Gestão ambiental e os mamíferos na zona rural de São Paulo

Camila Alvez Islas

Tese

Fatores influenciando mamíferos em paisagens rurais: contribuições para o manejo

autora

orientadora

Cristiana Simão Seixas

Área e sub-área

Ecologia, Ecologia aplicada

Publicado em

Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas

Defendido em

25/06/2019

Link para o original

Esta tese de doutorado, defendida na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), analisa mudanças dos últimos 30 anos na dinâmica de mamíferos no Vale do Paraíba, na zona rural de São Paulo, para gerar informações que ajudem a construir estratégias de gestão ambiental, desenvolvimento e manejo da mastofauna (isto é, o conjunto de mamíferos da região).

A pesquisa identificou que fatores socioeconômicos e ambientais que moldaram a paisagem rural ao longo do tempo, além de interações do ser humano com os animais, vêm afetando mamíferos de médio e grande porte e causando perdas na produção agrícola local. A tese apresenta caminhos para promover o desenvolvimento socioeconômico integrado à conservação, de maneira que populações humanas e de animais possam coexistir.

A qual pergunta a pesquisa responde

Que mudanças ocorreram nas assembleias de mamíferos de médio e grande porte, e que fatores influenciaram essas mudanças em paisagens rurais no Vale do Paraíba paulista nas últimas três décadas. Essa pergunta foi realizada a fim de gerar informações para fomentar estratégias integradas de gestão ambiental e desenvolvimento local, com foco no manejo da mastofauna.

Por que isso é relevante?

As paisagens rurais são ambientes que têm múltiplos usos, como por exemplo a produção rural (agricultura, pecuária, silvicultura), estruturas para o abastecimento de água, atividades de lazer e as unidades de conservação. Além de serem importantes espaços para o desenvolvimento de atividades humanas, as paisagens rurais são habitat de muitas espécies nativas, incluindo da mastofauna. Esse uso diversificado das paisagens torna a gestão integrada desses ambientes um desafio. Há diversos fatores ambientais e socioeconômicos nas paisagens rurais que são capazes de afetar a mastofauna, todavia, pouco se compreende sobre esses efeitos, o que impede que decisões corretas sejam tomadas para a proteção desses animais. Além disso, a interação entre as populações humanas rurais e os mamíferos muitas vezes é de natureza negativa, e acaba gerando tanto perdas econômicas para os produtores rurais quanto retaliação e perda de indivíduos para as populações da mastofauna. Essa situação necessita o envolvimento dos órgãos ambientais e da sociedade civil para sua mitigação, já que a proteção da fauna é de interesse de todos, não podendo ser relegada apenas aos proprietários rurais. Nesse contexto, gerar informações ecológicas sobre a mastofauna nas paisagens rurais, por meio de uma perspectiva socioecológica, se mostra crucial para subsidiar a tomada de decisão e direcionar ações voltadas para o manejo da mastofauna e a gestão das paisagens rurais. O envolvimento da população humana rural na geração dessas informações e na tomada de decisão sobre as paisagens rurais também é fundamental.

Resumo da pesquisa

As paisagens rurais são fundamentais para o manejo da mastofauna, pois representam uma parte importante do território utilizado por esse táxon. Essas paisagens têm múltiplos fatores ambientais e socioeconômicos que afetam a estrutura das assembleias de mamíferos, todavia, pouco se compreende sobre esses efeitos. Nesse contexto, esta pesquisa teve por objetivo geral investigar que mudanças têm ocorrido, e que fatores influenciaram essas mudanças, na estrutura das assembleias de mamíferos de médio e grande porte (>1kg) em paisagens rurais nas últimas três décadas, a fim de gerar informações para fomentar estratégias integradas de gestão ambiental e desenvolvimento local. Desenvolvemos este estudo na porção sul da região do Vale do Paraíba, em São Paulo. A coleta de dados consistiu em três etapas principais: revisão de literatura e reunião de dados sobre parâmetros estruturais da área de estudo (como cobertura vegetal, distância das paisagens das rodovias), entrevistas com atores-chave (n=10) e condução de surveys com 300 moradores em 30 paisagens rurais de 1250 hectares cada. Nossos resultados sugerem que três dimensões afetaram e estão afetando as assembleias de mamíferos nessas paisagens: i) condicionantes socioeconômicos e ambientais que moldaram as paisagens rurais do Vale do Paraíba ao longo do tempo, ii) as características estruturais e socioeconômicas atuais das paisagens rurais e iii) as interações ser humano-fauna. Estratégias de monitoramento da fauna, para diminuir perdas na produção agrícola e que promovam o desenvolvimento socioeconômico integrado à conservação, podem informar a gestão das paisagens rurais e favorecer a coexistência entre populações humanas e mamíferos de médio e grande porte no Vale do Paraíba.

