Como a pandemia aumentou a insegurança alimentar no Ceará

Hermano Rocha

Paper

COVID 2019, segurança alimentar e saúde mental materna

Coronavirus Disease 2019, Food Security and Maternal Mental Health in Ceará, Brazil: A Repeated Cross-Sectional Survey

autores

Hermano Alexandre Lima Rocha, Christopher Robert Sudfeld, Sabrina Gabriele Maia Oliveira Rocha, Márcia Maria Tavares Machado, Álvaro Jorge Madeiro Leite, Jocileide Sales Campos, Anamaria Cavalcante e Silva e Luciano Lima Correia

Área e sub-área

Saúde pública, Saúde materno-infantil

Publicado em

Public Health Nutrition em 10/02/2021

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Este estudo, publicado na revista Public Health Nutrition, mostra que, por causa da pandemia do novo coronavírus, a prevalência de insegurança alimentar aumentou 15,5% em famílias com crianças de até 9 anos no estado do Ceará, o que representa 1.378.065 pessoas a mais nessa situação.

Além de identificar o impacto da crise de saúde na insegurança alimentar, a pesquisa avaliou a prevalência de alterações na saúde mental materna durante o período de isolamento social em 2020, além de verificar o efeito da perda de empregos e da ajuda governamental nesses desfechos.

A qual pergunta a pesquisa responde

A pandemia de covid-19 trouxe, além de suas vítimas diretas, diversos impactos econômicos e sociais como efeito das restrições de circulação, que levaram ao empobrecimento da população. Um novo estudo, realizado por pesquisadores da Harvard School of Public Health e pela Universidade Federal do Ceará, avaliou o efeito da pandemia em domicílios com crianças de até 9 anos de idade no estado do Ceará nos meses de junho a setembro de 2020, durante o lockdown. A pesquisa identificou que a prevalência de insegurança alimentar aumentou 15.5%, o que representa 1.378.065 pessoas a mais nesta situação somente no estado do Ceará.

Por que isso é relevante?

Insegurança alimentar é a falta de disponibilidade e de acesso das pessoas aos alimentos. Considera-se que uma casa tem segurança alimentar quando seus ocupantes não vivem com fome ou sob o medo de inanição. O Ceará é o sétimo estado mais pobre do Brasil, com cerca de 18,4% de sua população em extrema pobreza. Em 2020, o isolamento social realizado para conter a expansão do coronavírus levou à diminuição da produção econômica na maioria dos países, inclusive no Brasil, o que tem levado ao desemprego e à diminuição da capacidade de as famílias manterem sua alimentação.

Resumo da pesquisa

Para identificar os efeitos da pandemia sobre as famílias no Ceará, os pesquisadores realizaram entrevistas via telefone durante os meses de maior isolamento social em 3.566 domicílios com crianças que haviam participado de um estudo realizado pelo mesmo grupo em 2017. Além da insegurança alimentar, os autores avaliaram a presença de transtornos mentais comuns nos responsáveis pelas crianças, considerando que o estado mental é afetado pela insegurança alimentar.

Os pesquisadores identificaram que a insegurança alimentar aumentou 15,5%, e os transtornos mentais maternos aumentaram 40,2% na pandemia. Sessenta e dois por cento dos participantes da pesquisa que estavam empregados em 2017 relataram ter perdido seus empregos, e 69% afirmaram receber o auxílio emergencial de R$ 600 mensais do governo instituído em 2020 para famílias que perderam suas fontes de renda.

Como era de se esperar, a perda do emprego e da renda esteve associada à maior prevalência de insegurança alimentar. Entretanto, famílias com maior insegurança alimentar tiveram mais chances de relatar que receberam o auxílio emergencial. O dado sugere que a política poderia ser melhorada para evitar que as famílias mais pobres e afetadas pela pandemia passassem a apresentar insegurança alimentar. A perda do emprego não se associou com o estado mental materno, o que sugere que outros fatores — como a própria insegurança alimentar e a imprevisibilidade da pandemia — podem estar afetando a saúde mental das cuidadoras.

Quais foram as conclusões?

Esses achados destacam a magnitude do impacto da pandemia de covid-19 na nutrição e na saúde infantil. A insegurança alimentar é negativamente associada com o desenvolvimento infantil. Os autores concluem que o Ceará é comparável a muitos países em desenvolvimento, e as descobertas destacam a necessidade de políticas robustas que abordem a insegurança alimentar em decorrência da pandemia.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Diversos setores podem fazer bom uso dos resultados encontrados no estudo. Gestores públicos, especialmente os da saúde, os da educação e os de desenvolvimento econômico, devem atentar para o aumento importante da insegurança alimentar e dos transtornos mentais maternos devido à pandemia de covid-19, pois estas exposições estão intimamente relacionadas com o desenvolvimento infantil. O investimento em políticas públicas que protejam as famílias da insegurança alimentar deve ser uma prioridade, para evitar que milhões sejam lançados a essa situação.

Referências

LL Correia, HAL Rocha, Sudfeld CR, et al. Prevalence and socioeconomic determinants of development delay among children in Ceará, Brazil: A population-based study. PloS one 14.11 (2019): e0215343.

LL Correia, HAL Rocha, SGM Oliveira Rocha, et al.Methodology of maternal and child health populational surveys: a statewide cross-sectional time series carried out in Ceará, Brazil, from 1987 to 2017, with pooled data analysis for child stunting. Ann Glob Health, 85 (1) (2019), p. 24.

JP Shonkoff. Leveraging the biology of adversity to address the roots of disparities in health and development. Proc Natl Acad Sci U S A, 109 (suppl 2) (2012), pp. 17302-17307.

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Hermano Alexandre Lima Rocha é médico, pós-doutorando da Harvard School of Public Health e professor da Universidade Federal do Ceará. Cientista do desenvolvimento infantil, realiza estudos epidemiológicos que tentam levantar evidências para a geração de políticas públicas que ajudem a aumentar o capital humano internacional. No momento, está realizando dois estudos de alto potencial, um específico para crianças abaixo da linha da pobreza e uma coorte das crianças entrevistadas neste estudo.

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeDRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUT