Qual o impacto de experiências adversas para o desenvolvimento infantil

Hermano Rocha

Paper

Experiências adversas e desenvolvimento infantil: um estudo de base populacional no Ceará

Adverse Childhood Experiences and Child Development Outcomes in Ceará, Brazil: A Population-based Study

autores

Hermano Alexandre Lima Rocha, Christopher Robert Sudfeld, Sabrina Gabriele Maia Oliveira Rocha, Márcia Maria Tavares Machado, Álvaro Jorge Madeiro Leite, Jocileide Sales Campos, Anamaria Cavalcante e Silva, Luciano Lima Correia

Área e sub-área

Saúde pública, Saúde materno-infantil

Publicado em

American Journal of Preventive Medicine em 05/11/2020

Link para o original

Este paper, publicado no American Journal of Preventive Medicine, estuda os fatores para o atraso do desenvolvimento de crianças. Com foco nas experiências adversas vividas por crianças de até 5 anos de idade, ajustadas pelo nível socioeconômico, estado nutricional e estimulação ambiental e social — principais elementos que influenciam o desenvolvimento infantil — os autores buscam entender de que forma essas experiências atuam sobre as crianças analisadas e como o desenho de políticas públicas pode corrigir os problemas identificados.

Os achados sugerem que experiências adversas durante a infância, como ser alvo de gritos ou de castigo corporal, têm um impacto negativo no desenvolvimento. O efeito é cumulativo: cada novo estressor aumenta a magnitude dos prejuízos, e crianças com três ou mais experiências adversas chegam a ter um nível de desenvolvimento infantil 10% menor que o de outras. Riscos emocionais como transtornos mentais maternos e violência doméstica também parecem levar a um pior desenvolvimento infantil.

A qual pergunta a pesquisa responde

Estima-se que no mundo mais de 200 milhões de crianças com menos de 5 anos não conseguem atingir plenamente seu potencial de desenvolvimento devido a uma miríade de fatores, com destaque para o nível socioeconômico, o estado nutricional e a estimulação ambiental e social.

Além desses elementos, que já estão estabelecidos, a literatura internacional tem feito descobertas importantes envolvendo a ocorrência de estressores diretos sobre as crianças. A depressão maternal, a violência de parceiro íntimo no ambiente familiar e outras experiências adversas durante a infância têm sido associadas com eventos deletérios para o bom desenvolvimento infantil, como a elevação do cortisol sérico e disfunções do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

Mas estudos epidemiológicos populacionais em países em desenvolvimento sobre essa associação em crianças menores de 5 anos ainda são raros. O objetivo desta pesquisa foi verificar a magnitude dessa interação em uma amostra de crianças do Ceará

Por que isso é relevante?

Pesquisas mostram que o patamar de desenvolvimento infantil alcançado pelas crianças está associado com a performance escolar, a produtividade durante as atividades profissionais no futuro e a geração de renda no nível individual. No nível populacional, baixos resultados de desenvolvimento infantil afetam o capital humano de uma nação inteira.

Apesar de ainda pouco se falar sobre desenvolvimento infantil nas rodas gerais de conversa, e de menos de 5% das crianças terem seu desenvolvimento avaliado no Brasil, estudos anteriores mostraram que quase 10% das crianças com menos de 5 anos apresentam algum tipo de atraso de desenvolvimento, e mais 10% têm risco elevado de virem a apresentá-los no futuro.

Os achados deste estudo podem ser o primeiro passo para o desenvolvimento de políticas públicas com altíssimo retorno do investimento do recurso público. Eles também podem sinalizar para os profissionais envolvidos na assistência das crianças quais características epidemiológicas devem ser avaliadas durante as consultas. Trabalhos futuros de intervenção podem levar ao desenvolvimento direto de programas integrados entre educação, saúde e economia para abordar essa situação.

Resumo da pesquisa

Avaliamos 3.566 crianças após a visitação in loco de 3.200 domicílios do Ceará. As casas visitadas foram escolhidas de forma aleatória, estratificada e sistemática, para garantir que a amostra fosse representativa. Dessa forma, garantimos que localidades rurais e de baixa densidade fossem estudadas, mas que os grandes centros urbanos tivessem participação compatível com sua densidade populacional.

As entrevistadoras receberam treinamento de pediatras e epidemiologistas na universidade para serem capazes de avaliar tanto o desenvolvimento infantil das crianças analisadas quantos as experiências adversas de forma adequada. Os instrumentos que utilizamos para medir as informações de interesse são reconhecidos internacionalmente como adequados para tal fim.

Para a análise desses dados, consideramos todos os critérios necessários pelo desenho do estudo, e os resultados encontrados foram ajustados por outros determinantes já estabelecidos na literatura para desenvolvimento infantil, seguindo um modelo teórico baseado nas últimas publicações da Organização Mundial da Saúde sobre o tema.

