Como a depressão materna influencia o desenvolvimento infantil

Rafaela A. Schiavo

Artigo

Desenvolvimento infantil, depressão materna e fatores associados: um estudo longitudinal

Development, Maternal Depression and Associated Factors: A Longitudinal Study

autora

Rafaela de Almeida Schiavo LATTES

Área e sub-área

Ciências Humanas, Psicologia

Publicado em

Paidéia

Defendido em

03/06/2020

Link para o original

Este paper, publicado na revista Paidéia, analisa como a depressão de mães na gestação e no período pós-parto pode interferir no desenvolvimento de seus filhos na primeira infância. A questão parte do princípio de que a saúde mental materna está entre os fatores que influenciam os cuidados e a estimulação dos bebês nos primeiros meses de vida.

A pesquisa, feita a partir da observação de 139 mulheres e de seus filhos aos 6 e aos 14 meses de idade, concluiu que uma alta porcentagem de crianças estava em risco e que sintomas depressivos maternos se associaram a atrasos em certas áreas do desenvolvimento infantil. O estudo também considerou efeitos de fatores socioeconômicos.

A qual pergunta a pesquisa responde

Existe associação entre o desenvolvimento de bebês aos 6 e aos 14 meses e os sintomas de depressão materna da gestação aos 14 meses pós-parto?

Por que isso é relevante?

Há indicativos de que a saúde mental materna pode influenciar os cuidados e a estimulação da mãe com o bebê. Cuidar da saúde mental materna pode minimizar atrasos ao desenvolvimento na primeira infância.

Resumo da pesquisa

A depressão materna pode comprometer o desenvolvimento infantil, mas pouco se investigou seus efeitos desde a fase gestacional. Este estudo longitudinal buscou observar, em dois momentos, crianças cujas mães têm sintomas depressivos e identificar se esses sintomas e outras variáveis sociodemográficas se associaram com o desenvolvimento entre os 6 e os 14 meses de idade.

A pesquisa coletou dados de 139 mulheres que responderam a um questionário sobre seus dados sociodemográficos e do nascimento de seus filhos. Elas também responderam a perguntas do chamado Inventário de Depressão de Beck. A coleta de dados ocorreu em três momentos: no terceiro trimestre gestacional, após seis meses desde o parto e aos 14 meses pós-parto. As crianças, por sua vez, foram avaliadas aos 6 e aos 14 meses de idade pelo Teste de Triagem do Desenvolvimento de Denver.

Observou-se alta porcentagem de bebês em risco aos 6 e aos 14 meses. Sintomas depressivos de mães se associaram com atrasos no desenvolvimento das crianças nas subáreas do chamado instrumento Denver (que engloba, entre outros aspectos, a habilidade pessoal-social, cognição, linguagem, motor fino e motor amplo), mas não com seu desenvolvimento global. Acredita-se também que a relação entre depressão materna e atraso no desenvolvimento seja mediada por outras variáveis que interferem indiretamente no processo, mas que precisam de maior investigação.

Quais foram as conclusões?

A pesquisa que uma alta porcentagem de bebês apresentou risco aos 6 e aos 14 meses em relação ao desenvolvimento neuropsicomotor (desenvolvimento em que a criança primeiro firma a cabeça, depois o tronco e membros inferiores). A subárea motora ampla foi a que apresentou maior porcentagem de crianças com prejuízos aos 6 meses. Aos 14 meses,a área da linguagem teve mais prejuízos.

O estudo não observou associação entre sintomas depressivos maternos e risco no desenvolvimento neuropsicomotor aos 6 e aos 14 meses das crianças. Da mesma forma, nenhuma variável referente à saúde materno-infantil, assim como fatores sociodemográficos e de cuidado, se associaram com desenvolvimento neuropsicomotor.

Entretanto, tanto sintomas depressivos como algumas variáveis sociodemográficas, clínicas e de cuidado se associaram significativamente com subáreas do desenvolvimento: pessoal-social, de linguagem e do motor amplo (como sentar, engatinhar e andar), tanto aos 6 quanto aos 14 meses de idade. Aos 6 meses, sintomas de depressão materna se relacionaram com atraso na área de desenvolvimento pessoal-social, possivelmente porque mães deprimidas oferecem cuidados básicos (como alimentação e higienização), mas interagem pouco e de forma pouco calorosa com os bebês. A associação de sintomas maternos de depressão pós-parto com atrasos no desenvolvimento pessoal-social também se mostrou significativa aos 14 meses. A pesquisa constatou ainda que, nessa idade, sintomas depressivos no terceiro trimestre gestacional se relacionaram com atraso na área do motor amplo.

Quem deveria conhecer os seus resultados?

Psicólogos e outros profissionais que trabalham com saúde mental materna e desenvolvimento na primeira infância.

Referências

Fernandes, F. C. & Cotrin, J. T. D. (2013). Depressão pós-parto e suas implicações no desenvolvimento infantil. [Postpartum depression and its implications for child Development] Revista Panorâmica Online (Barra do Garça – MT), 14(1), 15-34 2013.

Gerhardt, S. (2017). Por que o amor é importante: como o afeto molda o cérebro do bebê. [Why love matters] (M.R. Ide, Trans.). Porto Alegre, RS: Artmed. (Original work published 2015.

Morais, M. L. S., Lucci, T. K., Otta, E. (2013). Postpartum depression and child development in first year of life. Estudos de Psicologia (Campinas), 30(1), 7-17. doi:10.1590/S0103-166X2013000100002.

Piccinini, C. A., Frizzo, G. B., Brys, I. & Lopes, R. C. S. (2014). Parenthood in the context of maternal depression at the end of the infant’s first year of life. Estudos de Psicologia (Campinas), 31(2), 203-214. doi:10.1590/0103-166X2014000200006.

Rafaela A. Schiavo é psicóloga perinatal com pós-doutorado em psicologia do desenvolvimento e teorias da aprendizagem. É fundadora do Instituto MaterOnline, cujo objetivo é distribuir conteúdos e formar profissionais para atuação com saúde mental materna e desenvolvimento na primeira infância.

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