Quais foram as conclusões?

Em uma perspectiva histórica, i) estratégias de conservação implementadas na segunda metade do século passado (como unidade de conservação, leis de regulação da caça e de proteção da vegetação nativa), ii) um processo de êxodo rural e de mudança gradual no perfil do morador rural dessa região (interesse recente no turismo e na conservação) e iii) um consequente processo de transição florestal (isto é,, aumento líquido na cobertura vegetal nativa) na região resultaram na proteção parcial dos ecossistemas florestais e possivelmente da mastofauna. Atualmente, as assembleias de mamíferos que apresentam maior riqueza são as que estão mais próximas da área protegida, em paisagens com maior cobertura vegetal, com propriedades rurais de tamanhos maiores e com menor número de moradores. As interações ser humano-fauna também se transformaram nas últimas décadas: enquanto a caça era anteriormente a principal interação entre produtores rurais e a mastofauna, atualmente se destacam interações com prejuízos para produção agropecuária e, em contraste, de cuidado com a mastofauna. Na região, é latente a necessidade de resolução das perdas da produção rural causadas pela fauna, visto que o produtor da região é majoritariamente de pequena escala e mostra dificuldades em se manter no campo. Destacamos a necessidade de incluir abordagens socioambientais na pesquisa da mastofauna e de que as tomadas de decisão sejam baseadas em uma estratégia de manejo adaptativo, na qual as ações sejam tomadas e avaliadas constantemente. Apontamos que o desenvolvimento de estratégias de monitoramento da fauna pode informar a gestão das paisagens rurais, para ajudar a diminuir perdas na produção agrícola e favorecer a coexistência entre populações humanas e mamíferos de médio e grande porte no Vale do Paraíba.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Os resultados deste trabalho são de interesse dos tomadores de decisão de diferentes níveis (como proprietários rurais, gestores de unidades de conservação, políticos), técnicos (como extensionistas, funcionários públicos) e organizações não governamentais, envolvidos com as áreas ambiental e agropecuária ou com as paisagens rurais de forma ampla.

Referências

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Marchini, S. 2014. Who’s in Conflict with Whom? Human Dimensions of the Conflicts Involving Wildlife. In: Verdade, L. M., Lyra-Jorge, M. C. & Piña, C. I. (Eds.). Applied Ecology and Human Dimensions in Biological Conservation. Berlin: Springer-Verlag Berlin Heidelberg.

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Camila Alvez Islas é bióloga pela Universidade Federal de Pelotas e mestra e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Trabalha atualmente no Instituto Internacional para a Sustentabilidade (IIS) no Rio de Janeiro.Também é jovem pesquisadora (fellow) da Avaliação sobre o Uso Sustentável de Espécies Selvagens da IPBES (Plataforma Intergovernamental de Ciência e Política sobre a Biodiversidade e os Serviços Ecossistêmicos (IPBES). Tem experiência nas áreas de gestão de recursos naturais e de ecologia, manejo e conservação da biodiversidade (sobretudo da fauna silvestre) e dos serviços ecossistêmicos. Em especial, aborda os efeitos da presença e da ação humana sobre comunidades e ecossistemas, a partir da perspectiva dos sistemas socioecológicos, integrando o conhecimento ecológico tradicional e local e métodos participativos. Atuou em projetos de pesquisa, ensino e extensão nacionais e internacionais e teve experiências no exterior (Imperial College London e Universidad Autônoma de Barcelona).

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