Quais foram as conclusões?

Os achados sugerem que as experiências adversas durante a infância, como ser alvo de gritos ou de castigo corporal, têm um impacto negativo no desenvolvimento infantil. Esse efeito é cumulativo: cada novo estressor aumenta a magnitude dos prejuízos, e crianças com três ou mais experiências adversas chegam a ter um nível de desenvolvimento 10% menor que o de crianças iguais em outros aspectos, mas sem experiências desse tipo.

Riscos emocionais, como os transtornos mentais maternos e a ocorrência de violência de parceiro íntimo, também parecem levar a um pior desenvolvimento infantil. A provável causa para esse quadro é a ocorrência do estresse tóxico, que é o estresse que se apresenta em um nível maior do que o que a criança consegue lidar. Viver esse tipo de tensão traz prejuízos como o aumento do cortisol sérico e disfunções do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, além de um possível dano para relação do binômio mãe-filho, o que diminui os estímulos necessários a um desenvolvimento adequado.

A tomada de decisão para políticas públicas precisa de dados específicos e generalizáveis sobre a prevalência de fatores de risco e sua relação com o desenvolvimento infantil. A alta prevalência de estressores nas crianças que participaram do estudo sugere a necessidade de políticas e programas de intervenção na primeira infância no estado do Ceará e em populações com características semelhantes no restante do Brasil e no mundo. Os fatores estudados têm origem no ambiente familiar, e programas de incentivo à parentalidade e de apoio social às famílias podem melhorar os resultados do desenvolvimento das crianças.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Várias audiências podem fazer bom uso dos resultados encontrados no estudo.

Gestores públicos, especialmente os da saúde, os da educação e os de desenvolvimento econômico, devem registrar em suas agendas as experiências adversas e do estresse tóxico no desenvolvimento infantil como uma prioridade. O investimento em melhorias do desenvolvimento infantil, além de causar efeitos diretos no desempenho escolar, na geração de renda e na saúde em nível individual, tem um efeito transgeracional, pois pais que atingiram o desenvolvimento pleno na infância têm menos chances de exporem seus filhos aos riscos descritos.

Os profissionais que atuam na assistência de crianças também devem ter acesso à pesquisa, pois o desenvolvimento infantil inadequado tem uma elevada prevalência, e a avaliação realizada nos atendimentos a criança desse desfecho, sobre os desdobramentos negativos de um desenvolvimento infantil inadequado na população em geral, é incompativelmente baixa. Além de ressaltar a importância de avaliar com cuidado os resultados de análises que foquem em compreender as dinâmicas do impacto da qualidade da infância na vida adulta da população, identificar as exposições pode levar a ações benéficas para a melhoria da infância.

Por último, mas mais importante, os próprios pais podem aproveitar os resultados e as conclusões apresentadas no estudo para fazer uma reflexão pessoal e familiar. E, se necessário, podem também buscar atenção profissional ou realizar mudanças que melhorem as experiências a que as crianças são apresentadas no cotidiano.

Referências

LL Correia, HAL Rocha, Sudfeld CR, et al. Prevalence and socioeconomic determinants of development delay among children in Ceará, Brazil: A population-based study. PloS one 14.11 (2019): e0215343.

LL Correia, HAL Rocha, SGM Oliveira Rocha, et al.Methodology of maternal and child health populational surveys: a statewide cross-sectional time series carried out in Ceará, Brazil, from 1987 to 2017, with pooled data analysis for child stunting. Ann Glob Health, 85 (1) (2019), p. 24

JP ShonkoffLeveraging the biology of adversity to address the roots of disparities in health and development. Proc Natl Acad Sci U S A, 109 (suppl 2) (2012), pp. 17302-17307

S Grantham-McGregor, YB Cheung, S Cueto, et al.Developmental potential in the first 5 years for children in developing countries. Lancet, 369 (9555) (2007), pp. 60-70

C Lu, MM Black, LM RichterRisk of poor development in young children in low-income and middle-income countries: an estimation and analysis at the global, regional, and country level. Lancet Glob Health, 4 (12) (2016), pp. e916-e922"

Hermano Alexandre Lima Rocha é médico, pós-doutorando da Harvard School of Public Health e professor da Universidade Federal do Ceará. Cientista do desenvolvimento infantil, realiza estudos epidemiológicos que tentam levantar evidências para a geração de políticas públicas que ajudem a aumentar o capital humano internacional. No momento, está iniciando dois estudos de alto potencial, um específico para crianças abaixo da linha da pobreza e uma coorte das crianças entrevistadas neste estudo.

Parceiros

AfroBiotaBPBESBrazil LAB Princeton UniversityCátedra Josuê de CastroCENERGIA/COPPE/UFRJCEM - Cepid/FAPESPCPTEClimate Policy InitiativeDRCLAS - HarvardIEPSJ-PalLAUT