa a participação infantil em projetos de divulgação científica. A partir do projeto de conservação do papagaio-de-peito-roxo, em Santa Catarina, o trabalho avaliou o engajamento de crianças entre 6 e 12 anos segundo 4 modelos analíticos diferentes de participação.

As divergências de regras e interesses dos mundos adulto e infantil representaram desafios para a execução do projeto de divulgação científica estudado. Ao mesmo tempo, o incentivo para a participação ativa das crianças se mostrou uma estratégia valiosa na construção da visão infantil sobre si e sobre o ambiente em que se insere. O estudo da experiência infantil neste programa de comunicação pública da ciência específico indica caminhos para pesquisas futuras sobre educação de crianças e divulgação científica.

A qual pergunta a pesquisa responde?

A pesquisa investigou as formas de participação de crianças no processo de criação de mídias de divulgação científica. O trabalho objetivava compreender como indivíduos entre 6 e 12 anos se engajaram na divulgação de conhecimentos e processos científicos, particularmente, em regiões onde atua um projeto de conservação do papagaio-de-peito-roxo (SC).

Por que isso é relevante?

Ao apontar para os modos de participação infantil na divulgação científica, a pesquisa colabora tanto para o desenvolvimento teórico-metodológico quanto para a produção de mídias de divulgação científica mais participatórias. Nesse sentido, o trabalho adotou o termo "participatório" para referenciar modos específicos de promoção da participação ativa, como coprodução e tomadas de decisão, em contraponto a engajamentos menos ativos, como consulta ou emissão de opinião.

No campo social, convidar crianças residentes de regiões inseridas em projetos científicos para participar de ações educativas e processos de divulgação é uma forma de conhecer seus pensamentos e ideias sobre a ciência que está sendo feita no local. Essa postura está fundamentada em duas concepções: 1) a infância como categoria geracional e detentora de direitos e, 2) a divulgação científica como um processo cultural capaz de promover ideais democráticos.

O diálogo com as crianças permite aos projetos científicos – especialmente aqueles que dependem do envolvimento da população – conhecer aspectos da cultura local, bem como criar um canal de comunicação que envolve diretamente os sujeitos da região. Podem ainda se aproximar das prefeituras dos municípios, principalmente via secretarias municipais de educação, e integrar suas ações.

Resumo da pesquisa

Este trabalho investiga os modos de participação de crianças em ações de DC (divulgação científica) na coprodução de mídias “rádio” e “audiovisual”.

No contexto da divulgação científica, a coprodução ocorre com a atuação do público durante os processos de criação de mídias ou eventos de comunicação das ciências. As visões e concepções do público não-acadêmico são colocadas em diálogo com os conhecimentos das ciências, resultando em um produto mais contextualizado.

A investigação ocorreu no contexto do projeto “Reintrodução do papagaio-de-peito-roxo no Parque Nacional das Araucárias” realizado em parceria com o Instituto Espaço Silvestre, as secretarias de educação dos municípios de Passos Maia e Ponte Serrada (SC) e três escolas municipais da região.

Por meio das abordagens teórico-metodológicas da DC, compreendida como cultura (estudos culturais), e com foco em ações participatórias, buscou-se compreender os diferentes modos de participação infantil nas ações de coprodução de mídias. Foram coletados e analisados os registros audiovisuais das ações, o caderno de campo do pesquisador e as mídias coproduzidas com e pelas crianças participantes (dez episódios de radionovela e dois audiovisuais). Como resultados das análises emergiram quatro modos principais de participação infantil nas ações de DC de coprodução de mídias: (1) contextualizada, (2) simbólica, (3) técnica/estética e (4) identitária.

Quais foram as conclusões?

Como resultado, as análises identificaram quatro modos de participação:

  • A participação contextualizada, em que a criança participa ao incorporar elementos de seu contexto. Assim, ela constrói a visão de si, da região em que vive e, ao compartilhar seus conhecimentos, elabora como a identidade local se insere nas ações de DC.
  • A participação simbólica, aquela na qual a criança participa ao construir os elementos simbólicos presentes nas narrativas e mídias. Discutiu-se como a estrutura narrativa (histórias puramente descritivas ou com problemas a serem superados, por exemplo) pode promover ou limitar esse tipo de atuação das crianças.
  • A participação técnica/estética, aquela em que a criança participa das decisões técnicas de produção ou estéticas dos produtos. Nesse caso, o foco reside no modo como elas se apropriam e participam das decisões para a mídia final.
  • A participação identitária, aquela em que a criança (ou grupo de crianças) reivindica suas ideias durante a coprodução. Diferentemente da participação contextualizada, nesse modo a identidade emerge durante as negociações dos grupos e não nos conteúdos dos produtos.

A interação dialética entre as regras do mundo adulto e do mundo das crianças surgiu como um desafio durante todo esse processo. Foram necessárias negociações para balancear tanto as demandas do projeto científico parceiro quanto abraçar os elementos das culturas da infância que, em um primeiro momento, fugiam às normas regulatórias da DC. Um exemplo é a presença de uma representação do bem e do mal nas narrativas. Esse tipo de representação é criticada dentro da DC, porém aparece como importante elemento nas brincadeiras e jogos das crianças, sendo capaz de promover debates como questões morais e éticas.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

O trabalho pode contribuir para pesquisadoras e pesquisadores, bem como educadores e divulgadores, engajados em projetos socioambientais que dependem do envolvimento de comunidades próximas a sua região de atuação e que possuem interesse em realizar uma aproximação de maneira participativa, buscando diálogos com os conhecimentos e a cultura local.

Referências

SATO, Marcelo Kei. Participação infantil, imaginação e infância: contribuições para a divulgação científica. 2019. 128p. Dissertação (mestrado em ensino de ciências). Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.

DAVIES, Sarah R.; HORST, Maja. Science Communication: Culture, Identity and Citizenship. New York: Springer, 2016.

METCALFE, Jenni. Comparing Science Communication Theory with Practice: An Assessment and Critique Using Australian Data. Public Understanding of Science, Berlin, v. 28, n. 4, p. 382-400, 2019.

THOMAS, Nigel. Towards a Theory of Children's Participation. The International Journal of Children's Rights, United Kingdon, v. 15, n. 2, p. 199-218, 2007.

CONVERSA Conserva. Produção: Instituto Espaço Silvestre. Direção: Marcelo K. Sato Caramelo. [S. l.: s. n.], 2017. 1 vídeo (13 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OsDfdohnLSc&t=27s. Acesso em 05 maio 2021.

Marcelo Kei Sato é biólogo, mestre em ensino de ciências, professor de ciências e produtor de mídia audiovisual voltada para o ensino e a divulgação científica. Atua academicamente na interface entre os conhecimentos científicos com os estudos da educação, comunicação e da arte. Fora do mundo acadêmico é fotógrafo, roteirista, editor e podcaster integrante da equipe do “Alô, Ciência?”.

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