Como o desmatamento pode influenciar a malária na Amazônia

Meyrecler Padilha

Dissertação de mestrado

Processos associados ao declínio do fardo da malária: o paradoxo da perda de floresta amazônica

autora

Meyrecler Aglair de Oliveira Padilha

orientador

Gabriel Zorello Laporta

Área e sub-área

Saúde coletiva, epidemiologia

Publicado em

Centro Universitário Saúde ABC, Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde

Link para o original

Esta dissertação de mestrado, apresentada no Centro Universitário Saúde ABC, investigou a relação entre o desmatamento na Amazônia e a incidência de malária na região, que hoje concentra mais de 99% dos casos da infecção no Brasil.

A pesquisa mostrou que, apesar de ser mais intuitivo pensar que o desmatamento sempre aumenta a probabilidade da doença, essa correlação não é linear (veja figura a seguir). Enquanto a perda de cobertura florestal favorece a incidência de malária no Acre (cuja floresta está relativamente preservada), ela a diminui no estado de Rondônia (que está degradado).

gráfico não linear que relaciona casos de malária e cobertura florestal

Com base na presente dissertação de mestrado foram produzidos dois artigos originais sobre o tema (Laporta, 2019; de Oliveira Padilha et al., 2019). No primeiro, chamamos atenção sobre o paradoxo em relação à saúde planetária – dilema da humanidade em eliminar a malária no Brasil e, ao mesmo tempo, colapsar o principal bioma de floresta tropical. No segundo, exploramos melhor a relação não linear com um desenho experimental bem interessante. Comparamos a relação desmatamento-malária no estado do Acre (preservado) com o Estado de Rondônia (degradado). Encontramos a relação não linear nesse desenho experimental: (1) o desmatamento aumenta a malária no Acre e (2) o desmatamento diminui a malária em Rondônia.

A qual pergunta a pesquisa responde

A malária é uma doença parasitária que afeta muitos seres humanos há muitos anos. No Brasil, no início da década de 1940, cerca de 6 milhões de casos de malária eram registrados anualmente. Com campanhas e intervenções intensivas, como uso de inseticidas, pulverização de casas, eliminação de criadouros, drogas antimaláricas, diagnóstico e tratamento precoce, foi possível estabilizar a doença. Entretanto, a partir de meados da década de 1970, a malária se espalhou para lugares mais favoráveis ao seu desenvolvimento, como a região amazônica, que é hoje responsável por mais de 99,8% da incidência dos casos da doença no país. De todo modo, é notório o declínio de hospitalizações e mortes pela doença nos últimos 20 anos. Há uma perspectiva de que a doença possa ser eliminada até 2030.

A região amazônica é palco de muitos estudos relacionados aos fatores que contribuem para a permanência constante da malária. Assim, a pesquisa buscou responder à seguinte pergunta: qual é a contribuição (se houver) do desmatamento da floresta amazônica para a redução da doença no processo de sua eliminação no Brasil?

Por que isso é relevante?

O paradigma da correlação da eliminação da malária com o desmatamento vem gerando longos debates e pesquisas nesse campo científico.

O debate a respeito do paradigma da correlação entre desmatamento e aumento da malária na Amazônia começou com o trabalho de Vittor e seus colaboradores (Vittor et al. 2006). Esses pesquisadores levantaram a hipótese de que o desmatamento aumenta a incidência da doença. A hipótese foi então desafiada com o trabalho de Valle e Clark (2013), que observaram maior incidência de malária em habitações humanas nas proximidades de áreas de conservação, em comparação com cidades distantes. Suas descobertas geraram discussão na comunidade científica. Ficou claro que a relação entre desmatamento e emergência da malária na Amazônia não era uniforme nem linear.

O grupo de Barros e Honório (2015) forneceu outra visão para esse debate. Eles apresentaram um modelo de transmissão chamado de franja de floresta. Isso está de acordo com a suposição, feita na dissertação apresentada neste texto, de que o Anopheles darlingi (o maior transmissor de parasitos da malária na Amazônia) é uma espécie de perturbação média (ocorre no meio do gradiente de desmatamento onde a cobertura florestal é de ~50%). Portanto, o desmatamento pode beneficiar ou ser prejudicial à sua população, dependendo da quantidade remanescente da cobertura florestal.

Quando não há consenso entre processos, não há políticas públicas. Os resultados mostram que (1) o desmatamento inicial em uma área preservada eleva o risco de malária e (2) a contínua perda de floresta em um local degradado pode promover uma diminuição na adequação de hábitat para o Anopheles darlingi e, consequentemente, diminuir o risco de malária.

Resumo da pesquisa

A pesquisa fez um estudo ecológico usando modelos espaciais e temporais para mapear e modelar o risco de malária na Amazônia. Os municípios dos estados do Acre e Rondônia foram as unidades espaciais de análise, enquanto meses e anos foram as unidades temporais. O estudo usou o número de casos de malária notificados de 2009 a 2015 para calcular a taxa de incidência por 1000 pessoas em risco e mediu o desmatamento acumulado nesse período usando imagens de satélite publicamente disponíveis.

A partir desses dados, a pesquisa aplicou um modelo de regressão geograficamente ponderada (correlaciona variáveis de saúde, ambiente e sociedade no espaço) para fornecer um modelo da heterogeneidade espacial das taxas de incidência de malária na região amazônica. Aplicou-se também uma regressão dinâmica de séries temporais (correlaciona variáveis de saúde, ambiente e sociedade no tempo) para testar a correlação das taxas de incidência e desmatamento acumulado, ajustadas por fatores climáticos e socioeconômicos.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa mostra que (1) o desmatamento inicial em uma área preservada eleva o risco de malária e (2) a contínua perda de floresta em um local degradado pode promover uma diminuição na adequação de habitat para o transmissor Anopheles darlingi, consequentemente diminuindo o risco de malária na região.

Isso significa, em outras palavras, que a modificação da paisagem causada pelo desmatamento acumulado é um importante fator para a incidência da malária na Amazônia brasileira, mas essa relação não é linearmente correlacionada porque depende da proporção geral da terra coberta pela floresta. Para regiões parcialmente degradadas, a cobertura florestal passa a ser um componente menos representativo da paisagem, ocasionando a referida relação não linear. Nesse cenário, o desmatamento acumulado pode levar a um declínio na incidência da malária.

A biodiversidade amazônica está ameaçada por causa dos efeitos generalizados de perda de habitats de espécies nativas, incluindo os habitats de Anopheles darlingi. Há atualmente um cenário de perde-ganha para a saúde planetária. Estamos vivendo em uma era importante de eliminação da malária no Brasil, mas ao mesmo tempo perdendo de vista os últimos remanescentes de florestas tropicais na Amazônia.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Estudantes e pesquisadores, para compreender os paradoxos de processos de relacionamento não lineares. O Executivo, Legislativo e Judiciário, para aplicar esse conhecimento para as políticas públicas.

Referências

Barros FS, Honório NA. Deforestation and Malaria on the Amazon Frontier: Larval Clustering of Anopheles darlingi (Diptera: Culicidae) Determines Focal Distribution of Malaria. Am J Trop Med Hyg. 2015;93(5):939-953. doi:10.4269/ajtmh.15-0042

de Oliveira Padilha MA, de Oliveira Melo J, Romano G, et al. Comparison of malaria incidence rates and socioeconomic-environmental factors between the states of Acre and Rondônia: a spatio-temporal modelling study. Malar J. 2019;18(1):306. Published 2019 Sep 4. doi:10.1186/s12936-019-2938-0

Laporta GZ. Amazonian rainforest loss and declining malaria burden in Brazil. Lancet Planet Health. 2019;3(1):e4-e5. doi:10.1016/S2542-5196(18)30243-2

Valle D, Clark J. Conservation efforts may increase malaria burden in the Brazilian Amazon. PLoS One. 2013;8(3):e57519. doi:10.1371/journal.pone.0057519

Vittor AY, Gilman RH, Tielsch J, et al. The effect of deforestation on the human-biting rate of Anopheles darlingi, the primary vector of Falciparum malaria in the Peruvian Amazon. Am J Trop Med Hyg. 2006;74(1):3-11.

Meyrecler Aglair de Oliveira Padilha é graduada em biologia pela Universidade Federal do Acre e mestre em Ciências da Saúde no Centro Universitário Saúde ABC (FMABC). Tem atuação na área de docência em nível médio e superior na cidade de Cruzeiro do Sul, Acre.

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